Chega de mentiring




Geraldo Hasse


Muitos anos atrás, nos primórdios da ditadura militar, um jovem disposto a vencer na vida com o próprio talento chegou à grande cidade construída às margens do Tietê e saiu em busca de emprego. Não demorou muito, conseguiu uma entrevista na mais notória agência de publicidade do momento na paulicéia deslumbrada. Cedo - onze da manhã - lá estava ele com seu paletó puído na frente de um dos gênios da propaganda brasileira.

Conversaram cinco minutos e o dono da vaga pediu ao candidato que deixasse o punhado de crônicas que publicara em sua terra natal. Devolveria o material em poucos dias, quando então diria se ele levava ou não jeito para a coisa. Em caso positivo, fariam um contrato de experiência.

Na semana seguinte, em novo encontro, o candidato recebeu o pacote de volta e um elogio pelo que havia escrito, mas foi dispensado com a recomendação de procurar vaga em outro ramo, pois para trabalhar com marketing era preciso acreditar nos valores da sociedade de consumo etc e tal.

- Não desanime, você encontrará seu lugar - disse-lhe o cabeça da sigla.
Surpreso com a recusa, o migrante não teve coragem de pedir uma chance - como revisor que fosse. Agradeceu e saiu a zanzar pela avenida paulista. Foi quando se lembrou do breve diálogo da semana anterior. Dissera-lhe o sahib:
Quem não quiser o progresso nos termos vigentes, volte para o tempo do lampião de gás. Ou para a era da lamparina. Ou para as cavernas.

Dita com um sorriso, a afirmação do pai da propaganda soava simultaneamente como uma advertência e um conselho. Sem resposta, remoendo aquelas frases, o rapaz foi curtir seu desemprego e seu ócio na praça da república, onde os hippies e outros sonhadores pareciam acreditar que se poderia vencer na vida sem dizer sim ao marketing. Como milhões de brasileiros e terráqueos, camelou para chegar ao tempo de se aposentar com a consciência em paz.

Eis-los que se encontram os dois novamente na capital da república e a velha estória reaparece, pedindo um lugar ao sol. Testemunha do reencontro, não me resta alternativa senão reproduzir o que dizem. E como dizem. Sem palavras.
Mas fica no ar o eco de suas verdades.

- O marketing é tudo - diz o sábio mais velho.
- O marketing é tudo mentiring - diz o mais jovem.
- I love marketing.
- Detesto o marketing.

(Continua na próxima semana)

ghasse@th.com.br