"O que queremos é suprimir o caráter miserável desta apropriação que faz com que o operário só viva para aumentar o capital e só viva na medida em que o exigem os interesses da classe dominante". (Karl Marx)
Essa entrevista vai colocar o leitor de Século Diário diante de um dos maiores organizadores dos trabalhadores do campo: Valmir José Noventa, que deveria se chamar Valmir José Noenta se o escrivão na hora do registro de sua avó não tivesse trocado o Noenta pelo Noventa. O Noventa dele, portanto, não é apelido, como pode parecer no primeiro contato, e muito menos foi tomado em função do bordão Pedra 90.
É autêntico. Absolutamente real. O Noventa do Valdir é um Noventa que está na boca de quase todos os pequenos proprietários rurais de São Mateus, onde ele se dedica à sua organização, o MPA (Movimento do Pequenos Agricultores). Ele também é parte de um monte de dirigentes de trabalhadores que se politizaram na marra. No seu caso, desde menino.
Apesar de ser um agente político extremamente politizado, ele só pôde chegar onde chegou por causa de uma macumbeira que cruzou o seu caminho e o alfabetizou quando criança. Aos 36 anos de idade, ele está no topo da organização dos trabalhadores do campo e no foco dos latifundiários e das empresas do agronegócio. Duas horas de conversa com ele foram suficientes para se chegar à conclusão de que havíamos entrevistado um agente de transformação, um revolucionário de verdade.
- Século Diário - Fale um pouco da sua formação política. E fale também um pouco de você, da sua família.
Foto: Rogério Medeiros
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- Valmir: Nós moramos em Colatina, morei lá quando tinha quatro anos de idade. De lá, meu pai achou uma meia de café, e aí a gente foi pra Rio Bananal. Morei numa comunidade tipicamente camponesa mesmo, mas é uma comunidade de descendentes de europeus - que Rio Bananal tem uma descendência muito forte - e cultivava muito ainda aquele preconceito, principalmente preconceito racial. Então, meu pai não sofreu nada, eu também pouco, mas minha mãe sofreu. Só que naquela época a gente não percebeu isso, o cara discriminava o outro e não havia reação. E olha que isso tem pouco tempo. Quando eu estava com nove anos de idade, eu já sabia ler bem, porque era um moleque esperto na escola, e já era meio crítico das coisas. Aí, eu comecei a fazer trabalho de igreja, fazia leitura e tal - eu só tive uma professora até hoje, que era uma tal de Neuza, uma negra, e ela tinha um terreiro lá que ela fazia todo final de semana uns cultos e tal e ela era muito discriminada na comunidade. Mas ela foi uma pessoa que me ensinou muito, depois do meu pai e da minha mãe eu devo a essa mulher, a dona Neuza, que um dia ainda quero encontrar, não sei aonde. Eu tive uma notícia que ela mora em Domingos Martins.
- Entre na parte da formação política propriamente dita.
- Daí, quando eu tinha treze anos de idade... meu pai também sempre foi muito politizado, não sabia ler nem escrever, só o próprio nome, mas era um cabra crítico das coisas. Aí, na época, acho que foi em 1982, 83, por aí, quando apareceu no Espírito Santo um padre que chamava João Fugerf, ele era um francês. Então, ele começou em Rio Bananal o CPT (Comissão Pastoral da Terra). E meu pai começou a participar. Na época, a gente focou lá na comunidade um grupinho de base. E como meu pai, a maioria das pessoas que participavam não sabiam ler, mas eu sabia. A gente pegava aquelas cartilhas que vinham da diocese, do sindicato, das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) e debatia. Toda semana, na sexta-feira à tarde, tinha uma reunião. De modo que eu fui crescendo na atuação das comunidades de base, continuei nas CEBs, na CPT, na PJ (Pastoral da Juventude), fui militante da PJ durante muito tempo, trabalhei na área médica da Pastoral da Juventude. Atuei também no sindicato. No Movimento Sem Terra (MST) também tive algumas participações. Quando chegou em 84, 85, teve a ocupação da Fazenda Georgina no bloco 41 e eu era um menino ainda, um adolescente, mas ajudei a articular muitos grupos de base lá na região de Rio Bananal e até um pedaço de Vila Valério.
- Você então andou com José Rainha, que nesse tempo promovia as ocupações no norte do Espírito Santo?
- O Rainha andava conosco lá. Meu pai tinha um carrinho velho na época, um Fiat, e o Zé Rainha ia lá pra casa, ficava lá e a gente rodava as comunidades. Fazíamos os trabalhos de base. Bom, eu fui atuante, e naquela época eu... eu acho que hoje eu cresci politicamente, mas naquela época a gente tinha uma coragem muito grande. Eu lembro que certa vez nós atacamos um carro na estrada. Eu percebi, eu lembro disso, nós estávamos em um grupo de jovens, atacamos a pedrada. Eles vinham de um churrasco comemorando alguma coisa contra os trabalhadores. E hoje eu fico pensando o que significava aquele churrasco, certamente eles estavam encomendando ou comemorando a morte de algum líder sindical ou algum religioso da época, da luta dos camponeses. Bom, nós trabalhamos lá de modo que com muita luta meu pai conseguiu juntar um dinheirinho, mas a terra lá era cara, não dava para a gente se colocar. Então nós viemos para São Mateus. Porque aqui na região onde eu moro hoje, região de Santa Maria, o terreno é um pouquinho mais barato. Meu pai conseguiu comprar essa terrinha e a gente veio se situar aqui. Isso foi em 14 de julho de 1991, então tem 14 anos que eu moro aqui no município de São Mateus. Chegando aí, logo me engajei na Comunidade Eclesial de Base, que era onde eu tinha minha procedência. Logo depois eu tive participação no Sindicato dos Trabalhadores Rurais, aqui em São Mateus e Jaguaré, fui direção do sindicato por um bom período. Quando chegou em 98, foi que eu conheci o MPA (Movimento dos Pequenos Agricultores). E a partir de 2000 pra cá....
- O Movimento do Pequenos Agricultores você conheceu aonde?
- Eu conheci em um encontro que eu participei em São Gabriel da Palha. Ele tem origem no Rio Grande do Sul. Em 96, nasceu o MPA no Rio Grande do Sul. Já em 98, aqui no Espírito Santo, já estavam organizando o MPA em um grupo de São Gabriel da Palha, que foi para o Rio Grande do Sul, conheceu o movimento e trouxe pra cá a proposta de criação de um MPA aqui no Espírito Santo. Então, em 98 e 99, eu conheci o movimento, e em 2000 eu me engajei definitivamente no MPA, onde estou engajado até hoje, e de onde eu não quero sair nunca mais porque acredito na proposta do movimento. O foco do movimento trabalha na organização dos camponeses e para camponeses.
- Você está falando na forma de organização do movimento, tudo bem, mas você há de convir que você está numa região que praticamente hoje não tem quase mais pequeno agricultor. É eucalipto puro. É Aracruz celulose em cima das terras. Como é conduzir o movimento nessas condições?
Foto: Rogério Medeiros
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- O MPA é um movimento nacional, está no Espírito Santo também. Em nível nacional, no campo, moram hoje oito milhões de famílias, incluindo os camponeses, os ribeirinhos, os quilombolas, enfim, todo o povo que trabalha no campo hoje e que dá aí umas 40 milhões de pessoas, e aqui no Espírito Santo estimamos que existam ainda uns 700 mil camponeses e camponesas. O Espírito Santo é ainda um Estado onde a agricultura camponesa, a pequena propriedade tem uma predominância. O Espírito Santo e Santa Catarina talvez sejam no Brasil os estados onde a agricultura camponesa tem mais força. Mas se percebe que aqui no Espírito Santo, o latifúndio está a cada dia que passa avançando mais. Não era tanto do latifúndio do eucalipto, o latifúndio da cana, muito mais ainda.
- Esse momento é um momento importante para a gente falar a respeito disso, porque o Espírito Santo, antes da Aracruz Celulose, antes da cana, principalmente no norte do Estado, era um Estado que tinha uma perfeita reforma agrária. Agora elas se acham sob ameaça da cana e do eucalipto. O que fazer para contê-los?
- É organizando os camponeses aqui no Espírito Santo, mantê-los trabalhando no campo, e ao mesmo tempo, não só manter como ampliar o número de camponeses aqui. Fazer a reforma agrária que é o papel, é a luta dos movimentos sociais, o MPA, o MST, a CPT, junto às pessoas do campo. Então, se percebe que aqui no Espírito Santo há um avanço muito acelerado das grandes monoculturas do Estado, e claro, com o avanço da monocultura, se dá também o avanço do êxodo rural. Muitas famílias que moram no campo, em comunidades camponesas, estão deixando o campo, fugindo para as grandes cidades e para os pequenos povoados da zona rural, de modo que... você percebe, por exemplo, aqui na região do Sapê do Norte, que na década de 60, início da década de 70, moravam dois agrupamentos de quilombolas e hoje moram pouco mais de 1300, talvez nem isso. Percebe-se que pelo menos 85% das famílias tiveram que sair do campo, foram expulsas do campo. Isso aconteceu também em outras regiões do Estado, onde predominou e predomina o latifúndio do boi, latifúndio principalmente da cana e do eucalipto. É um desafio, como se enfrenta esse monstro do agronegócio, esse monstro das multinacionais que dominam a terra? Para nós do MPA, em nível nacional e em nível e local, esse talvez tenha sido o nosso grande desafio. Vamos brigar pelos direitos dos camponeses, caso contrário, nós corremos o risco de ficar reduzidos cada vez mais no nosso espaço territorial, no número de famílias, e a intenção do grande projeto capitalista é acabar com os camponeses.