Vitória (ES), edição de 24 de outubro de 2005    
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O herói possível
O cinema à procura de sua época em "O Jardineiro Fiel"



Rodrigo de Oliveira



Como responder artisticamente às transformações de um mundo em ebulição? Cada vez mais as respostas clássicas a este desafio se provam gastas, e se torna urgente um novo tipo de compreensão e discussão da realidade que use idéias e instrumentos atuais. Se o que restava das certezas do século XX foi derrubado junto com as torres gêmeas e definitivamente jogado no lixo com a invasão do Iraque, a necessidade de se descobrir sob quais bases se construirá esse novo (e temível) mundo joga no colo da arte uma tarefa e tanto. O lançamento de "O Jardineiro Fiel" (em cartaz no Estado desde o dia 14), dá uma luz sobre qual pode ser a contribuição do cinema nesse sentido.

  
Foto: Divulgação
  
Pelos quarenta minutos iniciais de "O Jardineiro Fiel", pode-se ter a impressão que a protagonista do filme é Tessa (Rachel Weisz), a mulher de um diplomata inglês que tem um rompante de ativista dos direitos humanos quando passa a viver no Quênia com o marido. Este é o grau da pequenez de Justin Quayle (Ralph Fiennes), o marido em questão e real protagonista da história: um profissional medíocre, muito mais conhecido pelo seu talento na jardinagem do que por seu trabalho nas relações exteriores, um sujeito simplório, fraco. Quando Tessa é assassinada brutalmente e Justin precisa ir a um necrotério reconhecer o corpo carbonizado de sua esposa, seu olhar não é o do justiceiro com sede de vingança. Diante da tragédia sua fraqueza é ainda mais patente. Se é a esse personagem que caberá, pela próxima uma hora e meia, desmantelar um grande complô internacional que envolve governos e indústrias farmacêuticas num esquema de testes ilegais de novas drogas em humanos, a ele não pode ser atribuída a pecha tradicional de "herói".

É a própria idéia de heroísmo que é questionada neste primeiro filme estrangeiro dirigido por Fernando Meirelles. Por mais que "O Jardineiro Fiel" tenha sido gerado num ambiente sujeito a maniqueísmos (não só pelo financiamento de um grande estúdio americano, mas por ser uma adaptação de um livro de John Le Carré, escritor de thrillers de espionagem), o diretor parece brigar o tempo todo para não cair no simplismo de uma oposição entre o bem e o mal. Nesta última categoria, destinada às indústrias farmacêuticas e a seus comparsas chefes de estado, o esforço não surte tanto efeito, e talvez este seja um resultado consciente. A prática de capitalizar em cima da tragédia social em que se transformou o continente africano é corrente e conhecida, e a vilania embutida em todos os personagens desta parte da trama justifica-se por serem eles os responsáveis por centenas de mortes e não por serem simplesmente "maus por natureza".

Mas se a maldade ainda é passível de ser identificada, o bem passa a ser uma categoria totalmente difusa e complexa. Com a morte da mulher, o diplomata entra em contato com um mundo que vai além de seus jardins bem cuidados, um mundo no qual Tessa estava totalmente imersa, mas ao qual ele, pequeno que é, nunca pode (ou mesmo quis) ter acesso: quando embarca em sua jornada supostamente heróica é, acima de tudo, atrás da grandeza de Tessa que Justin vai. A denúncia do esquema do uso de cobaias humanas nos testes farmacêuticos é, antes de um objetivo nobre, uma conseqüência da busca pessoal de um marido que, por sua própria fraqueza, foi incapaz de perceber o tamanho de sua mulher em vida. Não é uma jornada pelo bem da humanidade, mas sim pelo bem da memória e consciência do próprio personagem.

Este ano o cinema americano já deu dois outros exemplos de heróis despidos de heroísmo. Tom Cruise em "Guerra dos Mundos" faz um mau pai que, durante uma invasão alienígena à Terra, tem a chance de sair coroado como salvador do planeta. Todas as ressalvas feitas ao final feliz do qual Steven Spielberg parece cada vez mais incapaz de se afastar, o protagonista termina o filme muito longe de se redimir como pai, sem ter salvo o mundo e ainda com um assassinato injustificado e com requintes de crueldade nas costas. No recente "O Senhor das Armas" (também em cartaz no Estado), Nicolas Cage é um traficante de armas canalha e amoral e que, no entanto, será o condutor de uma trama onde a indústria da bala é atacada ácida e frontalmente. Há nesses filmes a convicção de que qualquer possibilidade de separação de lados (bem/mal, certo/errado) tornou-se inviável nos dias de hoje. Mas as histórias seguem acontecendo, e os personagens precisam se adaptar a essa ambigüidade, não somente incorporando-a, mas fazendo dela sua verdadeira profissão de fé. Fruto desta mesma convicção, "O Jardineiro Fiel" acompanha um herói perdido que em sua trajetória pessoal acaba se deparando com algo muito maior que sua vida e seu amor pela esposa morta, um continente abandonado à própria sorte - e poucas vezes se viu um filme tratar a África de maneira tão honesta, sem idealizações ou julgamentos superficiais. Um caminho seguido de perto por Fernando Meirelles, fazendo aqui um filme que procura a todo tempo sintonia com o agora, e que extrai dessa atitude algo cada vez mais difícil de se atingir: um cinema incrivelmente relevante.

E-mails para o colunista: cadernoa@seculodiario.com


 

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