Vitória (ES), edição de 22 de novembro de 2005    
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"tombem a poeira!"
ou
A Paródia do Patrimônio "Histérico"



Heraldo Ferreira
Atualizado toda quinta-feira, às 16 horas


Parafraseando o Jorge Ben Jor (que para mim será sempre Jorge Ben): "Deu no Século Diário"! Uma reportagem da edição de quinta-feira passada deste jornal anunciava que "R$ 108 milhões, verba do Bird para salvar o Centro da decadência". Apesar de não gostar do título, o conteúdo me trouxe duas satisfações e algumas observações que quero dividir com os meus dois únicos leitores (que, espero, desta vez se manifestem).

Nasci e cresci no Centro, na época em que ele começava a passar por um processo de transformação (o sentido "transformação" vem em contraponto ao sentido "decadência", que eu ojerizo). Suas conseqüências e efeitos influenciaram e influenciam toda minha vida, desde a infância e adolescência, passando pela época da Universidade, até a minha atuação profissional. Longe de mim o saudosismo, acho anacrônica e engessante esta visão mítica, de coisa intocável e arqueológica, que se apregoa em nome do Patrimônio Histérico, quer dizer, Histórico. Gosto de pensar nele como algo vivo, tão vivo, que como todo organismo, se transforma continuamente, sendo sempre suporte para os imprevistos da vida e do cotidiano ao guardar, ainda, aspectos que primo na Arquitetura e no Urbanismo, como o espaço coletivo, a diversidade, a democracia.

Por isso me dá paúra imaginar o Centro de Vitória como um parque de diversões (como Salvador) ou um museu (como Roma). Não que não tenha caráter histórico, como um museu a céu aberto, ou não possa ser utilizado como área de lazer, mas não é só isso. Também existem pessoas que moram e que trabalham por lá. A idéia de pegar a sede de uma instituição pública e usar como um centro cultural é uma bobagem. Melhor se fizessem o centro cultural em outro edifício e deixassem a instituição pública em paz. Ou melhor, por que ao invés de centro cultural não pensam em criar uma sede decente para a nossa Orquestra Filarmônica ou para o nosso Corpo de Balé (será que isso existe em Vitória?). A idéia de se transformar o Centro exclusivamente num bairro cultural e de lazer ou residencial, por mais que a intenção seja boa, é estapafúrdia.

Minha primeira satisfação: o projeto incentiva a moradia e contempla a diversidade de usos. Habitação, comércio, serviços, cultura e lazer. Uma idéia aparentemente simples e ao mesmo tempo revolucionária que poderia se espalhar pelos outros bairros e ser o ponto de partida de uma nova consciência, mais igualitária e mais humana.

Nunca gostei de expressões como "revitalização" ou "revalorização". A primeira, dá a idéia de que estava morto e deve ser revivido, já a segunda, parece que não têm mais valor. Nem uma, nem outra, prefiro a idéia de "retomada". No sentido de que um conjunto urbano é sempre uma continuidade e que mesmo após algum tempo em hibernação esta continuidade deve ser retomada. Não de se fazer o mesmo ou da mesma forma que antes, mas de se reconhecer as demandas atuais desta nova cidade industrializada e informatizada sem se esquecer da memória, ou seja, aliar um crescimento quantitativo sem que se comprometa o desenvolvimento qualitativo.

Desde sempre, os prefeitos de Vitória acreditavam que um projeto de "retomada" do Centro significava maquiar as fachadas com uma pintura de segunda que após a primeira chuva já mostrava sua fragilidade. Aparentemente este projeto quer ser mais, quer realmente valorizar a imagem do Centro, seus signos e valores. Talvez pela presença do arquiteto Kleber Perini Frizzera, atual Secretário Municipal de Desenvolvimento da Cidade (Sedec), que, desde a época em que era professor do Curso de Arquitetura e Urbanismo da UFES, sempre teve uma visão crítica das antigas políticas urbanas em relação ao Centro.

Satisfação número dois: O projeto se fundamenta na valorização da imagem urbana do Centro através da reorganização das publicidades das fachadas e da substituição das fiações aéreas pelas subterrâneas e a recuperação do espaço público através das intervenções na Vila Rubim, na Praça Costa Pereira, no Parque Moscoso, no Mercado da Capixaba, entre outras.

Após uma certa euforia com as minhas satisfações deixo a vocês minhas observações:

- O Centro não é só destino, é também passagem, ou seja, é parte de uma área bem maior que seus limites, a área metropolitana. Não se tocou no assunto "sistema viário";

- Falando em viário, também não vi menção ao transporte público de massa. Num plano desta magnitude, o transporte público é fundamental. Ônibus, lotações, barcas, VLTs, etc. Temos que promover as conexões necessárias para que se diminua o uso do automóvel como meio principal de acesso ao Centro;

-Deve-se criar incentivos financeiros e fiscais para os futuros (e atuais) moradores e empresários visando a permanência e a efetividade desta "retomada";

A atenção a estas e outras questões será determinante para que, desta vez, o Centro nunca mais saia do centro das atenções.

Clique aqui e leia a matéria "R$ 108 milhões, verba do Bird para salvar o Centro da decadência"

E-mails para o colunista: acolunadoarquiteto@hotmail.com


 

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