A política na UTI




Antônio Carlos Medeiros
é administrador e cientista político

Temos cada vez mais a sensação e a impressão de que a política brasileira está na UTI. E que a sociedade brasileira está no estágio de convivência social do tipo em que Thomas Hobbes chamava do "homem lobo do homem" .

Na UTI, a política apresenta tendência de infecção generalizada e, daí para frente, de possibilidade de falência múltipla dos órgãos. Enquanto isto, na sociedade, cresce a inversão de valores culturais; a complacência com as pequenas e grandes transgressões; o ímpeto à deslealdade e à esperteza, enfim. É a imagem Hobbesiana do "homem lobo do homem". No limite, é o fim do "Contrato Social" proposto por Rousseau. Contrato este que torna possível a superação da imagem Hobbesiana e a convivência social.

Tudo isto é muito grave. Está na hora de nós todos criarmos juízo, como se dizia antigamente. Do contrário, com a iminência do colapso do sistema político, a vaca vai pro brejo e jogamos o bebê fora junto com a água do banho. Alguém duvida que isto seria prenúncio de caos social ?

Desde os gregos, as sociedades criaram a esfera da política para construir a possibilidade da convivência social dos contrários. É a esfera que cuida da articulação e da agregação de múltiplos interesses cada vez mais conflitantes. É, por isto, tida como a "arte do possível".

Assim, ao longo dos séculos, das cidades gregas aos estados nacionais, culminando agora com a criação de entidades supra-nacionais, a esfera da política cuidou da convivência dos contrários. Quando isto se esgota (a convivência) a História ensina que daí se parte para o caos social, a guerra civil implícita ou explícita e, até, para a guerra entre países. Queremos entrar nesta agora, como se diz na gíria?

Em curto prazo, como adverte o prof. Stélio Dias, é urgente que os poucos oráculos que ainda existem neste país se apresentem para trazer luzes no meio da neblina e da fumaça. Certamente, o senador José Sarney seria um destes oráculos.

Em curto prazo, ainda, é necessário que as lideranças políticas, sociais e empresariais venham para a ribalta e mostrem que é preciso baixar a guarda, recolher as "armas", sentar para conversar. Negociar espaços mínimos de consensos. Preservar as instituições. Construir uma Agenda Mínima para o país sair do prenúncio do caos, do labirinto, do turbilhão de cornetas e holofotes que só produzem a desintegração do tecido político e social.

O declínio da esfera da política é uma tendência mundial das sociedades da informação e do conhecimento e da globalização. Mas aqui no Brasil este declínio está muito mais acentuado.

Nosso presidencialismo de coalizão produz uma lógica perversa, em que ninguém consegue ter maioria para governar. Nosso federalismo produz um sistema ineficaz e ignorante de concorrência e paralelismo entre os três entes da Federação. E nosso sistema partidário e eleitoral corrói a democracia representativa sem conseguir fortalecer a democracia direta. É o pior dos mundos.

Como afirmou Helena Chagas, o pacto de salvação possível passaria por uma assembléia constituinte revisora e exclusiva para passa a limpo o presidencialismo à brasileira. Mas, daí, ela mesma indaga, reverberando o enorme pessimismo da sociedade: "mas quem disse que eles (os políticos) querem mudar?"(O GLOBO, 31/10/05).