Virgulino começou como faxineiro na redação do jornal, subiu andar por andar a escala social e profissional, acabou repórter. Virgulino venceu graças a seu faro especial para encontrar o fato, dissecar a notícia e tranformá-la num escândalo. E viveria feliz para sempre, não fosse uma pedra no caminho - a vil vírgula.
Decididamente, a vírgula não foi criada para humilhar ninguém. E regras existem, exdrúxulas, determinando o local exato onde elas devem se encaixar. Mas, porém, todavia, contudo, a teoria na prática é outra, e a vírgula, Deus nos livre, nem sempre deveria estar onde nós a pomos, mas deixa um embaraçoso vazio onde não a pomos.
Disse Tolstoi, explicando sua técnica de criar algumas das maiores obras primas da literatura mundial, que passava uma manhã inteira para decidir onde pôr uma vírgula. E a tarde inteira para tirá-la. E olha que Guerra e Paz tem mil páginas, num tempo sem computadores! Virgulino, menos dotado, não tem paciência nem tempo para tais lucubrações mentais.
E como o mau estudante que vai aleatoriamente preenchendo as respostas na folha de testes, na esperança de que alguma resposta coincida com a do professor, Virgulino vai também semeando vírgulas ao acaso, na esperança de que algumas caiam no local certo. Ou que o leitor saiba menos do que ele.
Por que um detalhe tão pequeno pode se tornar um problema tão grande? Existem muitos exemplos em que a vírgula muda totalmente o sentido do que se pretende dizer. Esse é o mais famoso: Cristo morreu, não ressuscitou. Cristo morreu não, ressuscitou. A vírgula não é apenas um adorno na sentença.
Virgulino, precavido, segue uma regra fundamental. Lê o texto em voz alta, e quando lhe falta o fólego, comete uma vírgula. E tem se dado bem, porque na idade da pressa e da informalidade dos emails, muita vírgula antes essencial está sendo eliminada, no pressuposto de que transforma o texto numa corrida de obstáculos.
Virgulino acha que vírgula de menos não vai atrapalhar sua carreira de repórter, mas que vírgula de mais pode deixá-lo sem leitores.
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