Irresponsabilidade quanto à falta de equipamentos de trabalho adequados e o descuido de se fazer uma ligação brusca de um painel de alta tensão da Usina Itabrasco (Usina Três) foram as prováveis causas da morte de um operário que trabalhava para a Vale, há cerca de uma semana, segundo o irmão dele. "Meu irmão usava luva pigmentada no momento do acidente, em vez de luva de borracha", revelou.
Eduardo Nazareno, 23 anos, faleceu após sofrer descarga elétrica de mais de 4 mil volts, enquanto reforçava o componente de um painel de alta tensão, que deveria estar desligado. O rapaz foi enterrado na última segunda-feira (31) num cemitério de Nova Almeida, Serra.
Alexmar da Silva Pião, 26 anos, irmão de Eduardo, faz trabalhos de elétrica básica há praticamente 10 anos. Ele tem formação em comandos elétricos industriais, pelo Senai, e inclusive exerceu as mesmas atividades há cerca de dois anos na mesma empreiteira para a qual o irmão trabalhou até às 15h deste último domingo (30). "Já trabalhei na MMI (Manutenção e Montagem Industrial) por 60 dias e sei muito bem como é o procedimento de trabalho dos funcionários e da supervisão", completou.
Nesta quinta-feira (3) Alexmar disse que aguardará um novo contato com a empreiteira até a próxima segunda-feira (7). O último contato com um representante da empresa foi durante o enterro de Eduardo, há três dias.
"Eles me garantiram que vão tomar todas as providências necessárias e legais à partir desta segunda (7)", disse. Até então, os contatos foram feitos com um dos supervisores da empresa, José Domingos Pedrini, mais conhecido como Fraga. "Antes disso não vou recorrer à Justiça, nem fazer alarde. Pelo menos até o prazo que prometeram".
Acidente
Alexmar da Silva teve contato direto com empregados que assistiram de perto ao acidente antes da manutenção no componente (chamado barramento) de um dos 43 painéis de alta tensão (4.160 quilowatts) na usina. "Ele estava com luva pigmentada de algodão. Por estar trabalhando com a manutenção daqueles painéis, o correto é que estivesse utilizando luvas de borracha", diz.
Após a vistoria de um supervisor da Companhia Vale do Rio Doce (CVRD), junto com uma equipe técnica da contratante, foi a vez da contratada, MMI (composta por um mesmo grupo), realizar procedimento semelhante como rege o código de segurança da companhia.
"A total responsabilidade pelo ligamento, ou desligamento, dos cubículos (os painéis) é da Vale, que além de cuidar disso averigua se o local está totalmente seguro para manutenção. Isto antes de outra averiguação da empreiteira", reforça.
Por duas vezes o detector de alta tensão (medidor que confirma a inatividade dos painéis) indicou que a unidade estava inoperante. "Esta medição é feita com os supervisores e técnicos totalmente isolados, a dois metros de distância, e com todo tipo de suporte adequado. Tudo isso na parte frontal do cubículo" - Eduardo se posicionava atrás do painel.
De acordo com o eletricista, não há qualquer possibilidade de se notar o ligamento da máquina a olho nu. "Se a chave elétrica foi religada, somente o medidor poderia confirmar. Mesmo assim isso não faz sentido. Afinal de contas tudo deveria estar desligado durante a manutenção", reforça.
Enquanto persiste a dúvida sobre o que ocorreu, Alexmar da Silva lembrou que nesta quinta-feira (3) peritos da Polícia Civil realizam levantamentos para apurar o acidente. Ele, que já perdera outro irmão de 20 anos, foi quem sempre ajudou Eduardo Nazareno. "O primeiro contrato de meu irmão foi nesta empreiteira, onde entrou há quatro anos como auxiliar de eletricista".
O operário recebia R$ 420,00 mensais e assinara acordo em 24 de junho último, para fazerr a manutenção e montagem das unidades na Usina Três. "O horário dele seria de 7h até 17h. Mas ele só conseguia sair de lá às 19h", lembra. Eduardo morava com o irmão e a cunhada em Eldorado, Serra. "Nos finais de semana ele ficava com nossos pais em Nova Almeida".
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(reportagem publicada em 01/11/2005)
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