Vitória (ES), edição de fim de semana
 
Ele descende do capitão Leopoldino, o mais
antigo dirigente Tupinikim da regiãio de Aracruz

Com o sangue do guerreiro nas veias





Rogério Medeiros


Uma das mais importantes lideranças atuais da nação Tupinkim é o bisneto do capitão Leopoldino, o cacique Vilmar Bendito de Oliveira, presidente da Associação Indígena Tupinikim-Guarani. Junto aos demais caciques, comandou, com absoluto êxito, a recente retomada dos 11 mil hectares de território indígena em poder da multinacional Aracruz Celulose, no município de Aracruz.

O seu bisavô, capitão Leopoldino, como era conhecido, preferia esse título ao de cacique. Foi o dirigente Tupinikim que mais tempo esteve à frente dos índios na região de Aracruz - de 1917 a 1973 -, amado e lembrado até hoje pelos índios por ter conseguido preservar intacto o território indígena por mais de 50 anos.

Vilmar não conheceu o avô, mas se orgulha de correr em suas veias o sangue dele, que influenciou na sua formação de dirigente de sua nação. No embate com a Aracruz Celulose, ele sente uma certa presença do bisavô incentivando a luta, já que além dele há outro neto do Leopoldino, cacique da Aldeia de Caieiras Velha, o Vilson de Oliveira, irmão dele, que tomou o nome indígena de Jaguareté.

Aqui está um dos vitoriosos sobre a Aracruz Celulose, para conhecimento dos leitores de Século Diário:

Século Diário: - Qual a sensação que você sente ao comandar a recuperação do trecho expressivo dos tupinikim e saber que seu bisavô foi o grande cacique da nação tupiniquim?

  Foto: Apoena
  
Vilmar: - Na verdade, a sensação é muito boa porque estamos resgatando a nossa memória. Vivemos o que nossos antepassados viveram, as lutas que eles tinham. Com certeza essa luta foi muito maior, porque naquela época o índio não tinha essa visão de mundo, não tinha essa consciência que a terra tem um dono. Ele sabia que era um dos donos, mas via a terra como um espaço onde podia desfrutar, sobreviver.

- Veja, na verdade vocês são uma nova geração, porque a geração do seu bisavô, do seu pai, era uma geração que foi surpreendida pela tomada das terras por uma multinacional como a Aracruz. Vocês, hoje, tiveram capacidade de organizar, se preparar para a retomada da terra. Não é uma retomada comum, porque se você está na Amazônia, o índio está brigando com um fazendeiro. E vocês brigam com uma multinacional. Como você vê essa questão?

- A dificuldade é grande, mas a gente se sente responsável pelo povo tupi-guarani. Quando nós resolvemos retomar nosso território, viemos com determinação, com espírito de guerreiro mesmo do povo indígena e a gente sabe que é muito difícil de lutar com uma multinacional como a Aracruz Celulose. Mais de 30 anos de posse do nosso território, mas a gente tem esse espírito de guerreiro. E nós estamos fazendo de tudo para poder manter a posse desse território, que a gente acabou de demarcar.

- E como foi essa preparação para a retomada da terra?

- A principio, a gente veio fazendo uma avaliação ao longo de todos esses anos de como a empresa se instalou nessa região. A gente fez um resgate da memória e através disso aí, em mais de um ano reunindo, articulando com o nosso grupo de apoio. No entanto, o momento que a gente achou favorável foi esse e depois foi feita uma reunião com as comunidades, e a partir daí a gente viu que a comunidade estava disposta a lutar e aumentou muito o ânimo, porque no inicio era um movimento das lideranças. A gente entrou e estamos aí garantindo o nosso território, o nosso espaço.

- E como vocês vão repovoar essa área?

- Nas discussões internas, sentamos e avaliamos que só o fato de demarcar o território não é suficiente. Estamos pensando em construir a aldeia dentro desse território, nos quatro pontos do território, para que se possa realmente garantir a posse com a nossa permanência.

- No tempo do seu bisavô, ninguém era dono de terra, e vocês vão se manter em nível de aldeia, como vai ser?

- De início a gente pensa em nível de aldeia por uma questão de segurança. Hoje já existem critérios para os tupis-guaranis, o pessoal tem liberdade de construir suas casas onde acha mais conveniente para tirar seu sustento.

- Mas nesse momento vocês têm dado orientação agrícola? Porque hoje vocês têm uma entidade muito forte que você preside. Além de você ser o cacique, a entidade é muito forte.

- É, hoje tem uma entidade muito forte que no principio tinha projetos que abrangiam toda a comunidade, mas com essa oportunidade com o território muito maior, vamos dar conhecimentos técnicos para essas famílias para produzir alimentos, expandir. A gente quer o crescimento da comunidade, o desenvolvimento.

- Como é preservar as tradições indígenas? De qualquer maneira, hoje vocês têm uma população que não é indígena em torno de vocês. Como vocês vão fazer agora com esse território maior que vocês acabam de reconquistar? Vocês fazem parte de uma geração que está revivendo as tradições indígenas.

- Nós acreditamos que esse resgate cultural vai surgir de forma bem simples. Eu acredito nesse acordo, que, no passado, nós tivemos com a Aracruz, as comunidades perderam a identidade porque estavam sendo obrigadas a aderir a um sistema onde não tinha autonomia para trabalhar no seu dia-a-dia, cada família com sua atividade, que era da terra, da caça. Mesmo porque a caça não existe mais, é muito escassa. A própria pesca também. Esse resgate cultural eu vejo de uma forma bem tranqüila e a comunidade vai poder avaliar melhor como é a convivência de um povo indígena e resgatar também coisas que ficaram no passado. No momento, a comunidade vai começar a valorizar mais a sua espiritualidade, dar mais valor à natureza, resgatar, porque o índio é a natureza, ele vive da natureza, mas tem que cuidar dela para que possa resgatar seu espírito e sua cultura.

  Foto: Apoena
  
- Hoje o tupinikim tem a exata noção que a Aracruz tomou as terras dele, a Aracruz é a grande beneficiária dos terrenos indígenas. Por que vocês estão recuperando 18 mil hectares, mas o terreno de vocês era de 40 mil hectares. Não estou dizendo que vocês têm que retornar à luta, porque me parece que nesse momento vocês têm que cuidar bem disso em que vocês entraram, saber como assentar o pessoal, ter habilidade para fazer isso.

- A gente vê que é uma luta muito grande, no passado foi tirado todo esse território. Então, em 79, os Tupinikim conseguiram mais um pedaço através da luta, em 98 também conseguimos mais um outro espaço e agora, em 2005, estamos reampliando. Hoje, na reivindicação são 18 mil hectares, mas nós sabemos que são ao todo 40 mil hectares. Mas isso, futuramente, de acordo com as nossas necessidades de sobrevivência, nós vamos brigar por esse resto dos 40 mil. A gente vai brigar, sim, seja amanhã ou depois. Nós queremos a permanência do nosso povo, a nossa liberdade, em nossas terras.