Cameron Crowe tem a justificada fama de ser um bom trilheiro. Já pôs os músicos de "Quase Famosos" para cantar "Tiny Dancer" do Elton John, já fez Tom Cruise correr em "Vanilla Sky" por uma Times Square deserta ao som de "Everything in Is Right Place", do Radiohead - este é seu arco de possibilidades, de um clássico pop dos anos 70 a uma música obscura dos anos 2000, trilhas sonoras que tentam fugir da obviedade ao mesmo tempo em que buscam garantir uma relação de troca (e não de dependência ou subserviência) entre imagem e som. Que um diretor com esta marca tenha escolhido para dois momentos importantes de seu novo filme a música "Moon River", o hit de Henri Mancini e Johnny Mercer presente em nove em cada dez comédias românticas, diz muito a respeito de "Tudo Acontece em Elizabethtown" (em cartaz no Estado desde sexta-feira).
Crowe está novamente diante de um material autobiográfico. Se em "Quase Famosos" o diretor usou sua experiência como repórter da revista de música Rolling Stone para falar da relação com sua mãe, em "Tudo Acontece em Elizabethtown" é a vez de acertar as contas com o pai. O protagonista Drew Baylor (Orlando Bloom) está prestes a se matar por conta de um fiasco profissional quando recebe a notícia da morte do pai, e precisa viajar até sua terra natal para providenciar o funeral - à parte a tentativa de suicídio, é a mesma história vivida por Crowe em 1989, quando seu pai faleceu repentinamente logo após o lançamento de seu primeiro longa-metragem.
Ainda que a viagem em si tenha pouco espaço no filme, "Tudo Acontece em Elizabethtown" é, como "Quase Famosos", encarado como um road-movie - um "filme de estrada", em bom português. Uma estrada que é tomada como aquele lugar mágico onde o destino inicial (o reencontro com a memória do pai) leva a um destino paralelo, mas também importante (o reencontro consigo mesmo). Isso na teoria. Na prática, o que vemos são as questões de redescoberta da figura paterna serem postas de lado toda vez que aparece na tela o sorriso de Kirsten Dunst (que interpreta Claire, a namorada-de-estrada do protagonista).
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Foto: Divulgação
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Filho pródigo de um regime que vê no sucesso comercial a única realização pessoal possível, Drew Baylor abala-se muito mais com o fim de sua carreira profissional do que com a morte do pai. Não por frieza - é que a relação com o pai nunca poderia lhe proporcionar as "conquistas" que sua profissão trouxera. Na viagem de retorno às raízes, Drew se dá conta da inconsistência de seu modo de encarar o mundo, e se deixa levar pela tal estrada mágica. É quando Drew encontra em Claire uma parceira para essa trajetória que Cameron Crowe revela sua tese para lá de curiosa (e pouco lisonjeira com seu pai na vida real): num processo de descoberta de uma nova vida, é inviável que sua companhia seja alguém morto. Sem cerimônias, o filme abandona qualquer elucubração mais profunda sobre a natureza da relação pai e filho e embarca na mais pura e sincera comédia romântica. Diante de uma mão dupla hipotética, Crowe ignora a pretensão de densidade de "Vanilla Sky" e decide acelerar no caminho de "Jerry Maguire - A Grande Virada", seu filme de maior sucesso. A figura do pai é reduzida a uma urna cheia de cinzas, sua memória é devidamente honrada com pequenos flashbacks da infância de Drew, e isso parece bastar.
O que havia de road-movie também é abandonado. O ingresso de "Tudo Acontece em Elizabethtown" vale mesmo como um simples e belo passeio. É cada vez mais raro ver um filme de um gênero tão repisado como a comédia romântica tratar seus personagens (e seus espectadores) com tanta honestidade. Em nenhum momento o filme chama para si a responsabilidade de tematizar a dor das feridas abertas pela morte. Cameron Crowe caminha muito mais na sugestão de uma cura, e por mais que sua resposta seja os sempre genéricos termos "vida" e "amor", não deixa de ser encantador acompanhar uma história que ainda acredite nesses valores. Mesmo que tenhamos que ouvir "Moon River" pela milésima vez.
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