Foto: Rogério Medeiros
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O pesquisador da Comissão de Folclore Jeferson Gonçalves Correa, através de uma ex-integrante do Ticumbi de São Bartolomeu, da zona rural de Conceição da Barra, encontrou novos elementos para esclarecer se ele era realmente um Ticumbi de mulheres ou misto, reacendendo uma discussão entre os folcloristas que data ainda dos anos 60, quando ele praticamente desapareceu na região de São Domingos, seu local de origem.
Com base no que se conhecia dele, havia desconfiança de que fosse realmente misto, como entendiam alguns folcloristas e principalmente o folclorista e historiador Maciel de Aguiar. Dúvida essa que não deixou que ele e outros folcloristas arriscassem defini-lo. Tanto que não há nada ainda escrito sobre ele. Só ligeiras referências.
Relíquia
Mas agora, com o aparecimento de dona Erotíldes de Oliveira, de 84 anos, velha, cega, entrevada sobre uma cama, mas ainda com bastante lucidez, permitiu-se que os folcloristas se debrucem sobre os dados que ela trouxe à discussão e definam, finalmente, a identidade real desse Ticumbi, aliás, o único que continha mulheres. Por ser único, ele tem um alto grau de necessidade de ser registrado, por dizer respeito ao cerne da cultura quilombola do norte do Estado.
O Ticumbi sempre foi a mais tradicional manifestação folclórica do território quilombola, situado entre os municípios de Conceição da Barra e São Mateus. Tanto que o mais afamado deles foi o do Sapê do Norte, região que hoje é o centro da disputa entra a Aracruz Celulose e entidades quilombolas. Pois foi no Sapê do Norte que existiu o Ticumbi dos grandes mestres, dedicado a São Benedito. Extinto nos anos 80 por força da diáspora imposta pela entrada dos eucaliptais da Aracruz na região, ele teve como mestres, nos seus 200 anos de existência, segundo o historiador Maciel de Aguiar, Balduíno, Zé Diana, Manuel Sapucaia, Abilio de Diana e Zoroastro Valeriano Rodrigues. A papa fina da elite cultural quilombola.
Realmente o de maior longevidade e que costumava se exibir pelo sertão e visitar a igreja de São Benedito, na sede do município de São Mateus. O outro Ticumbi de São Benedito é o que permanece ainda ativo e há 50 anos está sob o comando do mestre Terto Balbino. É de Conceição da Barra, e o antecessor de Terto foi Luiz Hilário. Existiu um outro Ticumbi, nas imediações da sede do município de Conceição da Barra, em Santana, que tinha como mestre o pai de Terto, Manoel Jerônimo, que se apresentava no dia de Nossa Senhora de Santana.
Ainda havia pelos sertões de Conceição da Barra dois Ticumbis: um de homens e esse misto ou de mulheres, que está tendo seus detalhes contados agora por dona Erotíldes de Oliveira, que nos anos 30, aos 12 anos de idade, ingressou nele, permanecendo até os anos 60, quando ele desapareceu. Os dos homens se apresentavam no dia de Santo Antônio e tinham como mestre Florentino Florindo, e o de dona Erotíldes, o das mulheres, na localidade de São Domingos.
Foto: Rogério Medeiros
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Antes de entrar nas informações da dona Erotíldes, torna-se necessário explicar a palavra Ticumbi como rótulo dessas manifestações folclóricas. Isto porque os seus integrantes, bem como a população quilombola, só o tratam por Baile de Congo. A palavra Ticumbi foi dada pelo folclorista Guilherme Santos Neves. Ticumbi é umas das partes mais importantes dessa manifestação e, talvez levado pela circunstância de existir Cucumbi no Nordeste e Cacumbi no Rio de Janeiro, mestre Guilherme trocou o nome original de Baile de Congo por Ticumbi. Assim ele passou a ser conhecido no mundo do folclore e da mídia, mas lá, onde se apresenta e se originou, continua sendo tratado como Baile de Congo.
Emancipação
Segundo dona Erotíldes, o Baile de Congo delas se chamava São Bartolomeu (mas elas tratam de São Berto). Ensaiava nos meses de junho e julho e se apresentava no dia 24 de agosto, quando se festeja São Bartolomeu. Não havia igreja na região e eles se apresentavam pelas casas. Detalhe: esse Ticumbi nunca se apresentou fora de São Domingos. Outra referência importante: ele só existiu cedendo lugares para os homens, que as próprias mulheres entendiam que não deviam ser ocupadas por elas. Com eram os casos dos reis, dos secretários dos reis, o violeiro e o mestre.
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