Vitória (ES), edição de fim de semana
 
O canto da liberdade e a dança do amor negro





Rogério Medeiros


Primeiro, é uma negra linda, de cara, de corpo e de 62 anos que não aparenta. Depois é uma mestra de caxambu, o mais tradicional do Estado, que segura com garra e certeza de que enquanto existir sua família o caxambu dos escravos vai durar. Seu caxambu nasceu no dia da libertação dos escravos, por iniciativa do seu bisavô, escravo que vivia no tronco do fazendeiro escravocrata, pela sua rebeldia. Conta o povo que era o negro mais bonitão da região, e se tomarmos a informação pela beleza da bisneta, é possível que fosse verdade. Ele conseguia sair do tronco de madrugada para visitar suas amadas.

A nossa entrevistada, que descendente desse negro arteiro, que ainda povoa a mente dos mais antigos em Monte Alegre, chama-se Maria Laurinda Adão, respeitada, admirada e louvada por causa do seu caxambu e de sua participação nos movimentos populares. O prefeito de Cachoeiro de Itapemirim, Roberto Valadão, costuma dizer que ela é o orgulho dos cachoeirenses, acostumados a celebrar Roberto Carlos, Rubem Braga e Nilton Braga. "Para mim, diz o prefeito, Maria Laurinda é a cara do cachoirense que se agarra às suas tradições e nos orgulham junto ao movimento cultural do Estado".

Ela nunca saiu de Monte Alegre, a 40 minutos da sede do município de Cachoeiro, onde é tudo para sua pequena população (600 habitantes), vai de mestre do caxambu a coveira, passando por parteira. O caxambu é uma manifestação feita por dois tambores, em que os negros dançam em volta deles tirando versos, que eles tratam de jongo. É visto também em outras regiões do sul do Estado, mas de origem num ato político, como de Maria Laurinda, somente este de Monte Alegre.

Conheça, pois, o nosso leitor, um pouco dessa negra que segura o caxambu mais celebrado do Estado.


Século Diário: - Quando a senhora começou no caxambu?

  Foto: Rogério Medeiros
  
Maria Laurinda Adão: - Desde criancinha. A gente saía com meu avô e eu ia na garupa da égua dele. Desde criança.

- Mas tirar toada que é bom a senhora não tirava quando era criança.

- Não, fui crescendo e já tomei atitude, e agora sim, já tiro jongo. Quando eram os mais velhos, a gente só brincava. A gente chegava e caía dentro dançando, mas agora a mestre mesmo sou eu.

- Mas aí não foi tão rápido, de criança até os 60 anos, não foi tão rápido.

- Ih, mas desde criança assim, quando tinha uns 8 ou 9 anos, que eu comecei a cantar.

- E era o avô da senhora que tirava?

- Era o meu avô. A gente acompanhava ele.

- Como era o nome dele?

- José Ventura.

- A senhora nasceu aqui em Monte Alegre, no sertão de Cachoeiro de Itapemirim?

- Nasci aqui em Monte Alegre e até essa idade toda eu to aqui em Monte Alegre.

- Depois do seu avô, quem foi o mestre?

- Os filhos dele, Nelson Ventura, Sebastião Ventura, Machado também, chamava ele de Juventino. E João Ventura, que eram filhos do Zé Ventura.

- E quem era o pai da senhora?

- Meu pai chama Paulino Adão.

- Mas ele não foi...

- Também era do caxambu.

- Mas ele não era filho do mestre.

- Não, ele era o genro. Minha mãe chama Elenita Ventura e tinha todos os meus irmãos que eram todos do caxambu. Tinha o Zé Paulo, que hoje em dia é da Assembléia (de Deus), a Maria das Graças, que é da Deus e Amor, tem a Devalmira, que é minha companheira de tambor. E ultimamente nós estamos, vivos, em oito irmãos, dois irmãos e seis irmãs.

- Eram quantos?

- Nós éramos em dez, morreram duas meninas, uma com 35 e a outra com 10 anos.

- Agora, ele falava que antes dele também tinha o caxambu?

- Não, ele falava que quando raiou a liberdade é que passou a ter a brincadeira.

- Ah, sei, quando acabou a escravidão?

- É, aí que começou a brincadeira. Porque naquele tempo não tinha tambor, quando foi falado que a princesa Isabel falou com o pai dela. Porque, senão, ele ia pra forca também. Mas então ele pegou, ouviu o conselho da filha, saiu a liberdade, mandou juntar muita lenha e mandou pegar os caixotes, mas ninguém sabia qual era o plano. Aí, quando deu meio-dia, diz que ele levantou uma bandeira e gritou que tinha raiado a liberdade. E daquela hora pra frente, todos eram senhores de si, eram iguais. Aí, nesse dia, foram cantar. Mandou acender o fogo na lenha, montou de qualquer jeito, e não tinha tambor, batia em caixote. Depois disso que meu bisavô fez esse instrumento.

- Então foi seu bisavô quem tirou o primeiro caxambu?

- Foi meu bisavô. Depois que acabou a escravidão.

- Como era o nome dele?

- Ai, acho que Manoel Adão... Manoel Ventura, meu bisavô.

- Aí, veio passando para o seu pai, seus irmãos e chegou na sua mão?

- É, mas primeiro foi pra minha mãe, que agora ela é da Assembléia e eu fiquei no lugar dela. Os tambores do caxambu estão lá em casa, guardadinhos. Quando ela saiu, ela disse pra não deixar em lugar nenhum, deixar guardadinhos, e é assim que eu faço.

- Mas a mãe, ela não vem mais no caxambu?

- Ela não vem, não. Às vezes ela pode até parar um pouquinho, mas ela não vem.

- Brincou a vida toda e agora não vem?

- É, desde criancinha. Foi nascida e criada no caxambu.

- Depois de velha que...

- É, depois de velha que veio um pessoal, jogou um lero nela, que Jesus e tal...faz isso, faz aquilo, e ela abandonou tudo que tinha. Quando chegou na minha casa, chegou falando que tinha passado a ser crente e que estava entregando um santinho de partilheira, um litro de cachaça, e ficou tudo na minha mão. A gente não pode falar nada.

- Agora, a tradição de 13 de maio é desde o seu bisavô?

- Desde o meu bisavô e nunca falhou.

- Todo 13 de maio vocês comemoram?

- É, acende a fogueira, bate... agora, hoje que vai ter uma festa. Hoje. A gente tem muito tempo que a gente vem fazendo assim, convida o pessoal, chama o povo de fora, hoje vem o povo de Vitória e Cachoeiro também. Mas hoje que o povo de fora vem participar com a gente aqui.

- Toda a sua família tem terra aqui?

- Sim, nós temos terra aqui que foi dos nossos avós.

- Vocês são agricultores?

- Somos, pequeno, pequeno, né?

- E sempre foi lugar de negro, como é isso?

- Toda a vida foi, toda a vida. Juntou a negritude aqui que servia nas fazendas dos brancos e alguns como nós com os seus terreninhos.

- É uma população mais de negro?

- É, isso. Tem mais ou menos assim... acaba sendo parente também.

- Sei, mas a família da senhora é bem numerosa.

- É, esses Ventura são todos da família de negros mesmo.

- Antes eles não falavam isso, na escravidão, que aqui era um quilombo?

- Falavam que aqui era um quilombo. Mas aquele tempo, quando falava que tinha um tempo que tinha um tal de Nauê (período do integralismo), o povo vinha pra matar. Ficava na mata, o povo saía de casa, fechava a casa, mas as mulheres e as crianças ficavam escondidas.

- Escondidos de quê?

- Porque falavam que eles vinham matar.

- Mas quem vinha matar?

- O Nauê, que vinha para matar.

- E quem era o Nauê?

  Foto: Rogério Medeiros
  
- Era o povo vestido de verde. Então, vinha esse povo e o resto saía pra mata. Levava pau e tudo, aqui o povo ia pra mata. E naquele tempo, né? O povo tinha medo, quem quer morrer? Ninguém. E passava aquela situação, o povo voltava pra casa. Diz que tinha um mais levado que levou uma sacola pra mata, outro levou um galo e de madrugada o galo cantou, outro levou uma sanfona. Aí de madrugada resolveram tocar lá, tocavam fora de hora. Mas agora, graças a Deus, nós somos nós, cada um toma conta de si. Depois que raiou a liberdade, todo mundo é senhor de si. Todo mundo tem o que é seu, manda no que é seu. Naquele tempo, além de ter que trabalhar, ainda apanhava. Agora, vai fazer isso? Hoje não existe isso mais não.

(Esclarecimento da Redação: - Os integralistas brasileiros, seguidores de Plínio Salgado, fundador do PRP - Partido de Representação Popular -, criaram uma doutrina política inspirada no nazi-fascismo, de Hitler e Mussolini. Vestiam-se de uniformes militares de cor verde e traziam nos braços uma braçadeira com um emblema, o sigma, que imitava a suástica nazista. Eles perseguiam negros, judeus e comunistas, exatamente como os nazistas de Hitler, na Alemanha, e os fascistas de Mussolini, na Itália. Cometeram muitos crimes em sua trajetória sangrenta na vida política brasileira. Uma de suas vítimas foi o jornalista pernambucano e líder comunista Jaime Calado, pai do editor de Século Diário, Stenka do Amaral Calado, assassinado a tiros, a sangue frio, em Fortaleza, Ceará, na campanha presidencial de 1949, por elementos da guarda pessoal de Plínio Salgado - um tenente do Exército, um policial do Dops cearense e um guarda ferroviário, que não sofreram qualquer punição da Justiça. Os integralistas se saudavam mutuamente erguendo o braço direito para o alto, a exemplo dos nazistas, e gritavam: "Anauê", em substituição ao "Heil, Hitler" dos extremistas alemães.. Eram chamados pelos comunistas brasileiros de "galinhas verdes").

- Seu pai ou seu avô falavam de alguma perseguição aos negros?

- Falavam que os negros trabalhavam e além de trabalhar apanhavam. Tinha um da nossa família, que naquele tempo tinha uma tal de senzala, aí ele ficava ali na fazenda e tinha o tronco. Ele 'marravam' ele no tronco. De manhã, falavam que ele tinha ido na fazenda do outro, mas na verdade tinha dormido no tronco. Um dia ele matou uma cobra e aí ele saía do tronco. Aí o mestre dele viu que não adiantava amarrar esse homem, deixou ele liberto, não 'marrou' ele mais não. Diz que esse tronco nem existe mais na fazenda Cafundó. Eu mesma nunca vi.