Alguns teóricos da literatura, nos últimos anos, tentaram incessantemente chegar a um quociente máximo das possibilidades dramáticas de uma narrativa qualquer. O número era impreciso, uns diziam vinte e sete, outros dois mil, mas sempre com a idéia de que, no fundo, são sempre as mesmas histórias sendo contadas, com um mínimo de alterações entre si. Indo mais atrás, chega a ser inconcebível pensar que Aristóteles, há vinte séculos, dizia que todas as histórias já tinham sido contadas e que era impossível ser totalmente original. Se isso era válido na Grécia Antiga, a essa altura do campeonato já é uma espécie de verdade incontestável. Pois então por qual motivo ainda insistimos nessa brincadeira de contar vidas no papel, no pixel, na película? "Mistérios da Carne", lançado este mês em dvd, tem uma resposta para isso. Na frieza de uma sinopse, seria uma história de confronto com o trauma do abuso sexual na infância, e o modo como as vítimas lidam com isto quando crescem. E se existem mesmo duas mil maneiras de resolver dramaticamente esta situação, nenhuma delas pode nem sequer esbarrar nessa frieza, sob o risco de potencializar a vontade de afastamento que o tema traz em si. O diretor Gregg Araki atua na mão oposta; longe a frieza, impossível a distância. Se ainda contamos histórias, mesmo depois de ter ouvido todas dúzias e dúzias de vezes, é porque ainda há algo ali, não na técnica da estrutura narrativa, mas nas vidas que as inspiram, que permanece submerso, que acompanha as transformações da humanidade e que, portanto, também sofre mudanças constantes. O jeito de se aproximar dessas pessoas, o modo como pedimos licença para vê-las de perto, essa vontade que, em última instância, é a de conhecer o outro e a si mesmo em estado de honestidade plena, isto para "Mistérios da Carne" não exige outra disposição que não a paixão completa. É possível que nos últimos anos (desde "Fale com Ela", talvez) não tenha aparecido filme mais apaixonado por seus personagens que este. Tanto Araki quanto Almodóvar, tratando de trajetórias falíveis e moralmente questionáveis, sabem que seria impossível qualquer aproximação diferente desta, e sabem, ao mesmo tempo, que isto não significa a dissimulação das complicações, a chance de tratar do abuso sexual se livrando de qualquer julgamento crítico - é que este já será feito fatalmente pelo espectador, e se o diretor também tomar parte indiscriminada desse coro, tudo vira tribunal, e não cinema.
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Foto: Divulgação
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Gregg Araki deixa que seus dois protagonistas se apresentem por eles mesmos. Assumem a narração do filme, ocupam a tela com seus rostos, suas expressões, com suas histórias. De um lado está Neil McCormick, filho de uma mãe solteira amorosa mas pouco presente, parceiro preferencial do professor de beisebol pedófilo na infância, e que na juventude porra-louca está mergulhado na prostituição corriqueira numa cidade do interior do Kansas. Este passado turbulento poderia funcionar como explicação certeira para a condição presente do rapaz, mas "Mistérios da Carne" foge desta facilidade de interpretação. Neil prefere homens mais velhos, e deixa claro desde o começo que busca neles a relação perdida com o professor de beisebol. Não há rancor, não há propriamente um trauma grave que precise ser expurgado. O rapaz ama seu agressor, e é provável que também este o amasse em retribuição; o verão que passaram juntos, jogando videogame, comendo porcarias, estabelecendo uma relação sexual desequilibrada, corresponde a uma parte imensa da formação de Neil, mas não como vítima, simplesmente. Há uma aproximação aqui com outro filme de Pedro Almodóvar, "Má Educação", mas em chave diferente. Se lá a relativização da culpa do pedófilo era como um tiro pela culatra, especialmente pelo caráter amargo e vingativo do abusado interpretado por Gael Garcia Bernal, aqui ela é encarada como uma alternativa real. Não é uma questão de apologia ou defesa do indefensável; "Mistérios da Carne" é maior que isso. Se a simples consideração de uma troca afetiva entre uma criança e seu violentador parece reprovável, Araki parece nos dizer que ela, no entanto, é possível, e por isso merece nossa atenção. Existem segredos maiores em Neil McCormick do que o abuso quando criança. Para conseguir que o rapaz se abra (ao diretor, ao espectador), que exponha suas incertezas, seus medos, é preciso dividir com ele algum sentimento de aproximação. Em último caso, é preciso amá-lo.
Enquanto a vida de Neil se perde nas experiências sexuais com desconhecidos, do outro lado da cidade está Brian Lackey, ex-colega do time de beisebol da escola. Se Neil encara de frente sua marca do passado, à Brian ela aparece de maneira muito confusa. Em duas ocasiões na infância o rapaz teve um apagão na memória, períodos dos quais se lembra pouco, e que são revividos nos sonhos embaralhados que costuma ter. Brian atribui estes lapsos à abdução por alienígenas, e é no trilho da ufologia que acabará se deparando com a verdade, justo onde verá sua vida cruzar com a do colega que não via há mais de dez anos. Brian é o oposto de Neil, um nerd sempre de óculos e com roupas conservadoras, filho de um lar despedaçado (o pai largou a família) mas ainda assim firme e em certa medida harmonioso. "Mistérios da Carne", no entanto, não os coloca como duas faces da mesma moeda, como as duas conseqüências possíveis de um trauma infantil. As ligações entre Brian e Neil (Brady Corbet e Joseph Gordon-Levitt, iluminados) se estendem para muito além disso. Tratados como personagens únicos, inteiros, entregues à tarefa de descobrir um caminho para seguir em frente com suas vidas, os dois não deixam por nenhum momento de se refletir um no outro. Nestes espelhos, vêem-se por ângulos que antes deste encontro talvez desconhecessem, descobrem mais sobre si mesmos a partir do contato com aquilo que até então parecia totalmente alheio. Esta mesma relação Gregg Araki quer estabelecer com aqueles que assistem "Mistérios da Carne". O contato com este filme provoca uma série de descobertas - e mesmo que não escapem das duas mil possibilidades narrativas, é inevitável a sensação de algo original, ou no mínimo pouquíssimo dito e discutido. Originalidade, no entanto, não é nem de longe uma prerrogativa aqui. Um filme sobre o amor, como tantos outros, e ao mesmo tempo tão diferente deles. Dois personagens que se refletem e que, fazendo isso, jogam para a tela as imagens de uma vida marcada mas que ainda quer seguir adiante. É impossível não se apaixonar por isso.
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