Nesta entrevista, o cientista político Fernando Pignaton avalia a situação do PT e do governo Luís Inácio Lula da Silva diante das suspeitas e acusações de envolvimento de membros do governo e do partido em escândalos de compra de votos de parlamentares, recebimento de propinas para favorecimento em licitações, além de avaliar possíveis medidas que o PT vai adotar para recuperar a credibilidade construída durante os tempos de oposição.
Fernando João Pignaton é cientista político, médico e folclorista. Cresceu no bairro da Glória, em Vila Velha, onde participou de importantes momentos da política capixaba. Ativo integrante do Partido Comunista Brasileiro (PCB) - o Partidão - em sua juventude, Pignaton participou no início da década de 1980 das discussões e implantação do orçamento participativo em Vila Velha.
Atualmente, divide-se entre as atividades à frente do Instituto Flexconsult, pelo qual faz pesquisas de mercado e opinião; e participa da diretoria da Comissão Espírito-santense de Folclore, entidade que prepara o lançamento de vídeos educativos sobre a cultura popular e a identidade capixaba.
Século Diário: - Como fica a situação do PT diante de toda essa crise?
Foto: Apoena
|
|
|
|
Fernando: - O futuro do PT é uma incógnita hoje, porque numa escala de impacto, eu acho que todas essas denúncias atingem o sistema de representação política, a institucionalidade democrática, mas tem um impacto diferenciado no tempo. Primeiro: está prejudicando muito a imagem do Congresso. Naturalmente, os deputados que foram apontados são os mais prejudicados, mas está prejudicando como um todo. Depois, está prejudicando a imagem dos partidos aliados do governo e principalmente do PT. Depois atinge o governo Lula e, por fim, o presidente. O impacto é graduado. Pra onde vai o PT? É uma incógnita, tanto por causa da gerencia interna quanto pelos fatos que estão acontecendo na sociedade. Internamente, o PT já vem desenhando o movimento de mudar sua posição no espectro político. Eu já escrevi isso em vários lugares, que até a campanha, o PT era uma força à esquerda, não só atacava a direita, o centro, mas como atacava outras alternativas por ser de esquerda. Depois que assumiu a presidência, o governo Lula não se comportou de acordo com esse programa de 20 anos.
- Qual é a sua avaliação sobre essa referência que a sociedade assumiu e agora está avaliando de outra forma?
- Eu dizia que internamente o PT, sem ter uma discussão explicita sobre como ocupar uma nova posição no espectro político da extrema esquerda à extrema direita, passando pelo centro. Sem fazer uma discussão consciente, o PT, da candidatura a presidente, fez uma opção de centro, mas com uma política econômica conservadora sem uma discussão com o partido. Então, ninguém, em sã consciência, pode saber o que aconteceu nessa eleição no diretório nacional. Hoje existe um forte movimento da equipe do Lula para cancelar essa eleição. À medida que a política econômica do governo foi se desenvolvendo e se mostrando, começou a haver uma situação complicada dentro do PT. A situação e a articulação do presidente têm maioria nos políticos. Já na última eleição para prefeito, aqueles oito mil filiados não apareceram na campanha. A campanha foi com pessoas profissionais, o que indica uma grande mudança em relação ao passado. Internamente, o PT é um pouco imprevisível. Agora, com esse processo de eleição direta, que foi marcado naquele período anterior, para mostrar que o PT era diferente de todos, ele ficou imprevisível, porque a maioria da militância do PT não tem concordado com a postura que o PT assumiu no governo. Com as denúncias de corrupção do Waldomiro, a população começou a ficar mais desconfiada. Outros fatos, como a questão dos Correios e agora com o mensalão, a situação externa do PT ficou uma situação de desconfiança do partido. Eu diria que o mais prejudicado com essa desconfiança é o partido, junto com o Congresso. O PT fez uma grade de proteção ao Lula, em relação ao governo, e toda a responsabilidade da corrupção o governo federal tenta fazer com que fique projetada no PT. Eu acho que é nessa ordem. A corrosão desses fatos anti-republicanos, uma deturpação da representação política está sendo atribuída primeiro ao Congresso, aos parlamentares da base, ao partido, ao governo e depois ao presidente. A pesquisa do Datafolha mostra que 70% das pessoas hoje acreditam que tem corrupção no governo do PT.
- Teria existido algum bode expiatório ao longo dessa trajetória corrosiva?
- Não.
- Algum personagem massacrado?
- Eu acho que nesse momento o bode expiatório está sendo o José Dirceu, mas ninguém garante que essa rede de proteção que foi montada em torno do presidente continue funcionando. A pesquisa do Datafolha foi antes da demissão do Zé Dirceu. Foi uma tentativa completa de tentar desacreditar o Roberto Jefferson, e o governo só está tirando o Zé Dirceu porque sabe que a denuncia está tendo credibilidade. Mas o governo fez de tudo pra tentar editar a CPI, ganhar a CPI. Enquanto isso acontece, a comprovação da ligação com o presidente vai sendo adiada. mas eu acho que as CPIs vão funcionar, o próprio presidente do Senado diz que vai instalar a CPI do mensalão também, e nesse momento eu acho que o prejuízo para o governo e para o presidente vai crescer muito.
Foto: Apoena
|
|
|
|
- Qual seria a estratégia mais convincente para o povo? Do PT?
- Sim, para recuperar a credibilidade.
Bom, se você pegar o jornalismo de hoje, é uma apreciação conjuntural. A análise da Ciência Política é uma análise de longo prazo. Hoje, tudo está sendo tratado como se esses escândalos estivessem minando a imagem do PT, mas na verdade já teve momentos anteriores. Essa mudança de posição e adoção da mesma política econômica do governo anterior é que é a responsável de fundo, para uma corrosão aos poucos. O governo Lula e o presidente vêm caindo aos poucos. Na verdade, eu acho que o que há de fundo mesmo é essa política econômica, que sacrifica o crescimento do País. O governo tem dado sorte porque se esse governo que está aí enfrentasse as turbulências que o FHC enfrentou, ele estaria numa situação pior. Então, o governo está se beneficiando de uma conjuntura externa muito favorável, economia, facilidade de recursos. No Brasil, isso ainda está muito suscetível. Há uma crise econômica global. Países como a China, a Índia, a Coréia, estão crescendo 8% ao ano, enquanto o Brasil está crescendo uns 4%. Eu diria que nos grandes círculos de poder do mundo a política neoliberal não é mais acreditada. E o PT está sendo uma das poucas exceções que estão aplicando essa política, de redução do crescimento. Então, eu acho que isso está tirando a legitimidade do PT. Isso também levou o PT a criar uma hegemonia na sociedade e criar uma maioria no Congresso. Com essas políticas, ele foi se acomodando. Ao invés de fazer a reforma política, o governo preferiu fazer o jogo de fosiologismo, inchar partidos. Até agora não tínhamos certeza sobre os métodos sob o ponto de vista moral, mas sob o ponto de vista político, já é bastante antigo. Essas coisa de inflar o PTB, inflar o PP, tentar tomar partido, isso é uma coisa totalmente anti-republicana, antidemocrática. Condenável. Então, o governo não quis optar por uma discussão franca da questão. O governo era a favor da reforma política, do financiamento público de campanha, da fidelidade partidária, mas ele viu que isso dificultaria a criação da maioria do governo. Até um certo tempo atrás era uma crítica de método, agora ficou claro para a sociedade que correu dinheiro mesmo.
- Então, como será que o PT está procurando montar essa estratégia para recuperar credibilidade?
- No curto prazo ele está dizendo que é armação, mas a maior parte da opinião pública viu que existe mensalão. Esses processos não democráticos de aliciamento. É uma situação que tem um grau de imprevisibilidade. Inclusive, o governo repetiu o Fernando Henrique, que toda vez que tinha uma crise, levantava a bandeira da reforma política. O PT está fazendo o mesmo esquema.