Na última sexta-feira estreou nos cinemas paulistas e cariocas "O Signo do Caos", o último trabalho de Rogério Sganzerla. Concluído em 2003, o filme esteve por dois anos à busca de distribuição e só agora entra em circuito - já não podendo contar com seu realizador como espectador, tendo Sganzerla falecido no início do ano passado. O lançamento coincide com a retrospectiva "Rogério Sganzerla - Cinema do Caos", a mostra mais completa já realizada de sua obra, no CCBB-RJ. Ver ou rever seus filmes a essa altura do campeonato leva a um pensamento pesaroso (mas que, no entanto, nos joga vorazmente na corrida por uma resposta): falta Sganzerla no cinema brasileiro contemporâneo.
1) "O ponto de partida de nossos filmes deve ser a instabilidade do cinema - como também da nossa sociedade, da nossa estética, dos nossos amores e do nosso sono (...) Nesse País tudo é possível, e por isso o filme pode explodir a qualquer momento" (trecho final do manifesto escrito por Sganzerla enquanto filmava "O Bandido da Luz Vermelha", em 1968).
A estabilidade falsa da ordem aparente e das leis de incentivo acolhedoras lança o cinema brasileiro atual no berço esplêndido da desobrigação total de relação com o agora. Filmes de regra, filmes de fórmula, ou mesmo filmes que não são filmes, só uns produtos de comprar em tela grande. Num país em que tudo é possível (e ainda é, mesmo que estejamos a quarenta anos de distância de 68), a opção pelo não-país: um cinema feito com dinheiro público brasileiro e que mira num público que não é brasileiro, um público que talvez nem exista, dada a imbecilidade das propostas desse cinema - veja-se o fracasso de "O Casamento de Romeu e Julieta", "Mais Uma Vez Amor", "Coisa de Mulher", "Dom", "A Cartomante", "A Dona da História". E se estamos sempre à beira da explosão, se esta é uma possibilidade real do nosso cinema (este cinema subdesenvolvido por consciência, instável pela própria natureza), fujamos do engodo que não produz nem faíscas. Se a família Barreto já não faz cinema, só o "comete", se Cacá Diegues devia ser empalhado, se o bom senso perde a luta contra as comédias românticas cariocas e os policiais paulistas, e se o suposto antídoto contra a pasmaceira é a farsa denuncista chamada Sérgio Bianchi, para onde correr?
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Foto: Divulgação
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II) "Quando a gente não pode fazer nada a gente avacalha e se esculhamba" (frase pronunciada pelo Bandido da Luz Vermelha).
Corramos para Sganzerla! Quando o Cinema Novo pedia por profundidade, quando a política fazia o cinema (e não o contrário), quando a ordem do dia era ser social, senhor Rogério atirava "O Bandido" no mundo, um personagem boçal, marginal convicto e incoerente, um filme sobre a impossibilidade de se fazer algo de "concreto" num país atingido em cheio pelo AI-5, propondo que a única ação possível em tempos de exceção é a auto-implosão. Filmes sem dinheiro (fundou com Julio Bressane uma produtora independente que em três meses fez seis longas; atualmente, sem dinheiro governamental não se tem nem idéia). Filmes de referências, Orson Welles (sempre ele), histórias em quadrinhos, faroeste com chanchada brasileira, Jô Soares como um magnata nazista ("A Mulher de Todos", 1969), Zé Bonitinho como a encarnação da brasilidade viável ("Sem Essa, Aranha", 1970), Jimmy Hendrix Terceiro Mundo ("O Abismo", 1977). E agora, quando o "cinema da retomada" se diverte com os sucessos efêmeros de bilheteria e a irrelevância cultural, "O Signo do Caos", o último grito contra a censura ideológica, um manifesto em preto e branco colorido pela liberdade criativa como remédio para o mal da ignorância. O auto-denominado "anti-filme", porque contrário ao que de "filme" se produz, mas nunca anti-cinema, oposto disso, cinema puro. E como recuperar a pureza?
III) "- Este filme não serve para ver.
- Se esse filme não serve para ver, então também a vida não serve para viver!" (diálogo de "O Signo do Caos").
Olhando para a vida. Os grandes filmes brasileiros dos últimos cinco anos são grandes por ainda reconhecerem o cinema como uma via poderosa de diálogo com o mundo: filme como vida. Não é à toa que três das (poucas) obras-primas recentes sejam documentários, "Edifício Master", de Eduardo Coutinho, "Nelson Freire", de João Moreira Salles, "O Prisioneiro da Grade de Ferro", de Paulo Sacramento - para entender o real é preciso ser íntimo dele. Intimidade alcançada também na ficção, por vias aparentemente opostas, mas que são apenas manifestações diversas da mesma força, "Lavoura Arcaica", de Luiz Fernando Carvalho, "Durval Discos", de Ana Muylaert, "O Homem Que Copiava", de Jorge Furtado, o elogio do artifício, o cinema dizendo que é cinema, que é fabricação, denunciando seus mecanismos, e se ligando visceralmente ao agora, às questões contemporâneas, justamente por essa postura aberta.
Fora o cinema de bons modos, fora o bom-mocismo estéril. Precisamos de filmes sujos, feios, péssimos - e livres. Isso dizia Sganzerla. E dele ainda precisamos muito.
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