Overdose de abusos




Não há leis, regulamentos ou normas que contenham a Aracruz Celulose em seu afã de lucrar cada vez mais. Agora é no transporte de toras de eucalipto pelas estradas que cortam o Estado que a empresa lança novo desafio ao poder público.

Matéria em destaque nesta edição informa que, inconformada por ter sido multada ao exceder limites de peso transportado em suas carretas, a multinacional partiu para ameaças de retaliação ao inspetor-chefe da Polícia Rodoviária Federal (PRF).

Setenta e uma carretas da multinacional foram flagradas transportando cargas de eucalipto com peso acima do limite determinado por lei. Ao cumprir o que determina a lei, o responsável pela operação, inspetor-chefe Roger Gouvêa, foi ameaçado.

A empresa já possui licença do Departamento Nacional de Infra-Estrutura e Transporte (Denit) para exceder em 29 toneladas as 45 toneladas permitidas regularmente. Mas ela excedeu, por conta própria conta, esse limite. Foram feitas 71 notificações para um total de 41carretas apreendidas. Ao todo, as carretas excederam o peso em 400 toneladas.

Informa o inspetor da PRF que cada carreta apreendida ou notificada excedeu em média 20% de peso permitido pela licença do Denit, que é de 74 toneladas em carretas de 9 eixos.

Como sempre, a empresa usa seu marketing para se mostrar publicamente compreensiva diante dos problemas de infra-estrutura das estradas. Ela chegou a fazer campanhas sobre a implantação do transporte de eucaliptos por barcaças - que também agridem o meio ambiente - afirmando que as estradas do Estado seriam poupadas com a diminuição do número de carretas em circulação.

Mas não é o que vem acontecendo na realidade. Segundo o inspetor, as carretas que excederam o peso formam valas nas estradas que podem levar até ao capotamento de um transporte de pequeno porte.

O inspetor não se mostra intimidado pelas ameaças que diz ter sofrido. Considera a operação "uma luta dura", já que a empresa tem grande influência política e normalmente apela para retaliações. "Já recebi telefonemas dizendo que a Aracruz Celulose vai pedir a minha cabeça; que ela não é igual às empresas de granito; que ela luta duro. Mas, enfim, enquanto eu estiver na chefia da sessão de policiamento as operações vão continuar acontecendo. Entramos na luta sabendo que teríamos de saber bater e saber apanhar".

As infrações decorrentes de irregularidades no transporte de cargas são de responsabilidade do embarcador, ou seja, da Aracruz Celulose, no caso. Mas a Aracruz não comete infrações apenas na questão do peso de suas cargas. Algumas de suas carretas também foram multadas por falta, deficiência ou ineficiência de equipamentos obrigatórios. As multas aplicadas contra a empresa, em média, são de R$ 600,00.

O que são R$ 600,00 para uma empresa que arranca lucros de bilhões do solo capixaba? Uma insignificância. Mas o valor não parece ter sido a motivação de sua reação.

Tudo indica que ela pretende mostrar poder político. E para isso está adotando overdoses de abusos. A Polícia Rodoviária Federal (PRF) está defendendo o pouco de integridade que resta em nossas estradas. Merece, portanto, o apoio da sociedade nesse esforço.