A prática mostra que o sistema representativo é uma ilusão. O cidadão eleito
para ocupar um cargo público não representa ninguém, senão seus próprios
interesses. Ele cede aqui e ali às pressões dos grupos organizados, mas sua
finalidade última é preservar suas próprias idéias e ideais.
Vigora no imaginário popular, estimulado por uma imprensa tendenciosa que
lucra com a ignorância, a fantasia de o político eleito representa uma
determinada coletividade. Mas isso não passa da mais pura imaginação, de um
argumento vazio e absolutamente divorciado da realidade.
Não é preciso pensar muito para perceber o quanto falacioso é o argumento
que associa o eleito ao seu eleitor. Primeiro porque a massa votante não
sabe sequer qual é a competência da autoridade eleita. São comuns, por
exemplo, os vereadores que se elegem com a promessa de alterar a legislação
trabalhista (matéria federal); os deputados estaduais que se elegem
prometendo alterar o Poder Judiciário (matéria de iniciativa do próprio
Judiciário) ou deputados federais que juram que sua plataforma é melhorar a
organização do serviço público (iniciativa do Poder Executivo) etc. Segundo
porque, uma vez eleito, o representante não vai discutir somente o que
prometeu. Muito pelo contrário, ele pode até prometer alguma coisa séria,
mas no exercício do Poder terá que enfrentar uma série de discussões que não
tem relação alguma com seu "projeto" político. E vai discutir sem o "aval"
do eleitor.
Na prática, desconheço exceções, o poder atrai por ser poder. Os devaneios e
argumentos utilizados para atrair o eleitorado não passam da mais pura
propaganda, e sabemos que a propaganda simplifica para ser atraente.
O político pode até acreditar que representa alguém, mas estará mentindo
para si mesmo. Ou é tolo ou age com profunda má-fé. Quem ocupa o poder só
pensa em si mesmo, só representa a si mesmo e só beneficia a si mesmo.
Qualquer benefício para os outros é indireto, uma concessão que o poder faz
para perpetuar-se.
Por isso, as eleições são esse fiasco. Os governantes se perpetuam no poder,
como se o sistema ainda fosse feudal ou monárquico. A diferença entre a
nobreza e os políticos é que existe uma mobilidade um pouco maior e a
desculpa deixou de ser o "sangue azul" para ser a "legitimidade do voto".
Mas na prática, é tudo exatamente a mesma coisa. Muda o argumento, fica a
prática.
Uma vez eleito, o cidadão passa a ser uma espécie de iluminado, recebendo
uma fábula dos cofres públicos e a ser detentor de um séquito de servidores,
prontos para fazer sua vontade. A vontade de um passa a ser a vontade de
muitos, mesmo que esses muitos sequer saibam o que está acontecendo.
A eleição, na verdade, é simplesmente um pretexto para que não presta para
resolver problema algum. O povo estará sempre em segundo plano. Longe de
resolver qualquer problema, a eleição lança uma cortina de fumaça sobre os
problemas reais e a forma de resolvê-los. Some-se essa ilusão à
possibilidade de reeleição e temos um sistema injusto e perpétuo.
Outra ilusão é achar que uma grande quantidade de representantes será melhor
para assegurar uma representação mais equilibrada. Essa é outra armadilha
tão perniciosa quanto a eleição. A quantidade de representantes, associada a
reeleição, simplesmente impede a mudança de mentalidade, fazendo com que os
novatos encontrem no "novo emprego" um espírito de corpo (ou espírito de
porco), com o qual irão acostumar e aprender a trabalhar.
Dentro de um parlamento, discute-se tudo, mas o interesse popular não passa
de uma luz tênue que sequer chega a afetar a retina dos envolvidos. Somente
quando amplificada pela imprensa - que também fica nas mãos de uns poucos -
é que incomoda um pouco a realeza.
Não existe fórmula mágica para resolver problemas sociais. O problema da
sociedade é o problema do homem. Mas pensar que o sufrágio vai ajudar a
resolver algum problema é uma ilusão tão tosca que deveria ser abandonada.
Seria melhor parar de gastar dinheiro com eleições e adotar o sorteio: pelo
menos iria acabar com a fantasia e o cidadão, desconfiando do detentor do
poder, passaria a percebê-lo como um empregado. O direito é uma instância da
realidade, e não pode se contentar com fábulas.
Pode parecer um devaneio, porque quebra um paradigma, mas um sorteio bem
programado acabaria ainda com outra injustiça da eleição: o domínio do poder
econômico. Pois está mais do que evidente que só se elege quem tem dinheiro
ou está mancomunado com o quem tem. Quanto custa uma eleição? O resultado é
que sempre a mesma elite controla o Poder. E a democracia não passa de uma
falácia.
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