Viva Manguinhos




Geraldo Hasse


Viva Manguinhos A notícia da inauguração de um posto oficial de informações turísticas em Manguinhos nesta quinta-feira (6), desencadeou uma mexida nos meus arquivos, onde encontrei um texto inédito. É uma pequena história desta encantadora aldeia capixaba, subdistrito de Jacaraípe, na Serra, ES, onde sempre é verão na alma dos que aprenderam a desfrutar do seu "bucolismo e tranquilidade", como dizia um adesivo dos anos 90. Já que a história é longa demais para caber numa coluna, resolvi desová-la aos poucos, neste espaço, na expectativa de chegar ao ponto final antes que o verão acabe.

O caminho de Saint-Hilaire (1)

Em sua excursão ao rio Doce, iniciada no dia 13 de outubro de 1816, o naturalista Auguste de Saint-Hilaire (1779-1853), autor de "Viagem ao Espírito Santo e ao Rio Doce" (Paris, 1833), passou a cavalo com sua pequena comitiva por um lugar chamado Ponta dos Fachos, "situado em uma colina que domina o mar", cinco léguas ao norte de Vitória.

Havia ali uma cabana solitária cujos moradores o receberam "muito bem". Apesar de satisfeito com a hospitalidade demonstrada pela gente da província do Espírito Santo -- bem diferente da "desdenhosa indiferença dos habitantes dos arredores do Rio de Janeiro" --, Saint-Hilaire não se deteve na Ponta dos Fachos. Disposto a alcançar naquele mesmo dia a montanha conhecida por Mestre Alvo*, foi adiante sem dar maiores informações (no livro, pelo menos) sobre quem morava naquele lugar. Tampouco revelou interesse pela origem de um nome tão singular - Ponta dos Fachos...

Normalmente, um profissional movido pela curiosidade como Saint-Hilaire, que veio ao Brasil para aprofundar o conhecimento sobre o seu território, não deixaria escapar um detalhe como esse. Por que Ponta dos Fachos se por ali, como em todo o Brasil, era costume dar aos acidentes geográficos nomes de inspiração marinha como Ponta de Tubarão ou, mais comum ainda, denominações indígenas como Carapibeí (aldeia próxima de Vitória, atual Carapebus) e Caraípe (rio na planície vizinha, atual Jacaraípe)?


A única explicação plausível para tal cochilo é que aquele era o primeiro dia de viagem após a parada, quiçá enfadonha para um cientista, na capital da província. Tendo viajado antes do Rio de Janeiro para o Espírito Santo, Saint-Hilaire estava ansioso para visitar o Mestre Alvo (que ele avistava de Vitória) e tinha certa pressa em chegar a outros pontos do território, como a célebre aldeia dos Reis Magos (atual Nova Almeida) e, naturalmente, o rio Doce, com suas matas fascinantes e indevassadas. Assim, em sua narrativa tão cheia de detalhes e notas de rodapé, inclusive sobre o léxico tupi-guarani, Saint-Hilaire deixou pairar o mistério: que fachos seriam aqueles?

Uma simples consulta ao dicionário tupi-guarani revelaria que a referência aos fachos provinha dos índios. Eles chamavam a região de atapoã, que significa ponta de fogo. Resta lembrar, a favor do cientista-viajante, que os fachos não eram novidade para ele: Saint-Hilaire tinha dez anos quando botaram fogo na cadeia de sua cidade, Paris, dando início à Revolução Francesa. Isso explica, talvez, porque ele não se preocupou em explorar melhor a Ponta dos Fachos. De qualquer forma, a citação se tornou um marco pioneiro da história deste lugar do litoral do Espírito Santo. Ao que consta, foi Saint-Hilaire o primeiro autor a colocar em livro o nome da Ponta dos Fachos.

* Montanha de 833 metros de altura que se ergue nos contrafortes da Serra do Mar e serve de referência para os navegadores da costa capixaba. Para os habitantes do litoral, Mestre Alvo (também se diz Mestre Álvaro) é um seguro indicador do tempo. Quando ele está encoberto por uma nuvem, é sinal de tempo instável, mudando para chuva. "Mestre Alvo está de cobertor, vai fazer frio", oue-se dizer. Também se comenta que, quando a montanha parece ter um boné de nuvens sobre a cabeça, é sinal de frio.

As pessoas se referem a Mestre Alvo como a um ser vivo. Visto de longe, ele lembra um gigante deitado, cabeça apontando para o nordeste e os pés para o sudoeste, que é de onde vem um vento enjoado que sopra alguns dias nos meses de inverno. A silhueta do monte sugere um velho ossudo, com um caroço em cima do nariz curvo, uma verruga na narina esquerda e um sinal de nascença, com um tufo de cabelos, no lado esquerdo do queixo.

O nome Alvo, Álvaro, Alves ou Alvares seria uma homenagem ao primeiro navegador que a viu. Segundo Saint-Hilaire, a montanha já era conhecida por seu nome atual no início do século XVII. Portanto, faz sentido ligar o nome da montanha próxima de Vitória ao do navegador português Pedro Alvares Cabral, descobridor do Brasil.

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