Já fui, como tanta gente, uma daquelas crianças que queriam levar para casa todos os seres abandonados, desde pessoas até gatinhos e cachorrinhos encontrados pelas ruas. Esse perfil me levou, entre outras coisas, a abraçar profissionalmente duas profissões: o magistério, primeiro, e o jornalismo, depois. Quer dizer: pulei da frigideira e caí na brasa, pelo menos em termos de resultados financeiros.
Essa minha maneira de sentir as coisas também fez com que eu me engajasse na luta contra a ditadura, na juventude. Trabalhei com alfabetização de operários, colei muito panfleto pelas madrugadas violentas da Baixada Fluminense, onde então vivia, participei de um tanto de eventos clandestinos e escapei da luta armada porque o meu contato no grupo foi preso antes, com a mulher e um bebê de um mês. Ele terminaria condenado e enviado para o presídio da Ilha Grande, no Rio de Janeiro, de onde só sairia por ocasião da anistia.
É também por conta desse meu jeito, do qual um pouco devo à genética, outro tanto à vivência e, quero crer que algum fragmento também à espiritualidade, que aprendi a gostar de bons livros, de música de primeira qualidade, de andar com gente mais madura e perspicaz do que eu, de freqüentar lugares inteligentes - onde as pessoas possam falar e ser ouvidas. Cedo descobri que pessoas interessantes não andam em bandos e que a capacidade de fazer barulho é inversamente proporcional à inteligência.
Todas as minhas inclinações intelectuais naturais me conduzem a atividades e profissões que estão fora daquele contexto que o capitalismo selecionou para o olimpo dos destinados ao sucesso financeiro: aquelas que produzem bens de consumo, diferentemente do ramo de humanas, onde se produz, supostamente, sabedoria, coisa a que o tal do mercado, hoje alçado à categoria de deus, sempre devotou solene desprezo.
Faço literatura também, como profissão. Não importa, aqui, discutir se ruim, medíocre ou boa, mas num país de desnutridos, desdentados, analfabetos e desempregados só há duas coisas que poderiam empurrar um sujeito para um ramo desses: ou ele escreve porque é a única coisa capaz de mantê-lo vivo ou então trata-se de burrice lapidar, mesmo.
Aliás, antes que me esqueça, sou também compositor. Pronto. Um irrecuperável, dirá o leitor mais pragmático.
Quanto a mim, cada dia penso que a resposta está numa das duas hipóteses acima aventadas, o que me ajuda a compreender minha falta de compreensão em relação a mim mesmo. Viram que lucrativo?
E assim tenho visto pessoas debatendo-se cada qual com seus méritos e suas limitações ligadas a perfil pessoal e, conseqüentemente, profissional. Convivo diariamente com pessoas muitíssimo bem-sucedidas financeiramente que não demonstram, contudo, um mínimo de bom senso nem a capacidade de reconhecer no outro um semelhante e assim o tratar. E, mais importante: não vejo nessas pessoas mais evidências de felicidade do que naquelas que, como eu, escolheram (ou foram escolhidas por) profissões que dificilmente levam ao sucesso financeiro. Conheço pessoas que têm muito dinheiro e sei que sou muito mais feliz do que elas, de verdade verdadeira mesmo.
E agora, de repente, de novo dei de querer adotar umas crianças que vejo fazendo malabarismos com bolas, laranjas, malabares mesmo e até tochas de fogo, nos sinais de trânsito. Ou é verdade que "a vida vem em ondas, como o mar", conforme diz a letra da canção do Lulu Santos, ou estarei descobrindo os primeiros sintomas da esclerose, voltando mentalmente à infância.
Mas, como as profissões vão e vêm, renovando-se e até chocando a gente, às vezes, duro mesmo vai ser quanto eu tiver de explicar para as minhas crianças que pessoas são aquelas que ficam de biquíni lá no final da Praia de Camburi, tardão da noite. Renata Alves de Oliveira, minha amiga jornalista, já me sugeriu uma explicação, compadecida da minha agonia de pai: são moças mesmo, tiveram suas roupas roubadas e estão ali esperando o ônibus para voltar pra casa.
Pois é, cara Renata, mas e no dia seguinte, se eu tiver de passar por lá com as crianças outra vez?
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