"Não há nada como o sonho para criar o futuro.
Utopia hoje, carne e osso amanhã."
Victor Hugo
Esta entrevista parecia muito mais uma conversa do que um diálogo formal entre jornalista e entrevistado. Dela participou, a meu lado, o jornalista Rogério Medeiros, além de assessores do prefeito João Carlos Coser (PT), o personagem principal de uma série de reflexões.
Coser foi direto, apesar de um momento ainda incerto. Ele mesmo deixou claro, durante a conversa, que estaria colocando aos leitores de Século Diário impressões muito mais pessoais do que impressões do partido, ou seja, do que as costumeiras decisões tomadas pelo enorme grupo petista.
Vale conferir o tom personalista do prefeito de Vitória no que diz respeito ao seu sonho de entrar na fila para a disputa, em 2010, do governo do Estado. Até lá, ele diz que quer mesmo é fazer uma boa gestão no Executivo municipal, incluindo uma reeleição na jogada.
Sobre alianças, Coser faz as suas especulações, baseadas no que já está se configurando até o momento, mesmo com a crise nacional pela qual passa o seu partido. É uma situação até razoável, segundo ele. Até a metade do ano que vem, no entanto, caberá a Coser, aos outros prefeitos petistas e a um sem-número de militantes espalhados pelo Estado lutar pela reeleição do presidente Lula.
Não se sabe ainda qual será a cara do palanque. Não se sabe ainda onde ficará uma figura importante, que merece a atenção do partido: o governador Paulo Hartung (PMDB). Coser diz que é saudável a sua relação de prefeito com o governador, mas que o partido, por enquanto, quer emplacar candidato próprio, o deputado estadual Cláudio Vereza. Na corrida até outubro de 2006, Coser faz suas observações. Muitos cenários já estão se apresentando para a ala petista.
Século: - Para onde vai o PT nas eleições 2006?
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Foto: Apoena
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João Coser: - Estamos num processo, basicamente, de posse do Cláudio (Vereza) como presidente, esperando a temperatura baixar. Nós estamos numa avaliação de que é um momento difícil que passa o partido e, portanto, com capacidade de esperar um pouco mais para fazer uma eleição mais competitiva. A princípio, o PT já colocou na rua, há quatro meses, a posição de ter uma candidatura própria. Cláudio é pré-candidato ao governo do Estado. Nós vamos conversar isso com os partidos, mesmo aqueles partidos que apresentam candidatura própria, na perspectiva de construir uma aliança. Mas também tem uma abertura grande para conversar, tanto com o governo do Estado, a candidatura do governador à reeleição, quanto a perspectiva de outros partidos. O próprio PSB, o PP, o PL e o PC do B. Então, se tem por um lado a dificuldade que é o momento que o partido está vivendo nacionalmente, por outro lado a gente tem também, quase que pela primeira vez, três ou quatro opções. Desde a candidatura própria, que a gente se sente mais disposto a construir. Até o momento, o grupo do PDT não abriu mão da candidatura do PT. Seria inédito Vidigal deixar de ser candidato, Max deixar de ser candidato para apoiar o Cláudio, que é nossa construção. Vamos buscar uma alternativa de aliança para passar esse momento. O fecho também dessa crise nacional vai dizer um pouco. Nós temos na administração uma relação muito grande com o governo do Estado, também o governo federal e o estadual. E hoje temos uma convivência fraterna, uma convivência política extremamente sadia. Então, não tem dificuldade para o PT. Depois de muitos anos, eu posso até dizer que não tem dificuldade para o PT definir o seu caminho. O que nós vamos ter que fazer é, no momento certo, abrir o máximo, ter uma opção política.
- O que se diz é que quem está próximo do governador é o prefeito de Vitória, não é o PT, que tem criticado essa idéia de apoiar a reeleição do governador.
- Temos relações diferentes. Não só eu, como os cinco prefeitos do PT têm uma relação de parceria com o governo do Estado. Uma relação política e uma relação administrativa, como eu faço, junto com o governador, a relação com o governo federal... Boa parte das interlocuções é feita de maneira coletiva. Então, é natural que o prefeito tenha uma relação maior, além das ligações pessoais e também por causa de trabalho concreto. É lógico que o prefeito não ser pensado no segundo ano de mandato é uma conveniência muito grande. Deixar que não seja colocada em xeque a própria administração, deixar que isso aconteça no momento certo, no final do mandato, é cômodo para todos os prefeitos, não é só para mim. E, de fato, o governo tem nos ajudado muito, tanto em Vitória quanto nos outros municípios administrados pelo PT. Internamente, no partido, já se conhece, há posições diferentes, mas há uma busca única de tentar construir um projeto coletivo. Não vai ter disputa acirrada. Vamos tentar construir, sabendo que a candidatura própria é um desejo, mas também é um grande desafio.
- Há um aspecto tático que pode estar em jogo. A reeleição do governador poderá coincidir com o final do seu mandato de prefeito. Com isso, o senhor pode sair candidato a governador em 2010.
- É uma coincidência. Se você pensar no lado individual, é importante. Se estou nessa posição na principal cidade, pode haver uma possibilidade a governo do Estado. Tem uma outra coisa que pode ajudar ou complicar, que é a sucessão nacional. Nós temos uma eleição presidencial. Provavelmente, Lula é candidato à reeleição. Isso sempre foi um marco na nossa história. Determina. A coisa mais importante para um militante do partido, um dirigente do partido, é o projeto nacional. Se a gente tem as disputas locais, as necessidades locais, em primeiro lugar tem que ser colocado o projeto nacional. Então, a reeleição do Lula, provavelmente, vai ser um divisor de águas. Essa reeleição vai indicar um caminho para o partido. Isso pode indicar a necessidade de ter uma candidatura ou até de não ter uma candidatura e ficar com um leque mais amplo de alianças para permitir que todos os partidos possam apoiar o governo federal.
- Como está sendo construída uma aliança de apoio à reeleição de Hartung, justamente com os partidos que ficaram juntos nas eleições municipais, mas que foram contrários ao bloco do governador?
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Foto: Apoena
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- Nós estamos fazendo um debate muito intenso com o PSB. O PSB que, na prática, é nosso aliado estratégico. Nós passamos todos os momentos nossos, em quase 25 anos de existência do PT, uma relação muito próxima com o PSB. Então, essa decisão do PSB pode ter esse nível, ao mesmo tempo esse cenário que se constrói reforça o nosso papel nessa sucessão para colocar um companheiro nosso numa posição estratégica, numa chapa majoritária. Então, nós temos consciência disso, estamos trabalhando com humildade, mas temos consciência que o PT pode pesar na balança, numa decisão como essa. Nós estamos com todo mundo. Estamos conversando com o PDT, estamos conversando com o governo do Estado e estamos conversando internamente entre a gente e com os nossos aliados, mas fiéis ao caso específico do PSB, dos partidos menores. A impressão é que o PT vai construir um papel fundamental. O governo hoje está bem mais estruturado, tem um trabalho interior, uma reestruturação ética e, principalmente, financeira, no Estado. Acho que o governador é um candidato em potencial, não adianta ignorar. Mas há o resultado da composição expressa no resultado eleitoral de 2004. É verdade que o governo acabou também participando dessa eleição. No caso de Cariacica, no primeiro turno, nós tivemos uma experiência lá com o PL e o próprio PDT. Nós tivemos o apoio deles. O governo acabou sendo um aliado favorável a Helder (Salomão). No caso de Vitória, não é a mesma coisa, mas a ausência do governador também numa candidatura acabou nos ajudando.