No ninho dos chwrantz-chrwantz (II)





Tavares Dias


Uma dos perigos do uso de figuras antropomórficas, ou seja, aquelas em que seres inanimados são ficcionalmente dotados, pelo autor, de características próprias de seres humanos, o que também pode ser chamado de animização, entre outras coisas, é que o limite da figura às vezes fica difuso, na média. Assim, a primeira crônica desta série, publicada na semana passada, causou um entulho de e-mails na minha caixa de mensagens, já que meus oito fiéis leitores acorreram, solícitos e pressurosos, a apontar características não-quero-querísticas na ave aqui superficialmente descrita na semana passada.

Como seria por demais extenso explicar tudo neste reduzido espaço, apelamos ao correspondente internacional não-remunerado da coluna, lá naquela remota república de Bwrakstan, que poderíamos traduzir um pouco temerosamente por Buraquistão. Pois informa então nosso colega que os chwrantz-chrwantz de lá, que aqui traduzimos canhestramente como quero-queros, sim, aqueles de lá fazem ninhos em árvores, diferentemente dos nossos (aves caradriiformes, da família dos caradriídeos, do gênero Belnopterus Reich), que têm guizos nas pontas das asas e se aninham no chão, em pastarias, pampas, beiras de praias, campos de futebol etc., conforme freqüentemente se pode ver em transmissões televisivas dos campeonatos do nosso futebol pentacampeão. Por conta de seu histérico alarido, são chamados de sentinelas dos pampas, a exemplo de outra avezinha cujo nome nos escapa e que, nas Gerais, são chamadas de puxa-saco de fazendeiro. Mas, conforme se pode depreender das informações do nosso correspondente, as subespécies quero-quero e chwrantz-chrwantz são igualmente insistentes, em suas pretensões, a um nível que poderíamos, sem temor, classificar como obsessivo.

Sucede, assim, que Quero-Quero-Xacomigo, descendente direto de Quero-Queria (outras duas traduções livres), tem um problema congênito que os veterinários buraquistaneses já tentaram em vão resolver. Trata-se de uma fragilidade na coluna vertebral que a torna (à coluna e à ave) anormalmente flexível. Aliás, enfatiza nosso correspondente, a deficiência dorsal da sofrida ave é conhecida, entre o bem-humorado povo buraquistanês, como "hímen complacente". Acresce ainda que na maioria do tempo o problema não é relevante para a sua saúde, evidenciando-se apenas em períodos em que se disputam melhores áreas para fazer ninhos, árvores mais frondosas e próximas de fontes de alimentos mais suculentos (de novo alerto meus oito leitores de que não são quero-queros brasileiros, são, seus digamos, primos buraquistaneses, os chwrantz-chwrantz).

Nesses períodos, Quero-Quero-Xacomigo emerge de sua recorrente depressão pós-traição e reaparece, penugem brilhante, olhar de noiva cortejada, sempre disposto a beliscar qualquer naco de poder onde lhe seja permitido obter algo baseado na frase cunhada pelo falecido e consagrado compositor buraquistanês Krawzjuzja: "aruk sokh ispröndza dja mürkh ana stru kravjazaën" (arrisco outra tradução: "encontro um abrigo no peito do meu traidor"). O perigo, segundo publicações ornitológicas buraquistanesas, é que os chwrantz-chwrantz, entre cujos hábitos não pontifica, de modo geral, a fidelidade, tende a assimilar comportamentos repetitivos (o que lembra outra coincidência com humanos: "O oprimido já traz dentro de si a semente do opressor") e passar também a trair sua ancestralidade, principalmente se as novas técnicas que os cientistas da distante república de Bwrakstan estão experimentando forem capazes de neutralizar em definitivo a complacência espinhal da ave.

Lembrando que esta é uma série de ficção e que portanto quaisquer nomes, situações ou fatos históricos que lembrem eventos ocorridos ao Sul do Equador terão sido meras coincidências, aguardem para a próxima semana, por favor, meus oito caríssimos leitores (não me abandonem), a terceira e última crônica da série.