Vitória (ES), edição de fim de semana
 
O discurso afiado de um oposicionista implacável
Hartung governa mal, gasta mal e agride as instituições





Cristina Moura


"Bateu, levou"
Cláudio Humberto Rosa e Silva



  Foto: Apoena
  

Munido de argumentos típicos do discurso oposicionista, o ex-governador Max Mauro não se abala ao soltar suas frases explosivas. Esse é seu estilo, essa é sua forma de combate político desde os tempos do grupo autêntico do velho MDB, quando combateu a ditadura. Nesta entrevista, ele pede emprestado termo utilizado por uma petista (Brice Bragato, deputada estadual) e qualifica o governador Paulo Hartung de imperador. Também de 'homem sem partido' e, ainda, de autoritário.

Para as eleições de 2006, Max tem uma convicção: que o seu partido, o PDT, vai lançar candidato próprio e buscar aliados na luta pela oposição. O Espírito Santo, segundo ele, é um Estado entregue à 'bandidagem', sem saneamento na área financeira e repleto de políticos entregues ao fisiologismo.

Para rechear a sua análise, alguns momentos pitorescos na política capixaba, retratados a partir de acontecimentos - apresentados, ao leitor, por Max - como alicerces para o perfil administrativo absorvido pelo governador. A Assembléia Legislativa, por exemplo, seria o palco das interferências, que revelariam, direta ou indiretamente, um governo 'de propaganda'.

O crime organizado, na avaliação de Max, está infiltrado nos poderes públicos no Estado. E, caso o Legislativo fosse vigilante, tais situações poderiam ser apuradas com mais profundidade. Como opositor assumido, Max não pode esconder sua experiência e suas artimanhas para avaliar certos quadros. Mas é inspirado, e para isto nem disfarça, no saudoso tom do discurso no ícone do PDT, Leonel Brizola. Sobre o PMDB, faz apenas uma observação. É só conferir.

Século Diário: - Como é que vai ficar o PDT nas eleições de 2006?

Max- Eu espero que o PDT, aqui no Estado, apresente uma candidatura própria a governador e que procure realizar uma ampla aliança, a fim de que possamos vencer as eleições, não só para o governo, mas também para o Senado, a Câmara dos Deputados e a Assembléia Legislativa. Evidente que alguns desses cargos eletivos deverão ser negociados, quando das articulações com vistas a uma coligação para o pleito do ano que vem.

- Numa escala de possibilidades, qual seria a de o PDT aliar-se ao governador Paulo Hartung?

- No meu entender, nenhuma. Já ocorreram manifestações de apoio à candidatura do governador por alguns integrantes do partido, apesar de terem sido poucas, no sentido de apoiá-lo, mas minha posição é a de que o PDT tenha candidatura própria e se oponha à reeleição do governador do Estado.

- O senhor tem criticado a postura do governador. Qual seriam as mazelas praticadas por ele?

- Olha, o governo do Estado, desde o seu primeiro momento, mostrou-se autoritário. Aquele triste episódio do dia da eleição para a Mesa Diretora da Assembléia Legislativa, na atual legislatura, é um exemplo do que eu estou lhe falando. O governador, usando as instituições públicas, Ministério Público, polícia.... e até o próprio Judiciário, invadiu o Legislativo. Destituiu um deputado, que já havia sido eleito, para que a Assembléia coroasse a presidência da Mesa Diretora com um nome da confiança do governador. Ora, eu nunca vi isso, nem mesmo na época da ditadura militar. Eu não quero entrar no mérito de qual dos dois foi eleito legitimamente pelos senhores deputados na primeira eleição ou se o outro, que recebeu apoio do governador, tomou posse como presidente do Poder Legislativo para o primeiro biênio da atual legislatura. Eu não entro nesse mérito. Eu acho que a atual gestão reúne todas as condições, sob todos os aspectos, todas as condições para ser presidente da Assembléia Legislativa. Mas eu critico a forma pela qual ele foi conduzido ao cargo de presidente do Poder Legislativo. De forma autoritária. Uma violência! Uma violação da autonomia do Poder Legislativo. Acho isso uma barbaridade.

  Foto: Apoena
  
Eu não silenciei na época e continuo criticando essa mácula que existe na história do nosso Estado, do ponto de vista da redemocratização. E não só isso. O governador desde a campanha de Gratz já vem fazendo competições, vem interferindo na condução de outros partidos, com o único objetivo de respaldar a sua candidatura. E no governo ele ampliou essas interdições. Aliás, a mesma coisa, fazendo um tipo de aliança a pretexto de marginalizar os deputados que haviam se reunido no hotel Arozo, com assessores de Gratz... Ele criticou tanto essa reunião, a escolha do nome de Geovani, porque o Estado estava sendo apoiado pelo grupo de Gratz, do próprio deputado José Carlos Gratz, mas tinha a imprensa... E no final, na eleição de César Colnago (PSDB), ele contou foi com esses deputados do grupo de José Carlos Gratz para seguir para o Palácio Anchieta e sair vitorioso. E eu tive a oportunidade de assistir ao processo da eleição desse segundo biênio e lá estava o vice-governador (Lelo Coimbra/PMDB) comandando o processo. Isso está ocorrendo com Lula e... deu no que deu. Aqui, os partidos todos falam a respeito da imprensa que trabalha para o governador, que é um homem sem partido! E que, de fato, fica interferindo nos seus aliados, nos diversos partidos. Ele hoje tem o controle do PSB, do PPS, do PSDB, do PFL - o partido de Gratz, mas que sempre foi um aliado dele - e quer interferir até no meu partido, além de ter, logo após as eleições, tirado o PT da oposição. O PT não apoiou e colocaram o partido no governo, numa barganha, cujo único objetivo é garantir já um projeto de reeleição.

Já na primeira hora, ele tinha esse objetivo: garantir um projeto de reeleição. E a formação do governador Paulo... Nós que acompanhamos a vida política do Espírito Santo sabemos que é uma forma centralizadora. O governo dele é um governo centralizador. Marginalizou os municípios, tutelou o Judiciário, silenciou a mídia - evidente que com recursos, como governador - o Estado propriamente, utilizando recursos do seu mandato. Ele deu mostras, quis dar e deu demonstrações do seu autoritarismo, explicitando um governador forte, um governador autoritário, que manda e desmanda. Um exemplo: a vinda para cá do Exército brasileiro. Uma operação custosa aos cofres públicos e, até agora, não fizeram nada. Vieram para combater a criminalidade e não fizeram nada. Mais tarde, veio a Força Federal, que nada fez, não prendeu ninguém. Aquilo era uma demonstração de força para intimidar, não intimidar só a bandidagem. Se fosse para isso, até que seria bom, só que eles não prenderam ninguém, não combateram a bandidagem. Mas isso, sem dúvida, intimida os políticos, principalmente os políticos que têm um passado nebuloso. Vejo a Assembléia como um Poder Legislativo intimidado, submisso ao governador Paulo Hartung, apesar de algumas vozes discordantes no próprio poder. Mas, essa é a verdade: ele tem o controle absoluto do Poder Legislativo. Começou com aquele episódio da eleição do Vereza (PT). Ali foi uma mostra, uma demonstração, ou melhor, foi um meio que ele usou e decidiu intimidar os senhores deputados.