Prometi que este ano passaria longe da Casa Cor... Não resisti. No primeiro convite, lá fui eu para o fetiche dos novos ricos. Prometi que, mesmo se fosse, não escreveria nada. Sabe como é, né? Não existe tal coisa chamada "má publicidade", tudo é publicidade! E eis me aqui ajudando a encher a burra dos organizadores.
Entretanto algo que extrapola muito os limites deste evento, por mais que estes sejam extremamente rígidos, vigiados e excludentes, me chamou a atenção e me levou a quebrar todas as promessas acima descritas. Está localizado no segundo andar da casa e se intitula "Loft(?) do Filho com Refúgio SM". Só a história de que, hoje em dia, tudo quanto é espaço sem divisão é chamado de loft, já me renderia uma boa coluna, porém vou me ater a segunda parte do título. Antes fosse o que eu tinha imaginado de início. O SM significa "Segurança Máxima" e não tem nada há ver com couro, chicotes e algemas. Pena, ia ser menos triste e mais divertido. As perversões são sempre mais interessantes que as paranóias.
Logo de cara, as primeiras associações foram aquele filme com a Jodie Foster, "O Quarto do Pânico", e a celeuma que gira em torno da segurança pública e privada, seja ela física ou patrimonial. A referência ao filme é óbvia, quase que direta, já a questão da segurança é mais complexa, têm raízes bem mais profundas e guarda em si algumas contradições que não serão resolvidas em sua totalidade apenas com um "bunker" ou com um referendo.
Não estou fazendo vista grossa à crescente onda de violência que vemos todos os dias na mídia. Acredito que são necessárias ações emergenciais de repressão por parte do poder público, além da adoção de algumas medidas básicas de proteção por parte dos cidadãos. O que não podemos deixar de pensar são nas ações a longo prazo de efeitos sociais e econômicos mais abrangentes. Além disso, há reproduzido no ambiente urbano esta situação de medo e paranóia, que se torna, em alguns casos, uma faca de dois gumes, uma vez que ao resolver um problema, cria outro. É assustador, por exemplo, andar à noite a pé em bairros como Mata da Praia, Ilha do Boi ou Ilha do Frade. Para todos os lados que você olha só existem muros altos. Não há para onde correr, nem por quem pedir socorro numa emergência.
Antigamente, as pessoas, das suas próprias casas, vigiavam a rua, dando o alarme se algo estivesse acontecendo com o vizinho. Recentemente, com o abismo entre ricos e pobres e o fracasso do combate à violência por parte do poder público, cada um começou a cuidar da sua própria segurança, e aí vieram grades, cadeados, correntes, armas e mais recentemente câmeras, sensores, cercas elétricas. Ainda se tinha a esperança de uma segurança particular eficaz. Quem dera! No futuro, o quadro pintado pelas empresas de segurança privada é pessimista. Querem nos convencer de que as cidades e as casas definitivamente não serão seguras. Então, a única saída será nos proteger nos nossos quartos, o último refúgio do homem-de-bem! E o lema será "Levem tudo, mas, por favor, não me machuque!". Aliás, não me espantaria se, algum dia, propuserem a instalação de Refúgios de Segurança Máxima públicos como que equipamentos urbanos. Imagine o seguinte: você, caro leitor, andando na rua, percebe que vai ser assaltado, corre até a esquina mais próxima, se tranca e espera a poeira baixar. Fantástico! Módulos policiais, que nada! Queremos RSM público!
Isto é Darwin na veia! A teoria da adaptação na sua forma mais contemporânea. Até quando vamos nos "adaptar" para sobreviver, se é que conseguiremos? Quando é que vamos nos conscientizar que não há segurança completa e total? No máximo, existe uma sensação de segurança cujo valor não pára de crescer e é indexado pelos níveis de violência estampados nas manchetes? Quando é que vamos nos conscientizar que o caminho para esta tão sonhada "segurança" é o caminho inverso? Não podemos nos acuar e nos intimidar com medo do próximo e do diferente. Temos que reverter esse processo de enclausuramento e de abandono da rua e do espaço público. A retomada e a requalificação desses espaços como reais espaços de convívio, da tolerância e da democracia é imprescindível. É a verdadeira cidade para todos!
E-mails para o colunista: cadernoa@seculodiario.com
|