Vitória (ES), edição de 14 de novembro de 2005

Mataram um pacifista:
Edgard Cabral Filho



Ednalva Andrade


Foi assassinado na porteira de seu sitio, nos arredores da sede do município de Conceição da Barra, a 280 Km de Vitória, na madrugada do último sábado, o funcionário aposentado da Companhia Vale do Rio Doce e que por um período assinou uma coluna em Século Diário, conhecido pela sua atividade pacifista, Edgard Cabral Filho(foto), de 63 anos.

Ele foi emboscado quando tentava acionar o controle remoto da porteira do seu sitio. Levou três tiros na cabeça, falecendo no local. Os motivos do crime ainda não estão elucidados, mas a vítima mantinha uma posição de confronto com dois irmãos na partilha da herança do pai, que também chamava-se Edgard Cabral(morto).

O pai havia sido prefeito de Conceição da Barra e por mais de 50 anos manteve na sede do município o principal estabelecimento comercial e era proprietário de uma fazenda na região de Itaúnas. As divergências entre os irmãos também resultou na morte de outro irmão, o engenheiro Afrânio Cabral, que foi também assassinado. Junto com Edgard, Afrânio era contrário ao comportamento dos irmãos que controlavam e continuam controlando o patrimônio deixado pelo pai.

Depois da morte do irmão, Edgard continuou sustentando a disputa judicial para afastar o inventariante colocado pelos irmãos e recusou-se a vender a sua parte na fazenda. Por causa dessa recusa ele foi agredido em pleno centro da cidade de Conceição da Barra pelo filho do novo proprietário da fazenda. Ele também pressionava à polícia para prender os assassinos do seu irmão Afrânio, que, como ele, que levou três tiros na cabeça de pistola 380, também foi morto de forma bárbara: a paulada por prestadores de serviço da fazenda da família.

As primeiras impressões registradas pela polícia é que a execução do Edgard foi feita por profissionais. Desde que retornou a Conceição da Barra, após à sua aposentadoria na Companhia Vale do Rio Doce, Edgard passou a cuidar de um sitio que destinou a fruticultura e era muito solicitado pela sua condição profissional e cultural. Edgard era um letrado e com senso de justiça muito grande. O que tornava um incômodo para as autoridades do município, principalmente judiciais, na defesa dos menos favorecidos e injustiçados.

Edgard era filiado ao Partido dos Trabalhadores e era um internauta e costumava dizer aos amigos e familiares que tudo que estava tocando estava dentro do seu computador(por cautela o seu computador já está em poder das filhas). Ultimamente, ele havia adquirido uma lancha para o seu lazer. Ele era separado da esposa e deixa três filhas. Foi sepultado, no último domingo, no cemitério da Paz, na Serra, com o acompanhamento da ex-esposa e duas filhas( a terceira filha se encontra fazendo pós-graduação nos Estados Unidos). Dos quatro irmãos ainda vivos, compareceu apenas a sua única irmã. O seu sepultamento também foi presenciado por inúmeros amigos muitos dos quais e indignados com a morte violenta do amigo, que, em vida, participou sempre de campanhas contra à violência.