Vitória (ES), edição de fim de semana
 
Quando sorrir é sempre o melhor remédio





Fabíola Zardini


"Todos sabemos como o amor é importante e, mesmo assim, com que freqüência nós o demonstramos? Muitas pessoas doentes neste mundo sofrem de solidão, tédio e medo, e isso não pode ser curado com uma simples pílula." (Dr. Patch Adams)



Pode parecer estranho um ambiente hospitalar cheio de palhaços e brincadeiras. Afinal, é um lugar de extremo silêncio para não perturbar a recuperação dos pacientes. Engana-se quem ainda pensa dessa forma.

Não que o silêncio não seja importante, mas a alegria já faz parte da rotina de vários pacientes de hospitais da Grande Vitória com o projeto Especialistas do Riso, coordenado pela nossa entrevistada deste final de semana, Rozigraci Simões de Oliveira, que está à frente deste brilhante trabalho há 10 anos.

Assim como o médico americano Patch Adams, que apostou no trabalho de uma terapia com os pacientes através da alegria, Rozi se transforma na Dra. Clown e ela e sua companhia teatral vêm conseguindo resultados incríveis nas enfermarias ao longo desse anos. Tanto é que uma parceria com os médicos já se tornou inevitável.

Formada em Artes Plásticas e especialista em Psicologia e Arteterapia, foi uma dor familiar que a fez atentar para o quanto um ambiente frio e formal pode prolongar um tratamento.

Constantemente o projeto recebe voluntários, e quem quiser colaborar é só entrar em contato pelo telefone 3227-1688 e participar das oficinas que acontecem ao longo do ano.

Confira o belo trabalho dessa guerreira que mostra como o sorriso é contagiante e apenas faz o bem a quem o recebe. E também a quem o transmite.

Século Diário: - A idéia do projeto veio da sua especialização nas áreas de psicologia e arteterapia?

  Foto: Apoena
  
Rozigraci: - Não, pelo contrário. Foi o projeto que me fez ter a idéia de me especializar nessa área.

- Então como foi?

- Engraçado que esses dias eu estava conversando sobre isso, que por causa de uma coisa tão triste eu fiz uma coisa alegre. Às vezes eu penso como eu consegui fazer isso na época. Hoje em dia eu me pergunto se eu conseguiria fazer alguma coisa nesse sentido na situação que eu estava. O início do projeto veio com o falecimento do meu pai e daí eu decidi interferir no ambiente hospitalar para amenizar o sofrimento dos pacientes. Na doença do meu pai eu tive o meu primeiro contato com paciente, com o hospital, como era o comportamento, como eles ficam balados física e psicologicamente, enfim, toda a frieza hospitalar. Eu resolvi interferir e utilizar os meios que eu tinha, que era a arte. Foi baseada em uma internação que eu decidi pelo projeto.

- E isso aconteceu em que ano?

- Em 1994.

- Então já estão há dez anos trabalhando nesse projeto?

- Isso, vai completar dez anos de projeto este ano.

- Há algum paciente em especial que vocês trabalham, algum hospital ou alguma coisa nesse sentido, ou vocês vão a todos os ambientes hospitalares e acompanham pacientes em qualquer problema de saúde?

- Qualquer ambiente e qualquer patologia dentro do ambiente hospitalar a gente faz a interferência. Quando a pessoa entra no projeto, ela já vem preparada para lidar com tudo. Chegar lá e um paciente faleceu e está todo mundo desesperado, ou então chegar lá, o paciente acabou de entrar no hospital e não quer ficar, ou então veio de uma cirurgia e ainda está sedado. Enfim, as situações são muitas. As pessoas do projeto sabem que vão encontrar todas as situações. Cada situação diferente a gente prepara o pessoal para trabalhar. Mas você pode perguntar: 'Mas como pode, se cada hora é uma situação diferente? Há sempre um treinamento diferente?' Não, a oficina é um treinamento geral que dá condição de o paciente chegar lá e lidar com qualquer situação. É uma coisa muito legal, é muito dinâmico. Já tive casos, como, por exemplo, uma voluntária contou que ela chegou no CTQ (Centro de Tratamento de Queimados) e na hora que ela ia embora uma criança fez total esforço para dar tchau e quando ela olhou aquela mãozinha, estava igual a uma luva de boxe com as ataduras. E ela ficou imaginando o peso que estava aquela mão para ele fazer aquele sacrifício. Cada detalhe é muito grande, que mostra como é gratificante.

- Hoje vocês estão em quantos voluntários?

- O projeto tem seus ciclos. Tem hora que são pouquinhos os voluntários, mas hoje em dia estamos com umas 30 pessoas em rodízio, mas está chegando uma turma nova.

- E o perfil dessas pessoas, como é?

- Bem variado. Tem senhores e senhoras, gente de todo nível social e educacional.

- E como a maior parte das pessoas se aproxima para fazer a oficina? Às vezes por um problema de família... como é a procura?

- É uma coisa interessante. Tem uma senhora, por exemplo, que ela estava com o filho internado na oncologia do Hospital Infantil e o filho dela, um dos sorrisos que ele deu foi para o grupo, e durante essas visitas ele disse: 'Mãe, quando eu ficar bom vamos fazer parte do Especialistas do Riso?' E ela disse que sim, mas ele acabou falecendo. Depois de um ano, ela ligou, se inscreveu, e hoje ela é voluntária do projeto. Nesse caso, ela veio por querer fazer a mesma coisa pelas outras crianças, atender a um pedido do seu filho. Os casos são muito variados. Tem pessoas que chegam aqui porque são tímidas, porque estão com depressão e seria uma terapia com eles mesmos.

- Fazendo o bem para outras pessoas é uma forma de curar a si mesmo.

- É, uma terapia. E eu vejo a transformação nessas pessoas a cada dia.

- Tem um hospital em especial que vocês freqüentam ou não tem distinção? E qual a freqüência do trabalho de vocês?

- Toda segunda-feira à tarde a gente vai a quatro hospitais. Santa Casa, HPM, Santa Rita e Clínicas. E todo sábado tem visita ao Hospital Infantil. Então, tem hora marcada, crianças esperando, coisa muito organizada. De um a dois domingos a gente faz visita especial em asilo e Casa de Passagem, onde as crianças que são vítimas ficam, crianças para adoção, vítimas de violência. Além de palestras em faculdades, escolas.