Vida de Imigrante - De novo?





Wanda Sily
Escreve direto de Miami - EUA

Não sei se a paciência do leitor, distante das agruras de enfrentar o clima enlouquecido, ainda agüenta ouvir falar em furacões. Mas nos últimos dois anos a fera perdeu totalmente o controle, e não se sabe se vai continuar assim, se vai aumentar, ou se volta a se comportar mais generosamente.

Vivo ou freqüento a Flórida por muitos anos, e nunca tinha visto um furacão. As ameaças raras vezes se concretizavam. Agora, não mais que de repente, eles estão na ordem do dia, e não se fala em outra coisa. Pudera! Eles estão aumentando de intensidade e de freqüência, e como numa reação em cadeia, mal um termina e outro já se forma.

As suspeitas de que eram efeito do aquecimento global não se confirmaram, parece que é uma fase de mau humor da mãe natureza. Esse Wilma deixou uma porcão de recordes - foi o maior furacão que já aconteceu, embora o Katrina fizesse mais estragos, e cobriu a maior trajetória já feita por um furacão.

Embora com pouca chuva, ventos fortíssimos nos atacaram na segunda-feira, de seis da manhã ao meio dia, fazendo um rastro de destruição. A maioria das casas tinha proteção nas janelas, mas quem não tinha passou maus momentos. O vento quebrou os vidros e as pessoas tiveram que se abrigar nos closets ou nos banheiros. Muitos fizeram barricadas de colchões nas vidraças.

Ficamos sem luz, telefone fixo e celular, e Internet. Por dois dias tudo parou. Quarta-feira as filas começaram, principalmente para a gasolina, com o produto racionado. O governo está distribuindo água, gelo e alimentos não perecíveis, mas as filas duram horas. Como os fogões são elétricos, também tem longas filas para comprar botijões de gás.

Quem foi precavido comprou gerador, que faz um barulho infernal, tem pouca potência e é perigoso. Lanternas e velas esgotaram nos supermercados antes mesmo do furacão.

A volta à normalidade está sendo lenta. Alguns supermercados e restaurantes já estão funcionando, mas só aceitam dinheiro.

As ruas parecem ter passado por uma guerra. Os sinais de trânsito quebraram e puseram guardas em todas as esquinas, e temos horário de recolher à noite. Como a cidade é muito arborizada, tem árvore caída para todo lado, muitas em cima de carros, cercas e telhados.

Embora em menores proporções que o Katrina, esse furacão também deixa no ar uma pergunta incômoda - como tal situação acontece no país mais poderoso do mundo? Não temos inundações ou estradas danificadas, portanto o abastecimento de gasolina, água e alimentos deveria ter sido mais agilizado, e o reparo das redes elétricas mais rápido.

Uma lição se tira disso tudo - quando as forças do invisível atacam, todos são impotentes, seja a Jamaica, ou Cuba, ou a poderosa América.