Vitória (ES), edição de 31 de outubro de 2005    
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A derrota da metáfora
A beleza que não põe mesa em "O Tempero da Vida"



Rodrigo de Oliveira
Atualizado toda segunda-feira, às 16 horas.


  
Foto: Divulgação
  

Há uma veia política inegável em "O Tempero da Vida" (em cartaz no Cine Metrópolis desde o dia 21). O pano de fundo da trama é a relação conturbada entre Grécia e Turquia, deflagrada no início dos anos 60, quando por conta de uma disputa pela ilha de Chipre, o governo turco ordena a deportação de todos os gregos que viviam no país. Entre os deportados está a família do menino Fanis Iakovidis, criado entre as panelas e condimentos do avô cozinheiro. A ida para a Grécia separa o neto do avô, e ambos só se verão novamente mais de trinta anos depois, num encontro trágico que serve de prólogo para o filme. A partir daí acompanharemos as memórias de um Fanis já adulto, que costurará sua história pessoal à história da rixa dos dois países entre os quais sua família está dividida.

Para contar essa história, o diretor Tassos Boulmetis escolhe a fábula como forma de registro. A opção pode estar ligada ao fato deste ser um filme quase autobiográfico: Boulmetis também é um físico com cacoetes culinários, como o protagonista do filme, e também como ele foi deportado da Turquia ainda menino junto com sua família. Trata-se, portanto, de um projeto pessoalíssimo, que lida com a memória afetiva de alguém que viveu por dentro aquela tensão política. Mas o que há de político em "O Tempero da Vida" não passa nunca de uma simples veia, bem frouxa e sub-aproveitada.

Os bons temas saltam por todo filme. Há, acima de tudo, o conflito de identidade da família Iakovidis, no meio do caminho entre a cultura grega (na qual nasceram) e a cultura turca (que adotaram). O choque - e uma possível coexistência de valores - aparece inclusive em termos religiosos: o pai de Fanis, a certa altura, tem a chance de permanecer na Turquia, desde que abandone a Igreja Ortodoxa e se converta ao Islamismo. O pai então diz que os cinco segundos em que ele chegou a considerar esta possibilidade foram os piores de sua vida. Mas seguir esse caminho não interessa à "O Tempero da Vida". Este é mais um daqueles filmes cuja intenção central é o uso genérico da alegoria. Aqui tudo será construído para justificar a tese de que "a arte culinária é uma grande metáfora da vida". Todo e qualquer tempero citado no filme será devidamente relacionado a uma qualidade humana, todo prato preparado será comparado a um fato da vida, até a exaustão. O efeito é o mesmo dos contos de fadas, cada fala do avô cozinheiro para o menino Fanis é dita com a pompa de uma grande lição de vida.

Boulmetis briga o tempo todo para fazer um filme "poético". E parece acreditar que a poesia inerente à vida não basta, é preciso inundá-la com um mar de metáforas, das mais intricadas ("a canela é como uma mulher", ainda que a explicação machista não convença) às mais batidas (para anunciar a morte do avô, vemos duas velas serem apagadas pelo vento). Abre assim espaço para um desfile de imagens de suposta profundidade cujo significado metafórico é tão óbvio que esvazia qualquer possibilidade de uma metáfora real. Falta espaço para pensar em "O Tempero da Vida": tudo é o que é, a beleza está lá unicamente para ser contemplada como tal, os ensinamentos estão lá para serem tomados como verdadeiros e irrefutáveis. Protagonista e diretor são incapazes de revisarem criticamente suas histórias, o passado é encapsulado como um momento com o qual a única relação permitida é a reverência. O resultado pode ter valido como uma grande homenagem de Boulmetis à sua própria memória. Para os espectadores, no entanto, fica aquela sensação de algo já visto e experimentado (com melhor sabor) dúzias de outras vezes.

E-mails para o colunista: cadernoa@seculodiario.com


 

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