Vitória (ES), edição de 25 de novembro de 2005    
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Rappa: Na Palma da Mão
"É com ervas que me curo, caso algum tombo me esfole" - Itamar Assumpção



Oscar Vasconcelos
Atualizado toda terça-feira, às 16 horas


  
Foto: Oscar Vasconcelos
  
Em uma noite que a cidade do Rio de Janeiro abrigava, em diferentes locais, shows do Kid Abelha, Los Hermanos e ainda um festival - que teve ingressos esgotados - com 40 atrações patrocinado por uma cervejaria, o Rappa conseguiu lotar o Claro Hall para mostrar seu show Acústico MTV. Se fiquei impressionado? Muito. Sabem por que? Porque o Rappa é uma das bandas que mais assisti ao vivo e, senti que na turnê anterior - apesar de continuar desenvolvendo bem o trabalho proposto, a satisfação, como fã, foi menor -, havia um pouco de força perdida.

Assim como no recente show do Lulu Santos, colocaram mesas em frente ao palco e a pista começava atrás delas. A diferença, inesperada, é que no momento em que as cortinas se abriram, não houve quem permanecesse sentado nas cadeiras. Mesmo porque, como muitos levantaram, não daria para ver o palco sem estar de pé. Em menos de um minuto ficou claro que as "ciências de baixa de tecnologia" podem fazer um barulhinho muito do bom. Isso sem falar no impacto do cenário! Uma espécie de estação ferroviária com direito a banquinho de ripas de madeira, relojão para não perder a hora, um trem passando ao fundo - onde foram projetados diversos grafites no decorrer da apresentação - e o gramofone usado pelo DJ Negralha nada tem de qualquer estação, mas faz uma presença que transborda estilo.

O roteiro do show não fugiu quase em nada do que foi gravado para o DVD, mesma seqüência de músicas. Não tivemos Maria Rita, mas ela foi lembrada e exaltada por Falcão, e tivemos a participação do Siba em "Homem Amarelo", "Mitologia Gerimum" e em "Cristo e Oxalá". As "surpresas" foram "Minha Alma" e "Tribunal de Rua" em um rápido set para "saudosistas" entre "O Que Sobrou do Céu" e "Rodo Cotidiano". Tudo entremeado por discursos sobre preconceito, atitude, respeito, a importância da música e a consciência do poder e das portas abertas por ela. A presença de palco do Falcão é um dos grandes trunfos da banda. Ele não ficou muito tempo sentado, só em canções que, para tocar o violão, de certa forma, exigiam isso. Não há como negar que a energia do cara contagia.

Para os apaixonados por futebol, no meio de "Eu Quero Ver Gol" surgiu uma discussão, em tom de brincadeira, puxada por Falcão. O vocalista havia assistido o espetacular jogo entre Real Madrid e Barcelona naquela tarde, e resolveu perguntar o que a galera achava de certos jogadores. A regra era clara, os que não fossem "aprovados" receberiam o silêncio e os que merecessem deveriam ser ovacionados. Começou com o zagueiro Lúcio, ignorado por todos, e foi passando por vários outros. Os três que provocaram maior reação foram Ronaldinho Gaúcho - "o moleque joga muita bola, na seleção ainda não mostrou todo esse futebol, mas é craque" disse Falcão -, Romário - "esse cara é foda, passou pelo Flamengo, Fluminense, Vasco e Seleção e só deu alegria, tem o meu respeito! Joga muito!" [* Mesmo sendo botafoguense "extremista", estou na torcida para o Baixinho levar a artilharia do campeonato. E falta pouco. *] e Ronaldo - "eu sou do Engenho Novo, ele é de Bento Ribeiro, está tudo em casa, o cara já jogou muito, mas está pesado... não adianta ser Fenômeno tem que jogar bola!" - e a galera concordou".
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Chegou meu cd DMB LIVE TRAX 4, com toda demora, todas as taxas, conversões de moeda, as mesmas diferentes e outras faixas, versões, sax, violino, baixo e violão, bateria carregada - dizem que Carter tem 8 braços, quem ouve não contesta e ainda se arrepia. Set list tenso demais. Ainda falarei dela aqui, a Dave Matthews Band, sou parcial, é a "minha" banda, meu vício [* "um vício só pra mim é pura cascata" - Cazuza *], e hoje em dia ninguém faz música como eles. O show em questão é o primeiro da turnê de lançamento do álbum Crash (1996), e faz parte de uma série que resgata shows históricos da DMB. Esse é apenas mais um deles.
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Vem aí um belo caça-níquel fantasiado de homenagem à Cássia Eller. Mais uma coletânea, com lançamento programado para a semana de aniversário da cantora (10 de dezembro), agora só com músicas do Nando Reis cantadas por ela. Uma covardia com a obra deixada, na minha opinião. Coletânea não acrescenta nada e ainda diminui a importância dos álbuns de carreira. Cássia tem registros que realmente interessariam aos fãs e não são lançados, como por exemplo, o CD de blues gravado com Victor Biglione no início da década de 90 - álbum pronto! - ou o registro do show "Luz do Solo" em que ela se apresentou apenas com seu violão - no então ATL Hall em 2001, antes de iniciar a turnê do Acústico - cantando músicas não necessariamente incluídas em seus discos, mas escolhidas de acordo com seu gosto pessoal para aquelas duas noites. É triste.
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Foto: Divulgação
  
Dica de CD
"A Tábua de Esmeraldas" (1974), de Jorge Ben


Como diz a letra de "Lado B, Lado A" do Rappa, "No bê-a-bá da chapa quente eu sou mais o Jorge Ben, tocando bem alto no meu walkman...". E para não perder o costume, indico hoje aquele que para mim é o melhor disco do Ben Jor, "A Tábua de Esmeraldas" (1974). Disco que não se pula faixa. São 12 faixas assinadas unicamente por ele e algumas muito influenciadas pela leitura da obra de Hermes Trismegistos, como é o caso de "Os Alquimistas Estão Chegando", "Errare Humanun Est" e "Hermes Trismegistos e Sua Celeste Tábua de Esmeralda". Há um astral muito bom no disco, palavras e frases que evocam coisas positivas através de um discurso bem descontraído em músicas como "Eu Vou Torcer", "Magnólia" e "Menina Mulher da Pele Preta" e "Minha Teimosia é Uma Arma pra Te Conquistar". A veia negra pulsa forte na fantástica "Zumbi", homenagem ao líder negro, e ainda uma oportunidade de reflexão sobre a situação daqueles que foram submetidos ao terror da escravidão, e também na "meio gospel", luxuosamente amparada por um coral, "Brother" ("Jesus Christ is my Lord, Jesus Christ is my friend"), ambas com a batida contagiante de violão tão peculiar à Jorge Ben. O som é tão alto astral que mesmo um lamento como "Cinco Minutos" pode ser divertido. Sem dúvida é um marco fundamental na música brasileira.

E-mails para o colunista: conexao021@gmail.com


 

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