Um laudo técnico do Instituto Nacional de Seguro Social (INSS) sobre os mutilados em serviço na multinacional Aracruz Celulose deverá ser finalizado em oito dias. A iniciativa de perícia é resultado do protesto aberto no último dia 10 de outubro, quando 80 trabalhadores ocuparam a agência do INSS em São Mateus, no norte do Estado, contra o abandono dos trabalhadores mutilados.
Segundo Jair Alves de Lima, 57 anos, que está à frente do movimento, a gerente executiva do INSS de Vitória, Aparecida Francis Cunha, foi até São Mateus e mostrou boa vontade em analisar a situação de cada mutilado.
"Fizemos uma lista dos 24 mutilados que estão sofrendo mais, eles têm de 50 a 62 anos, sofrem com a perda da visão, problemas graves de coluna, intoxicação, perda de membros, entre outros, e se a perícia confirmar o que já é certo, a Aracruz terá que nos indenizar pelo abandono", ressaltou.
Em meio às negociações para que a perícia fosse feita, Jair chegou a ser ameaçado. Segundo ele, quando se reunia com gerente executiva do INSS de Vitória, no norte, um pistoleiro chegou à agência do INSS fazendo ameaças de morte e afirmando que a empresa não pagaria as indenizações.
Jair disse que "o pistoleiro da empresa afirmou que ele tinha que sumir do mapa para acabar com tal bagunça". O rapaz foi contido e expulso pelos seguranças do INSS antes mesmo que Jair saísse do prédio.
"Quando eu saí o guarda já tinha chamado a polícia para conter o pistoleiro e ele já havia fugido. A Aracruz Celulose manda no crime organizado, já tentou me matar antes. Eu mesmo vou ter audiência devido os 17 anos de seguro que eu paguei e não recebi nada, e ainda ganhei uma perna de platina", ressaltou.
Ainda assim, Jair afirma que a empresa não conseguiu impedir que os mutilados fossem analisados pelo INSS e garante: "São 24 pessoas entre muitos mutilados, estas já estão naquele morre e não morre, sofrendo muito, sem auxílio nenhum da empresa, que manda também no INSS de São Mateus.
"Sebastião Pereira Pardinho, de 62 anos, perdeu uma visão quando um toco de eucalipto bateu em um dos seus olhos, ainda adquiriu hérnia trabalhando na empresa e o pouco que vê do segundo olho já está indo embora. Hoje ele vive em um lixão, como pode? Antes ele era operador de máquina da empresa", contou Jair.
Ao todo, dos 80 trabalhadores integrados ao movimento dos mutilados pela empresa já morreram 30 e segundo Jair, nenhum recebeu qualquer auxílio da multinacional. Dos que sobreviveram, muitos passam fome, como é o caso de Sebastião Pereira, ou vivem de caridade alheia, com filhos pra criar.
Com a perícia do INSS, os mutilados esperam agora ter direito a aposentadoria já que estão inválidos para o trabalho. "Um salário mínimo já impediria que muitos morressem de fome", disse. Estes esperam ainda que o laudo saia o mais breve possível já que tal perícia já foi prometida em junho de 2004 e só aconteceu no último mês.
Segundo Jair, os trabalhadores foram empregados da Aracruz Celulose até que ficaram doentes. Então a empresa os demitiu, sem pagar nenhuma indenização. Algumas destas demissões foram nas décadas de 80/90 do século passado.
Dos mutilados, cerca de 30% são leucopênicos: não tem imunidade à doenças, pois trabalhavam com o pelo benzeno, usado nos agrotóxicos e nas motosseras.
A luta dos mutilados contra o abandono da Aracruz Celulose e contra o descaso do INSS é antiga. Já foi levada até mesmo a Brasília. Sem nenhuma providência.
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Os mutilados
Em audiência da Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados, em Vitória, 45 dos mutilados Aracruz Celulose ou suas empreiteiras mostraram sua indignação e pediram providências. Veja a lista apresentada na ocasião:
1 - Adão Pereira da Silva: morto por veneno
2 - Iza Turial Carvalho: fraturou a coluna carregando caixa com 60 quilos
3 - Laudelino dos Santos: perdeu a vista com galho de eucalipto
4 - Manoel Turíbio: fraturou coluna
5 - Valdete de Jesus Santos: perdeu o pé
6 - Valdete Moreira dos Santos: fraturou a coluna carregando peça
7 - Joel Rodrigues de Souza: fraturou a coluna e perdeu o olho direito
8 - Leôncio Lima Barbosa: leucopênico pelo uso de benzeno
9 - Antonio Maria de Jesus: quebrou a coluna trocando rolete de trator
10 - Valdionor de Souza Oliveira: caiu seis metros e fraturou a coluna
11 - Cloves dos Santos: furou o olho no galho de eucalipto
12 - Ailton dos Santos: quebrou a perna
13- Sebastião Pereira Pardinho: perdeu a vista e é leucopênico
14 - Estelita da Silva Santos: perdeu o pé
15- Mateus dos Santos: ficou cego por veneno
16 - Manoel de Jesus Batista: tem um tumor na cabeça após queda
17- Paulo Justiniano dos Santos: perdeu a vista aplicando venenos
18 - Germano Bispo da Silva: leucopênico pelo uso de venenos
19- Joselito de Jesus Santos: teve o pé cortado por um trator
20 - Milton José dos Santos: fez transplante de rim e foi obrigado a trabalhar 90 dias depois; morreu
21 - José de Jesus Paim: estourou a bacia em acidente de trabalho
22 - Pedro Clemente Nazeré: fraturou a coluna
23 - Manoel Afonso: perdeu a vista aplicando veneno
24 - Cosme Santos: leucopênico
25 - Damião Pereira Rocha: fraturou
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