Vitória (ES), edição de 03 de abril de 2006    
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O artista como elemento transformador



Cristina Moura


  
Foto: Divulgação
  
Os ciclos de Socó


Arte como remédio, arte como sigla, arte como senha para uma pergunta no convívio social, arte como enigma. Arte como Arte, com letra maiúscula. Há algum tempo, conheci Paulo Gomes, magro, esguio, solidário. De longe, uma garça. Formado em Comunicação Social, pela Universidade Federal do Espírito Santo, a Ufes, que tanto o acolheu.

Por um ou outro amigo em comum, sabia de Paulo. O Paulo que, na década de oitenta, foi um dos ativos questionadores, integrante de grupos de contestação e poesia. A poesia em buscar as respostas para a produção do conhecimento. Mas o nome pode soar estranho para alguns da comunidade acadêmica. E se falarmos em Socó? Ora, Socó é o cara.

"Pinturas e Cosoutras" é o nome da exposição de Paulo Gomes Socó. Entre parênteses, o codinome. Mas, aqui agora, o nome que o acolheu pelo mundo da arte, dos amigos mais chegados, das interrogações múltiplas que todo artista deve carregar na alma. As pinturas são em acrílica. No Espaço Universitário, próximo à Reitoria, estão lá, os feitos e olhares de um autodidata. Ora, que importa ser autodidata, auto-questionador?

Até o próximo dia 30, as manifestações cíclicas estão por lá, dando boas-vindas aos olhares visitantes. Também, talvez, instigando mais perguntas do artista-convidado pela Ufes.

Novos conceitos

Numa conversa, muito mais do que entrevista, ambientada na cantina do Departamento de Arquitetura, perguntei o que seria o conceito de Arte mais próximo das suas buscas interiores e, algumas vezes, expostas, abertas ao público.

"Aquele que reflete o artista. O artista como agente social de promoção e transformação", afirmou. Todas as obras expostas em "Pinturas e Cosoutras" refletem esse conceito, diz ele. As manifestações circulares talvez traduzam esse pensamento.

"Sempre as coisas se misturam. O círculo é indissociável, transformador e meio. Estes dois fatores são interdependentes", explica. Entre um gole e outro de café, fala da sua poética, operada com questões relativas à materialidade. Há vinte anos, conta Paulo, a Escola de Artes da Ufes questionava noções de perenidade da obra. A partir dos anos 80, as velhas noções se vestiram de outros arranjos. Algumas figuras do jogo mudaram. Abriram-se outras cortinas. Começaram a ser trabalhados materiais não necessariamente ligados ao universo artístico: orgânicos e inorgânicos.

Uma das "cosoutras" da exposição reflete justamente essa lembrança da nova escola. Um panetone foi gradativamente sofrendo a interferência de bactérias e fungos. A umidade também participou. A obra, portanto, ganha sua autonomia.

Toda essa concepção não surgiu à toa. A quebra de paradigmas nas ciências humanas foi marcada nessa época, nas últimas décadas do século XX. Buscou-se uma relação interdisciplinar e os conceitos se fundiram, em nome de novas construções, novas linguagens. O artista é o reflexo disso tudo, nas suas obras, nos seus olhares. Um desses exemplos é a obra "Eschevista", uma homenagem de Paulo Gomes a Eschia, pintor, desenhista, que criava ilusões que geravam outras ilusões.

São quatro ganchos de pendurar cortina. A construção de Socó: cada gancho para um lado, sugerindo os quatro pontos cardeais. Essa tradição numérica e formadora de idéias talvez tenha gerado as combinações cíclicas: são sempre grupos de três cores que circulam mais três cores e assim, até formar doze tons, cada um com seus três círculos. A série: "Exato Instante"

Construções numéricas

Socó sorve um café. Ajeita o bigode. Sorri. "O três se refere aos três estados de energia que encontramos no universo, originados de apenas duas, uma positiva e uma negativa. A terceira, a neutra", explica, ao mesmo tempo, em que cumprimenta um ou outro conhecido, que fala da exposição.

"Ah, você foi lá?", pergunta. "Pô, me amarrei!", fala um risonho rapaz de capelo black-power. De repente, outro: "Parabéns". Mas uma pergunta bem lugar-comum tinha que ser realizada. Geralmente, os artistas nem gostam. Mesmo assim, Paulo Socó foi paciente e respondeu: um mês e meio para a produção ficar pronta.

Outra "cosoutra" do artista revela mais indagações sobre as cores. Trata-se de uma série de pequenos nichos de madeira, cada um apenas com um pingo de amarelo. Cada nicho, uma tonalidade amarela. "Tons" parece um espaço lúdico. "Não está concluída. Vou insistir na possibilidade de se transformar num jogo para crianças", afirma.

Sobre os espaços de Vitória ou da Grande Vitória, ele diz: "Todos deveriam ser abertos ao público. Os coordenadores desses espaços deveriam procurar critérios que pudessem garantir a democratização do acesso". Pausa para mais um café.

Serviço
Exposição. "Pinturas e Cosoutras". Paulo Gomes (Socó).
Galeria de Arte Espaço Universitário, Ufes, Av. Fernando Ferrari, Goiabeiras. Até o dia 30 de abril.


 

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