Em uma prova de fé incontestável na raça humana, os escritores fantásticos de outrora imaginaram maravilhas para o século XXI: colônias submarinas, com suas vastas fazendas de alga; cidades na lua, ligadas à Terra por elevadores compridos; metrópoles voadoras, sustentadas no céu por forças magnéticas inomináveis.
Esses primeiros ciência-ficcionistas não faziam planos nem davam palpites, mas se esmeravam em previsões. Por isso, nada me faz acreditar que não tenha sido por pura sorte que o futuro haja escapado de suas páginas.
Sorte deles, é claro: a verdadeira realidade do século XXI teria sido um tremendo fracasso de público. Afinal, quem compraria um livro sobre essa infinita paisagem de calculadoras, de todos os tipos e tamanhos?
Mecanismos matemáticos se espalham pelas ruas, pousam solenemente sobre nossas escrivaninhas, aconchegam-se no bolso de cada calça jeans. Tem gente que até usa pendurados no pescoço. É um desdobramento inédito da monotonia, acima de níveis jamais concebidos pelo gênio vitoriano.
O que antes funcionava por mecanismo, vapor ou manivela, agora depende de cálculo. Os microprocessadores, esses ábacos sofisticados, deixaram de ser componente exclusivo das máquinas computadoras. Hoje em dia, por questões de economia, precisão ou segurança, fazem parte de qualquer objeto. Tudo processa.
A maior parte das pessoas nem percebe, mas resolve funções complexas diariamente. De dirigir um carro a ouvir música, pagar uma conta, escrever um romance: tudo possui a consistência de uma equação sendo resolvida. O usuário, mesmo que não entenda nada de aritmética, está lidando com números complicadíssimos.
Acontece que esses números estão camuflados. Os algarismos são outros, e também a sua caligrafia. A forma como os escrevemos mudou; a apresentação dos resultados é diferente. Com um movimento de mouse fazemos a conta, e o sistema nos responde acendendo pixels na tela, desenhando figurinhas.
Essa capacidade de disfarce chama-se emulação. Emular, em um dos significados mais atuais no dicionário, quer dizer "imitar o funcionamento (de um outro sistema) por meio de modificações que permitam ao sistema imitador aceitar os mesmos dados, executar as mesmas funções e chegar aos mesmos resultados que o sistema imitado". Para um processador, emular significa impor limites ao cálculo e torná-lo interessante.
É por isso que as nossas calculadoras podem se comportar como máquinas de escrever, caixas de banco e até telefones portáteis com agenda para mil números. É por isso que o nosso mundo matemático acaba sendo tão maravilhoso, mais do que qualquer cidade submarina.
Por mais que tenham forma adaptada à determinada função, todos os mecanismos compartilham da mesma substância. Cada um guarda a possibilidade de todos os outros. O mundo, por trás de seus disfarces, esconde universos fantásticos, onde celulares servem de controle remoto para outdoors eletrônicos, videogames transmitem sinal de TV, geladeiras administram câmeras de segurança.
E-mails para o colunista: cadernoa@seculodiario.com
|