Haverá de verdade tal
mulher assim tão tão?





Tavares Dias


É linda, garante o narrador. Paulistana. Morena, cabelos pretos, longos, brasileiríssimos. Olhos negros, feiticeiros, incapazes de escondê-la de si se algum dia ela assim o pretendesse. Mora nos EUA, mas diz que vai comprar casa em Trancoso, no Sul da Bahia, o que por si já conta muito - do ela de ser um jeitoso jeito.

Mas não gosta de dizer muito de si. Diz que é do mercado financeiro, que tem marido americano (que talvez não sofra o quanto sofreríamos nós, homens latinos, diante da ausência da mulher que passa uma temporada na Bahia, retorna aos EUA e lhe diz que uma parte de si ficou em Trancoso e que necessita de lá voltar, em busca desse resgate um, quem o saberá...).

Ou talvez só haja mesmo, do referido amado marido, mercê de esquinas, becos e corredores de doer e de desviver que no psicofísico morada façam, uma imagem posta, restante, que possa ainda posar de verdade numa conversa de bar entre frutos do mar, por encantadora que possa em princípio ou até mesmo em essência aparentar.

Por mais grande ou maior envolvimento que possa aparentar, que mestre haverá de entre parecença e substância assim de prima distinguir, desapartar?

Grande mestre seja esse, em havendo, o um capaz de reconhecer e ser reverenciado, bendito em vida seja, e que se o louve e se o louvando rogue-se-lhe a capacidade de, sem bromas nem remancheios, inteira verdade acerca de tantos fêmeos enigmas desvelar.

Também diz, a bela, que tem apartamento em Paris. Tal bom gosto, questionar, quem de haverá?

Viaja de carro, sozinha, descansa em Vitória, pernoita, vai seguir até Itaúnas no dia seguinte. Pressa não é artigo que de ver conheça nem ouvido falar tenha nem que compre de precisão nem de lembrança não.

Tem olhos de ver, pele de perceber, coração de viver o que de viver inteiro há.

É de causar encanto, também, havendo masculino coração capaz de captar num átimo de segundo espreitar o que toda a sua linguagem corporal luta por falsear e alegorias tantas apresenta em desfavor do inteiro sentir.

Mas não será menor a beleza nem o encanto por aqui até então narrado de tal mulher que ao notívago capixaba tais (im?)pertinências narrado tiver (o mesmo noctâmbulo que ao cronista este aqui por vias transversas tal estória ter feito chegado houver).

Desexistindo a tal ela uma, admitamos, nenhumas inexistências por isso em fato de vias verazes exibirá, que em seu papel à poesia fantasia toda inteira qualquer feitura caberá, de urdidura mil, de olhos que tiram olhos pra dançar e que de encantos tantos, em tempo curto e de livros e músicas plenos, tanto terão.

Que literatura é tudo fingimento mesmo, pessoa, assim ensinou o mestres Fernando, navegar no lembrar é preciso, ainda que seja hoje tão impreciso o viver.
Percorra pois a indagação poética do leitor destas maltraçadas a BR-101 Norte, espíritossantoafora, bahiadentro, a ver se deveras é, se sentimentos forros viverá, se foros de verdade a boca do mundo ladrará, vira-latamente, se de verso em verso mulher tal assim tão tão existirá.

E, sentindo-se, por acaso e evento, a cara leitora e o caro leitor, enganados por suposta falseta do cronista, façam a este, por gentileza, o favor: voltem lá, bem lá em cimão da estória, e varejem, linha por linha, se em momento um ou outro não se viram na morena linda, ou no madruguento que a este cronista trouxe a vivência da moça que diz que é paulistana, que vive nos EUA mas viaja para Trancoso em busca de uma estória que lá tem a resolver, que garante que tem apartamento em Paris, e se diga me diga se não estamos todos nós aqui nesta estória, ou querendo, ou invejando, ou admirando, descrendo ou só fantasiando, vivendo ou mesmo viajando para Trancoso na BR-101 Norte que há no coração de todos nós, desacelerando e fantasiando a nossa desmagia do concreto dia-a-dia.

Pois me digam lá: que mal haverá, em semelhante viajar? Faça-se aprimeirar, em pedras atirar, quem trem torto nesta estória encontrar. Que, assim fazendo, abracadabrará, terminando por a si mesmo(a) apedrejar.