Júlio Tigre



DOBRA A

Passou rápida, deixou as folhas sobre a minha mesa junto às minhas coisas, quando voltei já folheava papéis azuis. Sentei devorando o pão com tomates que preparei. Daí, ela veio: Isto está bom, você tem mantido uma média, difícil conservar o início quando vão surgindo coisas melhores, o assunto pega outro rumo, é melhor mudar o título. De que exatamente você está falando? Não tenho que levar a sério este título, nada me perturba mais do que estar atrelado a uma definição, tudo o que sei é que não fará diferença depois. Isto agora é real e cotidiano. Este título está vencido, mais vai ser uma lembrança de ontem, e aqui para nós as coisas não mudaram nadinha. Soterramos esta conversa. Depois quando a noite vem é mais a falta de luz sobre esse assunto do que qualquer outra coisa.

Outro dia transcorre sem novidades, nem mesmo uma coisa diferente no almoço, tudo igual ao outro dia. Ainda com rodelas de cebola entre os dentes, me preparando para voltar à mesa, observei. O queijo estava com mais sal hoje, e isso é tudo. Sal e mudou o gosto de tudo. Uma pequena e sutil diferença. Sal no queijo e está salvo o dia.

Dois momentos incríveis: dobrei os papéis com os quais iria trabalhar depois, ficaram com orelhas enormes. Passei com pressa pela sala da diretoria, vi de relance meus papéis sobre a mesa, com um pequeno lembrete em papel rosa: Precisamos conversar sobre estes documentos, há dobras demais neles. A diretoria.

As orelhas estavam intactas. Ela revidara. Talvez do dia em que deixei todo o café esfriar por não ter atarraxado como devia a tampa da garrafa. Isto muda as coisas entre mim e ela, posso ser despedido por causa das orelhas nos papéis. Parte minha culpa, parte sua culpa. Você fez de propósito, sempre desfaz as orelhas antes de passar adiante.
Outro dia. Vai ser diferente, deixei as folhas literalmente amarrotadas desta vez.

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DOBRA B

Como são domésticas estas situações, uma dobra mal feita na toalha e vamos para os tratados sobre incompetência. É fácil para você que foi tão bem treinada nas tarefas diárias. Compreensão limitada pela ordem, fazer direito qualquer que seja a maldita ordem dada. Cumprir calado como um soldadinho de chumbo que sabe ser a munição ideal. E se por acaso atinge o alvo, a alegria será um fruto colhido com prazer, o prazer tem seu limite. Esta alegria não deve ser expressa de forma ruidosa, por não poder deixar vazar o que é de fato sua obrigação, então, atingir o alvo não é uma conquista, mas a prova circunstancial de que o treinamento foi bem realizado, e o mérito pelo seu sucesso será do treinador e não seu. Isto porque ele está recebendo agora as glórias pelos seus acertos que tanto honraram seu treinador. Isto será um círculo até que o último treinado não tenha a quem treinar, o que vai ser uma experiência frustrante, resultando inútil o que aprendera, incluindo fazer a dobra corretamente numa toalha. Ela refaz a tarefa.

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DA CAMA COMANDA O DIA,

Como faz os encaixes? Desbastando os diálogos, cavando respostas dentro das palavras de conforto, conduzindo para o ninho, enverniza a cara de pau. O jeitão do Fonseca. Conta peripécias jogando verde com os dedos em figa. E para decorar as falas o jeitoso enrola a aurora e vai levantar da cama bem mais tarde. Ela já está no batente da porta pendurada. As chaves estão dentro da gaveta. Não vai sair dali a não ser que a aragem venha, obrigando-o a buscar as cobertas. Não tem uma razão que o faça juntar-se aos outros, então, lá da cama comanda o dia. Deitado, sopra os pêlos dos lençóis fazendo-os flutuar até os raios de sol, conduzindo-os para o banho de ouro. Que riqueza é esta? Hein, Fonseca? Até as formigas estão construindo o seu tempo, cuidando para que não se percam, diminutas manchinhas indo e vindo riscando a parede.

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QUANDO DORME O DRAGÃO

Comeu o frango com o quiabo e foi para a cadeira de balanço lamber os bigodes. Ficou corujando as galinhas ciscando no terreiro, catando pedrinhas, enchendo o papo de porcarias. O ranço do calor veio pedreira abaixo movendo as folhas do capim, balançando os rabos dos bois e quando bateu-lhe no rosto foi com todos os odores mesclados. A mulher veio de dentro também com um objetivo, observar as existências, divagando sobre os sentidos, mas por precaução mantinha um fio por onde se fixava ao crochê. Ele já não sustentava mais o olhar. Caia sobre as pálpebras uma morrinha fechando persianas. Sua cabeça pendia para trás e o pescoço relaxou apoiando-a na almofada da cadeira. Quando a mulher já tecia a quarta linha da manga, ele dormia. Só aí então foi que ela o encarou, lhe contando as rugas, desafiando seu olhar, que quando desperto ela só vê através de sua sombra por sobre as coisas. Indefeso o rosto da quimera, valente tirado a rei, rege no muito seus sonhos, e estes parecem que tomaram as rédeas das suas idéias, porque já fazem contorcer o rosto crivado de espiras. Os arrancos no corpo adormecido entregam os pecados cometidos. Ela escuta no meio da sua respiração algum murmúrio condenando palavras a meros grunhidos, aproxima e pesca com os ouvidos, o que pode oferecer entendimento, mas nem fonemas são os sons que os sonhos desprendem. Retorna para o banco esperando ele acordar. Ele recobra os sentidos lavando o rosto com as mãos secas, soca um palavrão no ar e já está do outro lado do terreiro enquanto ela faz com a agulha o sinal da cruz.




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