Ambientalistas do Rio Grande do Sul pediram uma moratória no plantio de árvores exóticas e transgênicas. Visam as três espécies mais cultivadas no território gaúcho: a acácia, o pinus e o eucalipto. Taí uma boa idéia numa hora em que as coisas ameaçam pegar fogo no pampa - prestem atenção na briga entre os presidentes argentino e uruguaio em torno da construção de duas fábricas de celulose em Fray Bentos, na margem oriental do rio Uruguai. Por trás da polêmica estão os ambientalistas e muita, muita gente.
Com o pedido de moratória, que lembra o pioneiro movimento capixaba pela limitação do plantio de eucalipto na década de 1980 no Espírito Santo, os ambientalistas gaúchos dão sinal de que pretendem tomar um rumo diferente daquele adotado pelos ativistas que há três semanas, num episódio suspeito e obscuro, depredaram o viveiro de mudas da Aracruz em Barra do Ribeiro, na Grande Porto Alegre. Os ecologistas gaúchos são contra a violência, querem dialogar.
É compreensível o sentimento de rejeição que alguns nutrem contra certos vegetais. Há quem odeie a cana porque a identifica com as mazelas da escravidão colonial. Outros detestam os cafezais porque sobre eles se erigiu o poder de vida e morte dos barões do café. Hoje já se condena a soja porque ela serve aos interesses de multinacionais praticantes do neocolonialismo. Ultimamente abundam os que confundem o eucalipto com os fabricantes de papel, que carregam nas costas um longo passivo ambiental.
Essas malquerenças contra as plantas precisam ser desfeitas com a arma mais poderosa do mundo -- a informação. Não é preciso ser técnico ou cientista para discernir entre o certo e o errado, o bom e o ruim na exploração dos recursos naturais. Nenhuma planta pode ser classificada como perversa ou nefasta: o que desequilibra os ecossistemas são as monoculturas, sejam de uma gramínea como o arroz ou a cana, de uma leguminosa como a soja, de um arbusto como o cafeeiro ou de uma árvore como o eucalipto.
Pergunte às abelhas o que acham desses e de outros vegetais imigrantes. Já dizia Carl Sagan: as árvores são nossas tias.
O eucalipto, o tio que imigrou da Austrália, é uma árvore bastante versátil e está presente no Brasil há mais de 100 anos. Entrou no Rio Grande do Sul via Uruguai e até agora não deixou marcas de que esteja provocando um desastre ambiental. Pelo contrário, os gaúchos aprenderam a manejá-lo de forma equilibrada, em áreas pequenas chamadas de "capões", inicialmente para abrigar o gado do calor e do frio, depois como reserva de lenha, poste, varas para a construção e ultimamente como matéria-prima da celulose.
O mesmo se pode dizer da acácia, cultivada há 60 anos para produção de tanino para o curtimento de couros. Sobre o pinus, introduzido maciçamente há 40 anos como substituto do pinheiro nativo, há controvérsias, pois os pinheiros exóticos têm caráter invasivo. Em alguns lugares surgiram monocultivos danosos para o meio ambiente, mas não há exageros agrícolas que não possam ser revertidos, ainda que isso exija bastante tempo.
Nesse contexto, a moratória proposta pelos ambientalistas gaúchos é algo bastante razoável: eles reclamam a fixação de um prazo para avaliar o impacto ambiental da ocupação de grandes áreas por monoculturas de árvores madeireiras. No fundo, querem colocar uma barreira contra os projetos da Aracruz, Votorantim e Stora Enso, que estão embaladas para construir plantas de celulose no território gaúcho, onde vêm comprando extensas áreas para o plantio de eucalipto.
Não nos enganemos: é aí mesmo que mora o perigo. As mega-empresas celuloseiras não são de fritar bolinho em pouca banha. São poderosas e vorazes. É preciso ficar de olho nelas, marcar em cima.
Estamos cansados de saber que os empresários priorizam o lado econômico e relegam o aspecto ambiental a segundo, terceiro ou último plano. Ultimamente incorporaram a responsabilidade sócio-ambiental ao seu discurso, mas na prática continuam tocando o mesmo dobrado de outrora. Também não ignoramos a omissão, quando não a colaboração, dos técnicos de órgãos ambientais geralmente mantidos sem recursos materiais e financeiros.
Quanto aos políticos, parece claro que só deixarão de bajular os empreendedores se a opinião pública pender claramente a favor do movimento ambiental. E aí as coisas não estão claras. Falta informação isenta. A mídia, que deveria jogar luz sobre os fatos, escolheu ser propagandista e advogada da causa empresarial.
Salvo honrosas exceções, a maioria dos proprietários rurais pratica a agricultura predatória, pouco ligando para as consequências sobre o meio ambiente. No Rio Grande do Sul esse traço cultural se tornou produto de exportação e granjeou fama em outras paisagens. No cerrado a palavra "gaúcho" é sinônimo de agricultor mecanizado que leva tudo de roldão, da mesma forma que na Amazônia "capixaba" é adjetivo usado para identificar peritos na derrubada de florestas.
O resultado final é esse que conhecemos: a tarefa de denunciar riscos e erros recai sobre os ambientalistas, geralmente leigos ou teóricos sem experiência de campo, mas movidos por um respeitável sentimento humanista. Alguns são chamados de ecochatos porque repetem queixas antigas e temores atávicos quanto à deterioração do ambiente terrestre. Mas o fato é que muitos têm razão. Foram eles que levantaram a lebre que resultou no Protocolo de Kyoto, o acordo mundial contra a emissão de gases responsáveis pela chuva ácida e o efeito-estufa.
A resistência dos ambientalistas do Rio Grande do Sul não é um movimento isolado. Ele tem conexão com o movimento dos capixabas que protestam contra o chamado deserto verde implantado pela Aracruz e com a revolta dos argentinos contra a construção de duas novas fábricas de celulose em Fray Bentos, no Uruguai. Tem a ver também com o medo internacional dos desequilíbrios climáticos no planeta. Onde vamos parar?, perguntam-se as pessoas, temerosas de que seja preciso chegar à beira do abismo para frear.
Como se estivessem drogados, aqueles que deviam botar o pé no freio insistem em pisar no acelerador do crescimento econômico a qualquer preço. No caso das chamadas florestas plantadas - são lavouras de ciclo longo, nada mais -, faz sentido pedir uma moratória porque não se conhecem relatórios de acompanhamento de plantios ou dados sobre o monitoramento de áreas cultivadas por grandes empresas papeleiras. As pesquisas divulgadas pecam pela parcialidade: ou são feitas para defender empresas ou para condená-las.
Não há dúvida, é preciso conter o raciocínio simplista segundo o qual as monoculturas são inevitáveis e que não há progresso sem poluição. Controlar todas as formas de lixo é a questão mais urgente e crucial do momento no mundo. Resta saber quem vai botar o guizo no rabo das feras do Mercado.
|