"A pedalar, encontro amigo do peito sentado na esquina. Pula, pega garupa, segura o bonde ladeira acima. Ganha o meu tesouro da juventude ainda que a cidade anoiteça ou desapareça. Piso no pedal do sonho e a vida ganha mais alegria. Ganha o meu tesouro da juventude".
(Tesouro da Juventude, Beto Guedes).
Foto: Apoena
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"Se o Espírito Santo fosse um país, eu teria que, no mínimo, ter um visto de estrangeiro residente." Talvez para o povo da terra, essas palavras possam parecer exageradas, mas, para esse mineiro de nascimento e capixaba por adoção, o Espírito Santo foi a porta de entrada para as artes.
Esse é Diolino Tavares Dias, que o leitor deste Século Diário está cansando de conhecer. Afinal, suas belas crônicas estão sempre aí, para quem gosta de boa literatura.
Nascido em uma cidade mineira chamada Tumiritinga, chegou ao Estado aos 12 anos para estudar na Escola Técnica Federal (atual Cefetes). A questão é que ele sempre esteve envolvido com a literatura, já que seus pais, apesar dos poucos anos de estudo, eram verdadeiros amantes das letras.
Em meio a uma entrevista tumultuada, celulares tocando de todos os lados, Tavares conseguiu expressar de forma descontraída e persuasiva sua paixão pelos livros e pela música, já que, cá pra nós, mesmo que quem estivesse ouvindo sua conversa não se interessasse pelo assunto, no mínimo teria despertado em si um adormecido hábito de ler.
Confira a conversa com o jornalista e cronista Diolino Tavares Dias, que escreve para o jornal Século Diário todos os fins de semana e vai lançar seu novo livro no próximo dia 30, a partir das 19h, na Adufes (Associção de Docentes da Ufes), no campus de Goiabeiras.
Século Diário: - De onde vem essa sua paixão pela literatura?
Tavares: - Eu sou filho de um homem que amava muito os livros. Eu fui alfabetizado pela minha própria mãe, à luz de lamparina, na roça, e desde pequeno me apaixonei pelos livros. Aqui na Escola Técnica, eu era quase sempre o campeão entre os alunos que mais freqüentavam a biblioteca. De modo que clássicos como Shakespeare eu conheci aos 15 anos, o que fez de mim um sujeito chato pra caramba (risos) e sonhava em ser jogador profissional de futebol, eu era muito bom de bola. Lá em casa eles reclamavam muito de mim, porque eu só pensava em ler e jogar bola. Eu cheguei a jogar em umas divisões de base de um time de Minas Gerais chamado Democrata, mas eu perdi meu pai aos 13 anos e essa falta fez de mim um sujeito muito indisciplinado, até o ponto de o treinador mandar os zagueiros me baterem no treino. Aí, a minha carreira de profissional de futebol se inviabilizou. Aí, eu fui pro Rio de Janeiro na esperança de jogar em times como o Flamengo, todos os meus amigos acreditavam que eu seria um fenômeno no futebol, mas essas coisas pessoais atrapalharam muito. E aí eu vivi dez anos na Baixada Fluminense, no Rio de Janeiro, onde eu comecei uma faculdade de Letras. Já no primeiro dia do curso eu lá comecei a lecionar português só pelo tanto de livros que eu já tinha lido. Passei pro terceiro ano, voltei pra Vitória, estudei um semestre na Ufes e abandonei. Fui jubilado e fui embora de Vitória. Quando eu retornei, vinte e tantos anos depois, tinha mudado tanto a programação do curso que eu tive que retornar para o terceiro período. Eu voltei a estudar e agora já estou passando para o sexto período. Estudo no CESV, português e espanhol.
- E o Jornalismo?
- Eu sou jornalista há 26 anos, fui revisor de "A Gazeta" e "A Tribuna" e nesses dois jornais eu fui de revisor a editor. Fora do Estado, eu trabalhei na TV Manchete, na revista "Istoé Senhor", na editora Best Seller, que na época era da Editora Abril Cultural, Editora Globo. Daí eu deixei o jornalismo de redação para ser assessor de imprensa do cantor mineiro Zé Geraldo, de quem eu me tornei o parceiro musical mais freqüente, em número de composições de musicas gravadas em disco. E hoje, aos 53 anos, eu tenho uma empresa de Comunicação.
- Você disse que foi alfabetizado por sua mãe. Como era a relação dela com a literatura?
- A influência nesse aspecto, na verdade, veio do meu pai, porque minha mãe só tem o segundo ano primário. Mas é um segundo ano primário feito na década de 30 ou 40, que era uma época em que o estudo era uma coisa muito forte. Então, quando eu cheguei na escola, eu já sabia ler, já tinha lido muitos livros, revistas. Lia fluentemente mesmo. Meu pai era muito amigo dos livros. Era uma pessoa que só tinha o quarto ano primário, mas também na década de 30. Era um cara que sabia raiz quadrada, por exemplo. Era uma coisa completamente diferente do que é hoje. Como na época não havia televisão, os exercícios intelectuais eram muito fortes. Meu pai era um charadista, um mestre da palavra. Charada, hoje em dia, é alguma coisa que muita gente sabe, mas meu pai era um mestre das palavras, era um grande humorista, a pessoa mais inteligente que eu conheci até hoje. Então, ele me fez amigo dos livros. Eu ganhava livros por tirar boas notas em redação. Isso tudo foi me empurrando para a área de Humanas. Eu cheguei no jornalismo meio a reboque de situações que foram me empurrando. Eu não tive muita condição de programar a minha vida, agora que eu estou podendo retomar o curso que eu quero, o mestrado que eu quero fazer a partir do ano que vem.
- Mestrado em Letras mesmo?
- Espero fazer em Estudos Literários, com doutorado em Comunicação ou Marketing. Isso ainda não está muito claro na minha cabeça, mas é possível que seja Marketing devido às necessidades da empresa. O fato é que as duas coisas que mais me dão alegria são música e literatura. Nesta ordem. Ser parceiro do Zé Geraldo e outros compositores. Entre os capixabas eu destaco o João Pimenta, Paulo Neto, Paulo Ceotto... são muitos.
- Eu perguntei a questão da influência porque você foi alfabetizado por sua mãe, era uma época em que não existia televisão e mesmo que hoje se leia que o Brasil é um país que está lendo mais, ainda é um país que não tem o hábito da leitura. E eu acho fundamental estimular a criança desde cedo a ler.
Foto: Apoena
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- Tem uma música do Beto Guedes que se chama Tesouro da Juventude, que é o nome de uma enciclopédia que tinha na escola que minha mãe trabalhava. Minha mãe trabalhou 35 anos como zeladora escolar. E foi que eu estudei os quatro primeiros anos e lá eu passava minhas horas de folga lendo essa enciclopédia, Tesouro da Juventude. Eu tomei contato ali com a maioria das fábulas, La Fontaine, irmãos Green, o famoso Andersen, dinamarquês, e foi lá que a minha fantasia então cresceu para a literatura. Na primeira série eu ganhei da minha professora As Viagens de Gulliver e foi uma coisa que abriu muito a minha cabeça para as fantasias. Eu mergulhei e viciei em literatura. Houve uma época no Rio de Janeiro, por exemplo, que eu tinha o dinheiro só para o sanduíche e a passagem de ida e volta, e passava um dia na Biblioteca Nacional lendo os clássicos da época do Iluminismo. Então, esses dez anos no Rio, que era a época da ditadura militar, a gente conheceu uma geração de mulheres muito cultas, muito inteligentes e a gente tinha a oportunidade de conversar com meninas de 18 anos que conversavam com grande conhecimento dialético, davam aula de políticas pra gente, e isso foi um ganho, porque nessa época eu descobri que a mulher inteligente é melhor em tudo. Ela tem a sensibilidade mais trabalhada, uma auto-estima mais aflorada...
- Foi nessa época que você começou na área de jornalismo?
- Foi nessa época que eu comecei a escrever crônicas esporadicamente.
- Foi, de uma certa forma, inevitável, né?
- É, mas era bem esporadicamente. Eu dava aula em muitos colégios, cursinhos pré-vestibulares, e depois eu, em 85, publiquei um livro pela Lei Rubem Braga, Sinais de Mim, que foi lançado nos Estados Unidos através do jornal Brazilian Voice, que é um jornal de brasileiros, editado em português, e é um jornal de grandes amigos. Então, eu comecei a publicar umas crônicas por lá e um belo dia eu mostrei para o Stenka (do Amaral Calado, editor de Século Diário) um conto meu eu e ele mostrou ao Rogério (Medeiros, diretor do jornal). Os dois adoraram e me transformaram em cronista da revista Século. Eu que já escrevia crônicas semanais para o Brazilian Voice, passei a ser conhceido aqui também e fez com que eu passasse a ser mais conhecido e criasse um mailing com mais de mil endereços, que eu mando uma crômica por semana e esse material é publicado em muitos jornais de vários estados. Já fui cronista de "A Gazeta" e isso só acabou porque o novo projeto gráfico da página onde eram publicadas minhas crônicas ganhou um perfil mais sisudo, mais técnico, e vários cronistas deixaram de publicar naquela página. Por conta dessa obrigação, eu já lancei o livro Boca de Beijo, estou lançando agora em julho Uma Janela no Muro e tenho outros três livros de crônicas prontos e um romance pelo meio.