Vitória (ES), edição de fim de semana
 
PMDB, a missão
Conquistar Paulo Hartung





Cristina Moura


"Quando não se pode derrotar, fica-se sócio."
(Ulysses Guimarães)



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Um dos representantes do seu partido na Assembléia Legislativa do Espírito Santo, o deputado Sérgio Borges diz que é do PMDB desde que se entende por gente. É iniciado, portanto, no clã emedebista, com as antigas concepções de esquerda, em favor do fim da ditadura militar. Atualmente, porém, o partido não é visto, nem de longe, como um porta-voz de minorias ou segmentação de uma política mais radical. No Estado, o PMDB de Sérgio Borges é o mesmo PMDB do deputado federal Marcelino Fraga, presidente regional da legenda. Os dois já entraram em conflito, em épocas não muito distantes, basta que o leitor se recorde de declarações de ambos durante as últimas eleições municipais.

No entanto, nesta entrevista Borges se injeta de ânimos para se mostrar pacificador das arestas. É que este é o momento em que o partido sonha em arrastar para seus quadros o governador Paulo Hartung e lançar, então, o projeto de candidatura própria para o ano que vem.

Outro assunto que veio à tona foi o conflito que Borges trava há vários meses com o seu colega de bancada na AL, o deputado Luiz Carlos Moreira. Como o entrevistado mantém-se ponderado para absorver e irradiar a causa maior da legenda em nível estadual, até elogiou o companheiro de partido.

E, apesar de ser governista assumido, colocar-se como parceiro do atual presidente da Mesa Diretora da AL, César Colnago (PSDB), Borges fez críticas ao governo estadual, de maneira ponderada. Segurando, é claro, a idéia de conquistar o governador para uma possível filiação.

Durante o jogo de farpas soltadas, discretamente, inclusive em direção à Secretaria Estadual de Saúde - leia-se ao ex-colega de Casa, o deputado Anselmo Tose (PPS), que assume a pasta, Borges vestiu a camisa ambientalista. Não poupou empresas como a Vale do Rio Doce e, também por razões políticas, a prefeitura de Guarapari.

Século Diário: - Por onde o PMDB caminhará nas eleições de 2006?

Sérgio Borges: - Bom, em nível estadual a tendência é apoiar a reeleição do governador Paulo Hartung, até porque os deputados estaduais do PMDB, e hoje somos em número de dois, o deputado Luiz Carlos Moreira e eu, nós sistematicamente estamos apoiando as ações do governo. Dentro da Executiva do PMDB, PMDB como um todo, prefeitos, vereadores e as lideranças no interior.. Eu, principalmente, ando muito no Estado e tenho sentido que todos querem que o partido marche para a reeleição do governador e, se possível, que o governador se filie ao PMDB. Nós estamos conversando com o governo, a Executiva, eu sou secretário-adjunto do partido, sou líder do PMDB, nós estamos trabalhando nessa linha de buscarmos a entrada do governador e até pelo trabalho que vem sendo feito no Estado, e apoiar sua reeleição. Essa é a tendência. E, em nível nacional, eu acho que o PMDB também tem que ter um candidato próprio, em virtude dos acontecimentos e da história da eleição anterior, onde o PMDB deu a vice do PSDB. E o PMDB é mestre nesse negócio de dar vice porque a Executiva nacional do partido é rachada, uma ala que sempre quer estar do lado de quem está governando e a outra que tem um programa de governo para o Brasil, onde não se inclui a promiscuidade da relação com o Congresso Nacional. Nós estamos vendo aí um partido com a história que o PT tinha, fazer essa, vou usar uma expressão chula, mas verdadeira, que é 'lambança' na política nacional, em todos os níveis. Então, acho que o Brasil precisa de um projeto de equilíbrio, no qual os poderes tenham cada um o seu papel, não haja interferência de quem controla o recurso financeiro de outros poderes, e haja um mecanismo de distribuição da arrecadação entre os poderes, sem que seja controlado por um só. Vou dar um exemplo: o Poder Legislativo e o Poder Judiciário têm uma parcela do orçamento. Então, no meu modo de ver, na hora em que se paga um imposto, essa parcela já deveria ir para a conta do Judiciário e para a conta do Legislativo. Para o Legislativo não ficar esperando o Executivo liberar o dinheiro porque uma ditadura pior do que a econômica, eu não conheço. E eu sou peemedebista e emedebista, desde que me entendo como gente, e nós lutamos contra a ditadura militar e temos que lutar contra essa ditadura que está aí, que é a ditadura econômica, onde estão subvertendo a ordem, estão descaracterizando as instituições e isso não é bom para o povo brasileiro.

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- Como anda o relacionamento do senhor com o deputado federal Marcelino Fraga, presidente regional do partido?

- Olha, eu sou um dos artífices da eleição de Marcelino, dentro de uma proposta, na qual não haveria intervenção, haveria reuniões pelo menos mensais no partido para se discutirem propostas, em relação ao fortalecimento do partido, onde nós cresceríamos, o PMDB, como uma força política, nós teríamos consenso para tomar posições. Por exemplo: a entrada do governador. Uma reunião discutida dentro do partido, depois o partido, como um todo, representado pela sua Executiva, buscar o governador e fazer um acordo claro para toda a população saber. Eu acho que já passou o tempo em que a gente tinha que ficar conversando pelos cantos, pelas salas fechadas, fazendo acordo. Acordo se faz para ser cumprido e para todo mundo saber que foi feito o acordo. Não há necessidade de se esconder. Então, de lá para cá, eu tive alguns problemas com Marcelino, principalmente na eleição da Capital, onde ele interveio no PMDB de Vitória, tomando o diretório, que eu faço parte dele, meu irmão é o presidente. Interveio do nada, sem nenhuma base partidária, apenas porque ele queria, num determinado momento, o apoio do governo do Estado para a candidatura da esposa dele que, estranhamente, filiou-se ao PL. Não era candidata do PMDB. Então, com essas coisas, eu tive um choque com Marcelino, até porque não foi essa a proposta. Mas Marcelino é uma pessoa de bem. Acho que erros a gente comete, não é? Hoje nós temos um relacionamento melhor. Nós temos o mesmo pensamento em relação à candidatura própria do partido. E também estamos aguardando a reforma partidária. Acho que tem que ser feita, inclusive, com cuidado, porque no Brasil eles inventam alguma coisa e dizem que vai ser a solução do problema. Depois, pode-se criar mais problema. Vide essa história de financiamento de campanha com dinheiro público. Quantos milhões vão ser utilizados nesses partidos? Como é que isso vai ser distribuído, para ser discutido em um mês? E depois? Aqueles que tiverem mais força, terão a ajuda da iniciativa privada. Aí vão dizer: 'Ah, mas a Lei proíbe'. Mas a Lei proíbe tanta coisa que é feita aí por trás dos panos... E nem tudo é visto e apurado.

- O deputado Marcelino Fraga já expôs publicamente algumas arestas com o governador Paulo Hartung. Como é que o partido vai resolver essa questão, ao tentar articular a filiação do governador?

- Veja bem: na última reunião da Executiva do partido isso ficou bem claro entre os componentes. Inclusive, estava presente o prefeito Valadão, o vice-governador Lelo Coimbra, eu estava, entre outras pessoas da Executiva do partido. Ficou claro e definido que nós demos uma missão ao vice-governador Lelo Coimbra para construir a reunião com o governador. Marcelino não teve objeção a isso. O que Marcelino quer é que o partido tenha um candidato a governador e, de preferência, o que o PMDB quer é essa união com o governador pela forma que ele vem governando o Espírito Santo, principalmente em relação a prefeitos e deputados, que estão tendo um diálogo sadio com o governo. Nós, os deputados estaduais, temos definido que as emendas que nós aprovamos são cumpridas pelo Executivo, tanto é que eu, neste ano de 2005, já entreguei mais de 10 ambulâncias em postos de saúde no interior do Estado. Equipamos municípios com carros de polícia, tanto nos batalhões da Polícia Militar como na Polícia Civil. Ajudamos hospitais com recursos, ajudamos em construção de obras beneficentes, como o asilo do Lions Club, que está sendo concluído no município de Pinheiros, com a nossa ajuda e deve ser inaugurado brevemente. Então, é essa dinâmica entre o Legislativo e o Executivo, que muitas vezes é interpretada como subserviência do Legislativo. Mas essa relação Executivo e Legislativo melhorou muito. Ela está muito mais clara. A imprensa está sempre presente na Assembléia e a democracia é isso: a democracia tem maioria e minoria. Para eu te dizer uma coisa que mostra isso, há dois anos o governador elegeu um presidente da Assembléia do PT. E hoje a deputada do PT Brice Bragato está chamando o governador de imperador, mas na hora que ele serviu para eleger o presidente (da AL) do PT, era o maior. E hoje eles fazem uma oposição velada. Uma hora eles estão para lá. Noutra, eles estão para cá.