São muito graves as acusações contidas no depoimento espontâneo prestado à Justiça pelo ex-diretor-geral da Assembléia Legislativa André Nogueira. E, por serem graves, requerem apuração equilibrada, com o rigor que se impõe, mas com isenção e os necessários cuidados.
É preciso, antes de mais nada, considerar o passado das pessoas apontadas pelo réu colaborador como beneficiárias de esquemas de desvios de verbas do Legislativo. São ex-deputados e deputados no exercício do mandato com serviços prestados à sociedade.
Lideranças populares historicamente comprometidas com bandeiras de luta de caráter social, como a deputada Brice Bragato e o ex-deputado Otávio Baioco, não podem simplesmente ter sua biografia manchada por suspeitas ainda não comprovadas.
O mesmo se pode dizer de Nasser Youssef, combatente da luta ambiental, e de José Ramos, de forte e importante presença no parlamento capixaba, hoje um forte aliado do governo do Estado na Assembléia.
Tais considerações se estendem às demais pessoas que militam no mundo político e que foram listadas no bombástico depoimento de André Nogueira. Não se trata de dispensar tratamento diferenciado a ninguém. Trata-se apenas de permitir que essas pessoas se defendam antes de serem execradas publicamente.
Já no caso de empresários ou grupos empresariais citados pelo ex-diretor da AL, o enfoque jurídico, a partir da mesma base - o depoimento do réu -, deve ser centrado exclusivamente nos fatos narrados e nos documentos que os comprovam. Aqui se trata de negócios ilícitos que fizeram (ou ajudaram a fazer) a prosperidade de quem usou de subterfúgios para lesar os cofres públicos, usando como meio de alcançar os fins pressões e influência resultante de ligações com o poder público.
Nesta edição de Século Diário os leitores estão tomando conhecimento de alguns desses estranhos negócios beneficiando o Instituto Futura. Como disse André, o Instituto realizou pesquisas eleitorais para orientar os deputados e foi remunerado como se tivesse feito outros serviços.
O Instituto defendeu-se alegando que jamais fizera pesquisas para a Assembléia Legislativa, certamente confiando não haver documentação que prove o contrário. Mas fez - e Século Diário levantou algumas dessas sondagens (como se pode ver na matéria a respeito que estamos publicando nesta edição). Fazer uma coisa para o poder público e receber dinheiro como se tivesse feito outra só agrava o quadro.
Este deve ser o ponto de partida das investigações sobre o envolvimento do Instituto Futura nos desvios de verbas da era Gratz. As pastas com os dados das pesquisas denunciadas por André estão em nosso poder. Não terá o Ministério Público, portanto, nenhuma difículdade para obtê-las e enquadrar os envolvidos nos ditames da lei.
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