Em Brasília há quem julgue que a crise política poderá entrar agora numa fase de radicalização entre governo e oposição. Pode piorar, para depois melhorar.
Com a recuperação da imagem do presidente e do governo federal, o governo sentiu-se com fôlego para começar a bater na oposição. Esta, por sua vez, reagiu e também subiu o tom.
Este cabo de guerra (momentâneo e estudado, de ambas as partes) levaria, no limite, governo e oposição a retirarem os seus respectivos xiitas de campo e a chegarem à conclusão que é melhor para todos voltar a empunhar as velhas e boas armas da Política: negociação, articulação, agregação, disputa política. Bater, sim, mas só acima da linha da cintura, como mandam as regras do boxe.
E, aí, a disputa pela sucessão presidencial aumentaria de ritmo e ocuparia gradativamente os espaços que o final das CPI's vão deixar, feitas as punições exemplares exigidas pela opinião pública e efetivadas algumas baixas através de renúncias de parlamentares aos seus mandatos.
Este seria o cenário para os próximos seis meses. No meio tempo, ainda é cedo para saber o que o Tsunami político vai deixar de lições, seqüelas, aprendizados e correções de rumos para as elites políticas e sociais, para os governantes e para os cidadãos.
Certamente, vamos precisar encontrar caminhos para novos avanços institucionais e políticos no Brasil, por exemplo, através da instalação de uma Mini-Constituinte exclusiva em 2007.
Certamente, ainda, vamos precisar refletir muito ainda sobre o caldo de cultura nacional que produz as mazelas políticas brasileiras ao longo dos anos.
Roberto DaMatta, aliás, assinalou que não se faz democracia somente com Leis. A Lei só torna-se efetiva se ela se transforma em costume, se é introjetada no cotidiano dos indivíduos, nas suas pequenas e grandes ações no dia-a-dia.
Para chegar à esta afirmativa, DaMatta analisou as questões da culpa e da vergonha na cultura brasileira e concluiu: "as leis engendram sentimentos e implicam estilos de vida; tentar viver sem a vergonha da contradição moral e sem a culpa pela clara ruptura com a norma conduz senão à imoralidade pública (hoje no seu clímax), mas à barbárie que corremos o risco de experimentar. A barbárie de um sistema político sem culpa e sem vergonha" (O GLOBO, 19/10/05).
Neste contexto, o Brasil vai para as disputas políticas de 2006, tanto no plano nacional, quanto nos estados. Eleições para presidente, para governador, para senador, para deputado federal e para deputado estadual. Vai começar o espetáculo outra vez.
Vai para as disputas com as seqüelas políticas, culturais e sociais deixadas por esta última crise, mais uma em sua História Política.
Seqüelas que, como as pesquisas estão mostrando, dividiram o país ao meio e podem aumentar os índices de abstenção eleitoral e a carga dos votos de protesto.
Sobretudo, seqüelas que estão gerando prenúncios de uma crise de hegemonia no país. Tendo abatido no ar a trajetória do projeto de hegemonia do PT , a crise abriu espaços para o surgimento de novos atores políticos e de novos movimentos políticos, num contexto de novas políticas de alianças.
Vamos ver como se movem, neste tabuleiro novo, as lideranças, correntes políticas, partidos políticos e estratos sociais. Começa tudo outra vez. É hora de artesanato político.
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