Vitória (ES), edição de fim de semana
 
O sofrimento como combustível de luta





Rogério Medeiros




Dona Rosa dos Santos Dealdina é a figura típica do quilombola que viveu os dois ciclos de sua gente. No campo, com as dificuldades naturais do trabalho pesado, e sem trabalho na periferia das cidades, para onde foram os quilombolas depois de praticamente expulsos de suas terras para dar lugar ao eucalipto da Aracruz Celulose e, em proporção bem menor, à cana-de-açucar da Disa (Destilaria Itaúnas S.A).

Na sua simplicidade, dona Rosa compõe com absoluta fidelidade o que foi a vida em território quilombola e na periferia das cidades. No campo, muito bem, apesar das dificuldades naturais. E na periferia da cidade enfrentando a dificuldade de trabalho e a absoluta falta de adaptação aos serviços encontrados. Dona Rosa foi para São Mateus e lá acabou de criar os filhos. Como ela, a maioria dos quilombolas sentiu essa mesma inadaptação em outras regiões em que se refugiram, como em Vitória e periferias das cidades no norte do Estado.

Inadaptada à cidade, ligada pela emoção ao campo, onde para ainda espera retornar para os seus beijus, ela é diferente da maioria que perdeu suas terras e se preocupa somente com a sobrevivência. Dona Rosa está na luta pela retomada do território quilombola. Sua casa é hoje um reduto de comando de luta, destacando-se suas filhas Domingas e Selma, duas grandes lideranças do movimento quilombola.

A transformação da vida quilombola do norte capixaba na figura de dona Rosa dos Santos Dealdina:

Século Diário: - A senhora é de São Domingos e tem 54 anos?

  Foto: Rogério Medeiros
  
Dona Rosa: - Isso.

- A senhora morou lá até os 40 anos?

- É. Por isso que eu digo: foi quando meus pais mudaram para o Córrego Macuco.

- Esse Córrego macuco fica onde?

- Naquela região mesmo, para dentro um pouco ali. Tudo em São Mateus.

- Mas mudaram para lá por que?

- Porque em um certo tempo meu pai saiu do sítio onde ele era empregado. E ele casou e lá nesse sítio eles moraram 13 anos. A maioria de nós nasceu lá, as irmãs. Eu sou a terceira filha. Eu nasci lá no Córrego de São Domingos. Aí, depois, com o passar do tempo, eu saí um pouco dali, mas sempre ajudando eles. E aí o meu pai requereu a posse de terra, lá no Córrego do Macuco, e mudou para lá com a gente pequena ainda e lá nasceram mais dois meninos. E ali tocou a vida. Mas essa época do Córrego do Macuco é uma época muito difícil, mudou para lá só com a família e tinha uma mula grande e uma porca. Lá eles tocavam a lavoura e com aquela luta toda ele nos criou. E lá ele foi tocando a vida, a posse de terra.

- E como era a vida nessa época, o que a senhora fazia, preparando a propriedade dele?

- Nessa época ele derrubava a mata, plantava mandioca, cana, abóbora. E outros cereais.

- Mas nesse período que ele chegou lá chegaram outras famílias também ou já tinha outras famílias lá?

- Tinha outras famílias lá no Córrego do Macuco e outros posseiros que ajudaram a tirar a posse com ele, mas o primeiro a mudar para lá foi ele. Depois os outros tiraram as posses, vamos supor, igual aos lotes daqui, e tinha os vizinhos, muitos deles ainda são vivos, outros já morreram...

- Aí, dona Rosa, como era a vida lá, de seu pai? Tinha casa de farinha...

- Com o tempo tinha tudo. Tinha casa de farinha. E os vizinhos foram chegando e fazendo a abertura, cortando a mata, cada um plantando o que era seu, mas mais farinha.

- E aí, como é que vendia essa farinha?

- Essa farinha vendia aqui em São Mateus, em Conceição da Barra, mas mais no povoado de Santana. Tinha um senhor que vendia em São Jorge, um senhor chamado seu Inácio Rodrigues, que ainda mora aqui, já está com a cabeça branquinha. E a vida deles era isso aí.

- E como era a vida para a senhora, que era uma jovem?

- Ah, a vida era muito trabalho. Mas era boa. Tinha as brincadeiras (folclore), as ladainhas e as festas. Bailes.

- A senhora também trabalhava?

- Trabalhava também, mas teve um certo tempo que não trabalhava muito não, ficava trabalhando mais em casa, cozinhando para eles. E os meninos homens trabalhavam mais na roça. Tinha um tempo também que eles tiravam madeira, colocavam estaca de graúna, e tinha um tempo que o dinheirinho entrava mais, porque a farinha dava só um pouco mais de lucro porque era muito barata.

- Todo mundo ajudava a plantar, inclusive os vizinhos?

- Todo mundo plantava, os vizinhos ajudavam, faziam beiju, farinha de coco, e também fazia muito o mel da cana. Cortava a cana e fazia melado, às vezes levava três dias e ia um ajudando o outro. Era um trabalho em mutirão. Afinal era praticamente quilombola puro.

- Tinha muito Reis?

- Tinha. Aliás, como tinha. Mas nem em todos os bailes a gente ia, porque a criação era um pouco diferente, não era toda casa que convidavam e a gente ia. Mas ter, tinha. Tinha baile de juntamento também, de fazer um juntamento para plantação e aí de noite tinha baile. Fazia um barreio, para barrear aquelas casas, e também tinha baile.

  Foto: Rogério Medeiros
  
- E fazia tudo coletivo?

- Quando tinha que fazer uma casa, todo mundo ia ajudar. Na roça, a mesma coisa. Ia muita gente ajudar, mais de 30 pessoas. Era tudo coletivo. O Rei (Folia de Reis), também, inclusive meu pai brincava.

- Como é mesmo que o chamavam?

- O apelido dele era Miúdo. Esse era meu pai, que brincava muito de vaqueiro de reis de boi (uma espécie de palhaço da brincadeira).

- Havia mais Reis na região?

- Tinha. Tinha rei de um irmão do meu, do seu Agenor. Isto só na minha região. O seu Agenor, que ainda vive aqui em São Mateus, vive aí fazendo o mercado. Eles são tudo da idade do meu pai. Ele cantava um Reis bonito que só vendo! Era um lado de homem e um outro lado de mulher. Mas era muito bom. Tinha também a ladainha.

- Então explique como era a ladainha.

- A ladainha era feita sempre depois do meio-dia. E quando tivesse um baile em barreio, depois da janta, começava a ladainha, que eles diziam até mesmo que era para batizar as casas. Aí rezava a ladainha. Sempre no começo da noite ou então ao meio-dia.

- E isso juntava a vizinhança toda?

- Juntava a vizinhança toda e rezava a ladainha.

- E eram todos pequenos proprietários?

- Tudo pequenos proprietários.

- E trazia a produção no lombo dos animais?

- É, no lombo dos animais. E o santo para quem eles rezavam mais era Santo Antônio, São Benedito e São Sebastião. Agora mesmo que estava lembrando aqui com as crianças que já fui muito à ladainha de São Sebastião.

- Então o movimento era muito grande?

- Tinha muito movimento. A gente vinha para a cidade vender a farinha, abóbora, aipim, batata doce, de tudo um pouquinho, e a gente tinha que sair um dia antes, dormir na casa de uns parentes da minha mãe e no outro dia é que vinha para São Mateus, nessa estrada de Boa Esperança. Daí chegava aqui e vendia. Aqui, esse bairro mesmo onde eu moro ainda nem existia. Era mais na beira do rio, a gente descia ali na ponte, parava o animal e o trabalhador comprava. Depois ia para o porto e chegava lá vendia, sempre tinha parente da minha mãe lá, ou conhecido, dormia e no outro dia voltava para casa. Não dava para ir e voltar no mesmo dia porque a viagem era muito puxada.

- A vida era dura, mas era uma vida mais farta?

- Era mais farta e não tinha tanto o perigo que tem hoje, né? Essas coisas que há hoje, naquele tempo não existia.

- E a senhora freqüentava todos os bailes lá?

- Eu ia, né? É como eu falei, em algumas casas a gente ia. Tocava sanfona, tinha quadrilha, minha mãe tinha um tio que marcava quadrilha e chamava todo mundo. Era uma quadrilha muito bonita. Apresentava a quadrilha e depois continuava o baile para a gente.