Vitória (ES), edição de 01 de novembro de 2005    
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"o que importa é a vida"
ou
Sobre Como o Homem Fez a Pedra Vencer a Força da Gravidade



Heraldo Ferreira


Muito antes de aceitar fazer parte deste Caderno eu já me perguntava porque não existia na maioria dos jornais do mundo uma crítica sistemática ou uma coluna regular sobre Arquitetura e Urbanismo. Por que cargas d'água, jornais e semanários dedicam páginas e páginas ao último lançamento do Paulo Coelho ou ao filme do Tom Cruise e ignoram as aberrações arquitetônicas e urbanísticas que são feitas todos os dias pela iniciativa privada e pelo poder público? Ora bolas, qualquer um pode desligar o rádio, não assistir àquele filme ou àquela peça, não comprar determinado livro ou deixar de ir numa exposição... mas não prestar atenção ao edifício ou à cidade onde vivemos e trabalhamos? Não tem escapatória, nem o João Gilberto que é avesso a sair de casa está imune! A possibilidade, por menor que seja, de poder ajudar a minimizar esta ignorância generalizada, não foi o único, mas certamente, foi o principal motivo que me levou a entrar de cabeça nesse desafio.

Outra coisa curiosa que talvez ajude a explicar como vim parar aqui é o fato de que todos, sem exceção, todos os arquitetos têm a mania, quase que uma compulsão, de fazer outras coisas que não apenas o seu ofício. Sempre dá pitaco no trabalho dos outros... designers (coitados, não merecem), publicitários (esses sim!), engenheiros (ih! nem se fala!), até médicos (duvida?). Alfinetadas a parte, têm uns que vão e nunca mais voltam. Quer ver? Três exemplos clássicos: o Chico (Buarque), o Luis Fernando Carvalho (diretor do "Lavoura Arcaica" e do "É Dia de Maria") e o Mário Carneiro (diretor de fotografia do "Di-Glauber"). E agora eu (completo desconhecido frente às sumidades citadas), meio que pisando em ovos, pedindo que perdoem a minha escrita esquisita, me aventuro nesse novo território, com a certeza de que sou estrangeiro e como tal posso, quem sabe, contribuir com uma visão inusitada.

Terminadas minhas digressões sobre os "porquês" do meu "aceite", voltemos àquele quadro de esterilidade crítica pintado no primeiro parágrafo e adicionemos a ele a nossa realidade globalizada infectada pelo "american way of life" e pelos valores de mercado que aviltam a tudo e a todos. O resultado, mais que aterrador, é desastroso. O poder público acuado nas últimas décadas pelos crescentes índices de expansão demográfica e urbana, com raras exceções, se omite deixando o caminho livre para iniciativa privada resolver de maneira "magistral" nossos contrastes sociais através da adoção de uma clara segregação entre espaços públicos e privados, espaços "de ricos" e de "pobres", representada pelos condomínios fechados, guetos onde os pequeno-burgueses se refugiam à procura da tão sonhada "qualidade de vida", e pelos shopping centers, templos do ócio (não àquele dos gregos) e do consumo.

E, para todos efeitos, nós, arquitetos, a pelo menos duas décadas, nos refugiamos nos nossos escritoriozinhos de 30m² (o mercado disse que tem que ser assim!) com ar condicionado e estacionamento (senão o cliente reclama!), assistindo a tudo impotentes, reclamando da vida, da falta de trabalho e da incompreensão dos raros clientes que aparecem às nossas idéias "criativas" e "geniais". Gradualmente nos transformamos de profissional importante nas décadas de 40 a 60 (época áurea da arquitetura brasileira), figura central no projeto de desenvolvimento e modernização concretizado no milagre de Brasília e em contraponto à reconstrução européia (anacrônica, apesar de necessária) do pós-guerra, em meros executores de projetos, concebidos em outras esferas, sobre questões que deveriam ter sido discutidas e decididas pelos próprios arquitetos.

Pode parecer uma atitude recalcada ou arrogante, até mesmo saudosista, mas é exatamente o oposto. Não quero ser o dono da verdade. A intenção foi apenas de comparar dois momentos distintos e tentar mostrar a inversão de valores que hoje se apresenta de maneira subliminar, velada e, por tanto, muito perigosa, que, pouco a pouco, vai tomando conta da consciência coletiva e quando a gente se der conta, já virou padrão, norma. Hoje em dia, saímos das Faculdades ou das Universidades condicionados a nos rendermos a toda e qualquer exigência do cliente. Entretanto, no caso da Arquitetura por menor que seja o projeto, ainda que restrito a um lote, ele faz parte da construção coletiva da cidade. Além do conforto imediato e dos desejos mundanos desse cliente que nos procura e nos paga, nossa responsabilidade maior está com a dimensão cultural e social da Arquitetura e com nossos clientes maiores: a História, a Geografia, a Natureza, a Tradição, a Cultura e os Arquitetos que nos precederam.

Aqui vale lembrar do Oscar (o Niemeyer). É sempre recorrente no seu pensamento, a idéia de que a Arquitetura frente aos problemas da vida não tem tanta importância. Até pouco tempo atrás achava isso uma grande balela, parecia coisa de político populista. Aí as pessoas crescem, ficam menos rebeldes, mais serenas... No final das contas, a Arquitetura deve sempre amparar, como que um suporte, todas as atividades humanas. Nunca como fim, sempre como um meio. Meio de fazer com que as pessoas se sintam mais sociáveis, mais felizes, mais esperançosas, mais desejosas...

E é exatamente isto que esta oportunidade me traz: Esperança e Desejo.

Espero e Desejo que esta coluna atinja o maior número possível de pessoas, arquitetos ou não, principalmente "ou não". Espero e Desejo abrir os olhos do cidadão comum para este quadro lastimável que já se arrasta por mais de duas décadas de completo descaso e empobrecimento do espaço público das nossas cidades. Espero e Desejo que nós, arquitetos, nos façamos ouvir nas decisões sobre os empreendimentos públicos ao invés de nos contentarmos com o papel que recentemente nos foi relegado de executores de idéias pré-concebidas por tecnocratas e politiqueiros. Espero e Desejo muita coisa, mas principalmente, que este seja um espaço de idéias e ideais, de esclarecimentos e questionamentos, de embate e colaboração. Bem vindo!

E-mails para o colunista: cadernoa@seculodiario.com


 

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