Se eu fosse uma tsunami, cairia com trocentos megatons de impacto para varrer do mapa a incapacidade do ser humano de ver-se no seu semelhante e de com ele coexistir pacificamente. Levaria de roldão o medo, afastaria para sempre a orfandade.
Se eu fosse uma tsunami, todo o meu potencial energético geraria um enorme caudal de saúde que varresse da face do planeta o flagelo da Aids, o câncer, a falta de saneamento básico e as doenças de povos pobres - feito cólera, esquistossomose, tuberculose, malária e dengue.
Se eu fosse uma tsunami, daria um banho de consciência e sabedoria nos big shots da indústria bélica, para que da noite para o dia fossem capazes de descobrir maneiras de ganhar fortunas ainda maiores, só que, em lugar de trabalhar para o Mal, gerariam mais empregos, paz e bem-estar social.
Se eu fosse uma tsunami, a água da vida faria florescer plantas medicinais capazes de combater, com eficácia, todos os males, e afogaria, até a última semente, todo vegetal capaz de gerar produtos que escravizam o ser humano e causam dependência, química ou psicológica.
Se eu fosse uma tsunami, espalharia fontes de energia, igualitariamente, por todo o planeta, de modo que povo algum tripudiasse sobre a miséria de outro povo apenas por deter ou dominar tecnologia ou reservas de qualquer combustível ou forma de energia.
Se eu fosse uma tsunami, lavaria as consciências dos poderosos da tevê e da mídia, em todo o mundo, de forma que pessoas drogadas e doentes das emoções fossem para sempre impedidas de veicular programações de apologia à violência, de desrespeito à infância, à adolescência e à família, fazendo ainda soçobrarem a futilidade e o desrespeito à inteligência e à sensibilidade, e priorizando a educação e a preservação de cada cultura do mundo.
Se eu fosse uma tsunami, deixaria limpas e enxaguadas as consciências dos donos da banca de agiotagem que estrangula o Terceiro Mundo, removeria o histrionismo e a egotrip dos políticos sem memória, dissolveria a fome e a prostituição infantil, e levaria comigo, para sepultar nas profundezas abissais, toda forma de preconceito, de opressão e de banalização da violência.
Mas, como se sabe, eu não sou uma tsunami, sequer marola ao vento brando. Sou apenas um homem. Então, só me resta esta perplexidade diante do horror que se abateu sobre os nossos irmãos asiáticos, espalhando a dor e o abandono. E, incapaz de compreender tamanho desespero, este meu simplório coração sertanejo "fecha os olhos e, sinceramente, chora."
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