Participar do referendo sobre o desarmamento no domingo, dia 23 de outubro, deveria nos encher de alegria. Ao cabo de um mês de debates, porém, percebemos que o problema da violência vai continuar do mesmo tamanho, vote-se SIM ou NÃO.
Concluímos também que nenhuma dessas posições satisfaz. Fomos induzidos a votar SIM quando queremos dizer não à violência; somos obrigados a votar NÃO para dizer sim ao comércio de armas e munições. Ou, seja, esse referendo tem um vício de origem. Por isso eu digo: não referendo esse equívoco.
Mas o debate foi positivo e um dos seus saldos positivos foi a tomada de posição do MST favorável à proibição do comércio de armas e munição. Para o MST, "a proibição vai impedir legalmente o processo de violência que assola a sociedade brasileira", já que "o livre comércio de armamento estimula um verdadeiro genocídio mascarado na cidade e no campo".
E agora, se me permitem, ofereço-lhes uma crônica em homenagem ao final do inverno.
Todo dia cedo, quando chego ao fogão para aquecer a água do café e espio pela janela, vejo no pátio de casa um cachorrinho magro que vem procurar comida. Ele sempre acha o que comer. No primeiro dia chegou magérrimo e devorou todos os restos deixados para os passarinhos. Hoje chegou a sentar-se para, de olhos semifechados, mastigar uns ossos que sobraram do assado do último fim-de-semana.
Fora os pardais, que vêm em bando, aparece de vez em quando um solitário joão-de-barro, bem manso e confiado - deve ser o mesmo que freqüenta a poça da rua em frente ao terreno baldio. O joão-de-barro tem um jeito humano de caminhar. Ele vai bicando coisas no chão mas levanta vôo rápido ao ver o gato se aproximar.
Já o cachorrinho magro, rabo enfiado entre as pernas - sinal de que sabe que aqui não é seu território --, se assusta quando ouve o miado do gato pedindo para abrir a porta, no ritual de toda manhã, mas não pára de comer.
Daqui a uns dias, quando ficar um pouco mais gordinho e crescido, o pobre cão sem dono já não conseguirá passar entre as grades do portão. E ficará na rua passando fome e fugindo da carrocinha da prefeitura.
Lobo, o gato, dorme na rua, mas passa a manhã no sofá, repousando da boemia. Faz o papel de cão da casa. Quando a gente sai, ele faz companhia até a esquina; quando voltamos, ele nos saúda com seus miados infantis. Já aprendeu a conviver com o cão da casa vizinha. Passeia sobre o muro, fingindo indiferença aos latidos do inimigo.
O inverno parece que acabou, mas o vento não cessa. Ora sopra do sul, ora do norte, sempre fazendo diabruras. Sim, diabruras são próprias do vento. O vento é coisa do Diabo. Já o tempo - esse é o próprio Deus.
Tempo e Vento, os dois se encontram na Natureza, ora são amigos, ora irmãos, ora estranhos, sempre loucos e geniais, donos das estações, manobristas do sol, da lua e das estrelas, peregrinos do Bem e do Mal que embelezam e transtornam esta bola de terra a que estamos adstritos.
Lembrete
"Os bichos são melhores do que os homens"
Darcy Azambuja, escritor gaúcho
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