Recentemente - julho 2005 - o cantor Felipe Dylon iniciou uma briga judicial com sua gravadora, a forte EMI (detentora dos mais expressivos catálogos da música nacional - Legião Urbana - e internacional - Beatles). Briga das boas, e por uma razão nobre: o resgate da liberdade artística.
A nova e atual gestão da multinacional traçou um plano para a carreira do astro adolescente, bem diferente do que havia sido planejado por ele e acordado no início do contrato (que, aliás, previa quatro discos). Felipe se viu diante da "obrigação" de gravar músicas de compositores ligados à EMI, ou indicados por ela, e ainda teve suas composições próprias vetadas. Como seu objetivo é arriscar-se como compositor, houve o desgaste e, por fim, a inevitável briga pela rescisão contratual. Segundo o advogado do cantor, é uma situação tão injusta que só a EMI poderia rescindi-lo a qualquer momento, sem multa, e, do jeito que as coisas estavam, se Felipe não fosse à justiça, seria deixado na famosa "geladeira" e provavelmente esse seria seu fim como artista.
Embora esse caso ainda prometa outros capítulos na esfera judicial, Felipe Dylon já obteve uma expressiva vitória: a permissão para trabalhar em outra gravadora. Essa decisão foi dada de forma unânime por três desembargadores da 10ª Câmara Cível. A EMI agora entrou com uma ação em que pede uma indenização no valor de R$ 4 milhões, principalmente para compensar os investimentos feitos na carreira do artista e que não trarão mais qualquer retorno. [* Obviamente, me parece uma simples tentativa de pressão para cansar e desgastar ao máximo Felipe e seus representantes legais *].
Considero o caso extremamente sério, me faz lembrar da clássica briga de George Michael com a gigante "Sony Music" nos primórdios dos anos 90. A causa também foi a interferência indesejada por parte dos sábios homens de negócios - que crêem possuir a fórmula do sucesso - na busca pelo retorno à curto prazo. [* Música tem - e precisa disso para sobreviver - seu lado comercial, mas sua essência não pode ser fabricada ou padronizada. Música não é um sanduíche do McDonald`s *] O ato corajoso de Felipe Dylon merece ser aplaudido. Gostando ou não do trabalho do rapaz [* e, sem preconceito, eu acredito que quem leu isso, até aqui, não é o "público alvo" dele *] devemos atentar para esse fato e imaginar quantos artistas acatam - por covardia ou comodismo - esse tipo de interferência. Fico ainda admirado com o fato de que tal atitude tenha sido tomada por um garoto cuja carreira ainda está longe de se solidificar musicalmente. Não deixa de ser um belo exemplo para toda a classe artística e um alerta aos que se interessam por música. Afinal, ciclicamente temos que ouvir as mesmas gravações ou regravações de 10, 20, 30 anos atrás. Por melhor que funcione comercialmente, não há nada mais equivocado que transformar - dentro de um disco de inéditas - a regravação daquele "antigo sucesso" em música de divulgação do trabalho. Exemplos não faltam. Fica caracterizada a tola falta de confiança e o limitador medo de arriscar no "novo". Dessa maneira, nenhuma relação pode ser saudável, ou mesmo evoluir naturalmente [* Tá na hora de mais gente colocar as cartas na mesa *].
Atualmente o cantor vem trabalhando de forma independente na gravação de cd e dvd - provavelmente visando o Natal - e andou compondo com Dudu Falcão e com o rapper paulista Helião (as músicas devem se chamar "Em Outra Direção" e "Liberdade" respectivamente). A permissão conquistada já possibilita que ele lance o material por qualquer companhia. A agenda de shows pôde ser mantida por não ter vínculo com a gravadora.
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Tenho escutado bastante os discos da Marina Lima - cujo último trabalho foi feito justamente na gravadora sobre a qual falamos acima - nos últimos dias. [* Aliás, ela apresentou em São Paulo seu novo show, "Primórdios". Como o nome já indica, o espetáculo é um resgate do passado para entender o presente e apontar o futuro. O roteiro inclui a recriação de canções fundamentais na construção da carreira da cantora e ainda a apresentação de duas inéditas que farão parte do próximo disco - previsto para 2006 e que trará inclusive a releitura da recente "Dura Na Queda" de Chico Buarque, gravada originalmente por Elza Soares em 2002 - "Anna Bela" e "Três" (ambas são fruto da parceria com Antonio Cícero). *] Marina sempre buscou estar um passo à frente dos demais com sua música e após mais de duas décadas de estrada, ouvindo seus discos, posso afirmar que seu índice de acertos é muito superior que o de equívocos. Por essas e outras, tomei a liberdade de indicar um dos mais importantes álbuns de sua discografia. Foi difícil, houve um empate técnico entre uns três discos, mas prevaleceu esse.
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Se der tenha esse cd:
"Virgem" - Marina Lima (1987)
Este disco - produzido pelo saxofonista Leo Gandelman - mantém Marina no topo e mostra o amadurecimento da cantora. Ela está cantando demais aqui. Ele vem logo após uma seqüência de ótimos trabalhos de estúdio, "Fullgás" (1984) e "Todas" (1985), e o registro ao vivo do consagrador show "Todas - Ao Vivo" (1986). A começar pela capa [* tão simples e tão bela *], "Virgem" desfila com classe e elegância impressionante suas 10 faixas, embora uma delas tenha gerado discussões exageradas a respeito de sua letra [* vá lá... no máximo "ousada" pra época... *], considerada inapropriada e vulgar. Falo de "Uma Noite e ½", hino daquele e de tantos outros verões. A primeira é "Pseudo Blues", letra primorosa de Jorge Salomão e música de Nico Rezende e vem seguida de um dos mais deliciosos rocks com assinatura de Marina/Cícero, "Zerando". É em "Virgem", que o Brasil ouve pela primeira vez, a composição de Dé, Bebel e Cazuza, "Preciso Dizer Que Te Amo" e há a "música título" que dispensa comentários. As duas últimas - ambas de autoria de Marina - são "Doce Espera", que tem uma linda introdução com direito a solo de sax do Leo Gandelman e "1º de Abril" que fecha o álbum completamente introspectiva fazendo reflexões sutis sobre um relacionamento em crise e aquela "mal contada estória de amor". Se você nunca teve o prazer de ouvir esse cd, saiba que todas as músicas "desconhecidas" são espetaculares. Corra atrás.
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