Questão de Direito - A ilusão da representatividade




Luís Eduardo Nogueira Moreira


A prática mostra que o sistema representativo é uma ilusão. O cidadão eleito para ocupar um cargo público não representa ninguém, senão seus próprios interesses. Ele cede aqui e ali às pressões dos grupos organizados, mas sua finalidade última é preservar suas próprias idéias e ideais.

Vigora no imaginário popular, estimulado por uma imprensa tendenciosa que lucra com a ignorância, a fantasia de o político eleito representa uma determinada coletividade. Mas isso não passa da mais pura imaginação, de um argumento vazio e absolutamente divorciado da realidade.

Não é preciso pensar muito para perceber o quanto falacioso é o argumento que associa o eleito ao seu eleitor. Primeiro porque a massa votante não sabe sequer qual é a competência da autoridade eleita. São comuns, por exemplo, os vereadores que se elegem com a promessa de alterar a legislação trabalhista (matéria federal); os deputados estaduais que se elegem prometendo alterar o Poder Judiciário (matéria de iniciativa do próprio Judiciário) ou deputados federais que juram que sua plataforma é melhorar a organização do serviço público (iniciativa do Poder Executivo) etc. Segundo porque, uma vez eleito, o representante não vai discutir somente o que prometeu. Muito pelo contrário, ele pode até prometer alguma coisa séria, mas no exercício do Poder terá que enfrentar uma série de discussões que não tem relação alguma com seu "projeto" político. E vai discutir sem o "aval" do eleitor.

Na prática, desconheço exceções, o poder atrai por ser poder. Os devaneios e argumentos utilizados para atrair o eleitorado não passam da mais pura propaganda, e sabemos que a propaganda simplifica para ser atraente.

O político pode até acreditar que representa alguém, mas estará mentindo para si mesmo. Ou é tolo ou age com profunda má-fé. Quem ocupa o poder só pensa em si mesmo, só representa a si mesmo e só beneficia a si mesmo. Qualquer benefício para os outros é indireto, uma concessão que o poder faz para perpetuar-se.

Por isso, as eleições são esse fiasco. Os governantes se perpetuam no poder, como se o sistema ainda fosse feudal ou monárquico. A diferença entre a nobreza e os políticos é que existe uma mobilidade um pouco maior e a desculpa deixou de ser o "sangue azul" para ser a "legitimidade do voto". Mas na prática, é tudo exatamente a mesma coisa. Muda o argumento, fica a prática.

Uma vez eleito, o cidadão passa a ser uma espécie de iluminado, recebendo uma fábula dos cofres públicos e a ser detentor de um séquito de servidores, prontos para fazer sua vontade. A vontade de um passa a ser a vontade de muitos, mesmo que esses muitos sequer saibam o que está acontecendo.

A eleição, na verdade, é simplesmente um pretexto para que não presta para resolver problema algum. O povo estará sempre em segundo plano. Longe de resolver qualquer problema, a eleição lança uma cortina de fumaça sobre os problemas reais e a forma de resolvê-los. Some-se essa ilusão à possibilidade de reeleição e temos um sistema injusto e perpétuo.

Outra ilusão é achar que uma grande quantidade de representantes será melhor para assegurar uma representação mais equilibrada. Essa é outra armadilha tão perniciosa quanto a eleição. A quantidade de representantes, associada a reeleição, simplesmente impede a mudança de mentalidade, fazendo com que os novatos encontrem no "novo emprego" um espírito de corpo (ou espírito de porco), com o qual irão acostumar e aprender a trabalhar.

Dentro de um parlamento, discute-se tudo, mas o interesse popular não passa de uma luz tênue que sequer chega a afetar a retina dos envolvidos. Somente quando amplificada pela imprensa - que também fica nas mãos de uns poucos - é que incomoda um pouco a realeza.

Não existe fórmula mágica para resolver problemas sociais. O problema da sociedade é o problema do homem. Mas pensar que o sufrágio vai ajudar a resolver algum problema é uma ilusão tão tosca que deveria ser abandonada.

Seria melhor parar de gastar dinheiro com eleições e adotar o sorteio: pelo menos iria acabar com a fantasia e o cidadão, desconfiando do detentor do poder, passaria a percebê-lo como um empregado. O direito é uma instância da realidade, e não pode se contentar com fábulas.

Pode parecer um devaneio, porque quebra um paradigma, mas um sorteio bem programado acabaria ainda com outra injustiça da eleição: o domínio do poder econômico. Pois está mais do que evidente que só se elege quem tem dinheiro ou está mancomunado com o quem tem. Quanto custa uma eleição? O resultado é que sempre a mesma elite controla o Poder. E a democracia não passa de uma falácia.

E-mail do autor: luiseduardonog@hotmail.com