Não há como esconder que "Marcas da Violência" (em cartaz no Estado desde o dia 11) seja um filme de grande estúdio americano. A trama central do pacato pai de família do interior que tem a vida revirada quando seu passado criminoso vem à tona é como aqueles quebra-cabeças tipicamente hollywoodianos. À aparente desorganização e impossibilidade inicial se sucedem as jogadas manjadas que levam a um desfecho onde tudo parece se encaixar. Coube, no entanto, ao cineasta canadense David Cronenberg a condução desse jogo, e ainda que tenhamos a impressão de que o quebra-cabeça está completo, ao final do filme percebe-se que várias peças sobraram. Mas o trabalho de Cronenberg já está terminado, os créditos sobem a tela e as luzes se acendem. Fica nas mãos do espectador decidir o que fazer com aqueles pedaços de história - e aqui está o que diferencia "Marcas da Violência" da massa acéfala de enlatados americanos: este é um filme que exige postura ativa do público na construção de seus significados.
Isto porque, diante de um tema tão polêmico como a violência no mundo contemporâneo, Cronenberg opta por mostrar os sintomas, e não se precipita em simplesmente sair distribuindo diagnósticos. "Marcas da Violência", nesse sentido, guarda muitas semelhanças com "Elefante", a obra-prima de Gus Van Sant sobre o massacre cometido por adolescentes americanos numa escola secundária. Ambos os filmes se negam a dar respostas generalizadas sobre a "natureza violenta" do ser humano, ou mesmo sobre uma suposta inclinação sanguinária dos Estados Unidos e de seu povo. O que os filmes fazem é despir a violência de seu caráter estatístico e procurar nos casos particulares personagens cujas trajetórias possam mostrar ao máximo as diversas matizes envolvidas nesse processo.
Quando reage a um assalto em sua lanchonete matando com precisão dois criminosos, o protagonista Tom Stall é içado à categoria de herói nacional. Aplaudido pela comunidade e exibido à exaustão nos telejornais, falta a Stall, e a todos os que lhe deram honras, a consciência primária de que, mesmo que em legítima defesa e mesmo que os criminosos mortos sejam atestadamente "maus" (como prova a incrível seqüência inicial), o novo herói é um assassino. Que efeitos são provocados naqueles envolvidos numa situação de violência? Esta talvez seja a grande questão do filme, uma pergunta cuja resposta não interessa a Cronenberg fornecer: o ato violento inicial desencadeia uma série de outros momentos igualmente violentos, e a reflexão dos personagens (em especial a esposa e o filho mais velho do protagonista) sobre os novos termos de suas existências, agora impregnadas pelo crime, sempre é atropelada pela seqüência dos acontecimentos. Incapazes de pensar suas condições, os personagens vão reagindo incertamente, ora repudiando a violência, ora tomando parte dela.
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Foto: Divulgação
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Mas não há residência melhor para essa ambigüidade do que os olhos de Viggo Mortensen. Dividido entre o pacífico dono de lanchonete em que se transformou e o matador cruel que um dia foi e que seu ato heróico traz de volta à cena, é no olhar do ator australiano que Cronenberg se fia. As duas identidades do protagonista vão se misturando em sua expressão ao longo da história - uma dúvida do próprio personagem que o diretor encampa como dúvida de todo o filme. E a última imagem de "Marcas da Violência" é justamente a mais incômoda peça a sobrar deste quebra-cabeça: os mesmos olhos azuis que encheram a tela por toda a projeção agora choram, e uma hora e meia depois de acompanhar a trajetória deste sujeito, é impossível dizer com certeza porquê chora, ou mesmo quem chora, se o pai de família ou o assassino. Que cada espectador compare o filme às suas convicções pessoais e tire daí alguma (ou nenhuma) conclusão. À David Cronenberg já bastou fazer um dos melhores filmes do ano.
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