Vitória (ES), edição de 29 de novembro de 2005    
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a instalação do caos
ou
Será Que a Inteligência Vai Mesmo Vencer a Estupidez?



Heraldo Ferreira
Atualizado toda quinta-feira, às 16 horas


Na última segunda-feira (dia 21), no Plenário da Câmara dos Vereadores de Vitória, aconteceu a primeira de uma série de audiências públicas sobre o empreendimento "Nova Cidade", convocada e presidida pelo vereador Luciano Rezende a pedido da Associação de Moradores da Ilha do Boi.

Mobilizações e manifestações dessa ordem sempre me trazem sensações ambíguas. Prazer e dor se misturam dentro de mim ao ver essa algazarra. É batata: as pessoas só se mexem quando a instalação do caos é iminente. Disse e repito: onde estavam todas estas pessoas "tão preocupadas" quando o PDU vigente foi aprovado há dez anos atrás?! Por que nesta cidade (e no Brasil) sempre temos que remediar os problemas ao invés de preveni-los?! Por que antes de reclamarmos de como vai ficar o trânsito, não lutamos pela qualidade e diversificação do transporte público de massa e largamos nossos automóveis nas garagens?! Não podemos continuar com esta idéia de que tudo deve ser subordinado ao automóvel como único meio de transporte e que a cidade deve ser uma conseqüência direta disto.

Bem, de qualquer forma, apesar de alguns atrasos e demoras, tudo transcorreu tranqüilamente. A casa estava cheia, em torno de 120 participantes: pouquíssimas pessoas sensatas (acredito que era uma dessas) e uma maioria de extremistas defendendo seus pontos de vistas através dos mais contraditórios argumentos. Nada de novo no front. Os principais atores dessa tragicomédia foram, de um lado, os empreendedores com seus assessores técnicos, todos muito surpresos com a celeuma, jurando que o empreendimento é "muito bom" (para quem???) e "diferenciado" (só se for do entorno...), do outro, os moradores das Ilhas e da Enseada do Suá, defendendo o seu status quo de "guetos urbanos" através de uma visão pseudo-ambientalista, e no meio, a Prefeitura de Vitória, com a sua, já clássica, visão tacanha e abstrata de preservação das visuais (???). Não houve sequer uma menção sobre a falta de área para equipamentos públicos comunitários ou sobre o fato de que o projeto era um equívoco do ponto de vista arquitetônico e urbanístico ao reproduzir modelos e formas de uma sociedade (e cidade) individualista e consumista.

As imagens do empreendimento, apresentadas pelo arquiteto responsável, me fizeram lembrar do artigo "Arquiteturas Silenciosas", do arquiteto e professor da UFRGS Edson da Cunha Mahfuz, publicado na revista AU (n° 137 - agosto/05). Através deste texto o autor nos faz perceber o surgimento de uma arquitetura "interessante", cuja principal característica é a busca por apelo visual através de edifícios onde a forma não tem qualquer lógica visual e não tem nada a ver com os lugares onde se inserem. Infelizmente, segundo ele, a maioria da produção brasileira atual se encaixa nessa categoria. A conseqüência direta desta arquitetura é o caráter culturalmente irrelevante e a exacerbação do caos visual. Mahfuz ressalta ainda que não devemos confundir criatividade ou originalidade com malabarismos formais gerando complicação e excesso ao lembrar de Mies van der Rohe, célebre arquiteto criador da expressão "Less is More" (menos é mais), que disse que "o objetivo do arquiteto não é fazer arquitetura interessante, mas sim BOA (destaque meu) arquitetura".

Ao perceber que a discussão estava passando longe da principal questão - o melhor para a cidade, a cidade para todos - venci o medo e a timidez e me pronunciei. Pelo que lembro (apesar da vitória sobre o medo e a timidez, restou o nervosismo) defendi o espaço público, ao mostrar que, apesar do aparente maniqueísmo, a discussão deveria ser mais complexa. Não poupando ninguém, meti o dedo na ferida ao expor que tanto os empreendedores quanto os moradores tinham visões equivocadas, parciais e tendenciosas e que era preciso olhar o problema de outro ângulo, com uma visão mais abrangente e menos egoísta. Além disso, fiz questão de frisar que este empreendimento não tem nada de "diferenciado" sendo apenas a repetição de uma tipologia elitista, pobre urbanisticamente, excludente, de tendência "guetificadora" onde o espaço público foi completamente esquecido.

Sou a favor da ocupação daquela área! Faz parte da cidade e não dá para negar isso! Só não devemos aceitar que o projeto seja fruto de uma subordinação cega e passiva aos valores de mercado e de um culto exagerado ao individualismo. Sou a favor da implantação de torres no local! Ainda não sei quantas, nem de quantos andares! Sou contra este empreendimento, menos pelo gabarito e densificação e mais pela sua implantação e caos visual gerado pelo exagero de formas, dobras, ressaltos, cores, materiais e texturas do seu conjunto de edifícios. Acho que o empreendimento é narcisista, irresponsável e míope, cuja visão alcança apenas o limite do lote e que cada edifício é fruto de uma lógica individual dissociada dos seus pares e do espaço urbano coletivo. A variedade, ao contrário do que este empreendimento prega, deve ser buscada no conjunto urbano e não no edifício isolado.

O presidente do Grupo Buaiz, uma das empresas envolvidas no empreendimento, o empresário Américo Buaiz Filho, em uma de suas declarações deu a entender que ninguém deu sequer uma sugestão. Acho que ele devia estar muito ocupado dando declarações para imprensa na tentativa de vender o seu peixe que não ouviu direito tudo o que foi falado. De qualquer forma, em resposta, proponho que organizemos uma comissão multidisciplinar independente para estudar o caso e apresentar um plano de massa com sugestões e diretrizes visando uma ocupação mais criativa e menos aviltante.

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