Vitória (ES), edição de 05 de abril de 2006

Ufes não decide cotas em manhã
tumultuada no campus de Goiabeiras



Texto e Fotos: Luciano Coelho



Sistema de cotas na Ufes só no próximo ano. A Câmara de Graduação da universidade derrubou a proposta de 52% de cotas da Comissão Pró-cotas. Uma nova reunião, sem data definida, decidirá o percentual e os critérios das cotas. Antes da decisão, um universitário foi espancado. Após, manifestantes quebraram a porta e invadiram a Pró Reitoria de Graduação (Prograd).

Cerca de mil estudantes de escolas públicas e particulares estiveram no campus de Goiabeiras na manhã desta quarta-feira (5). Em um caminhão de som, perto da Prograd, onde a câmara se reunia, houve muitos discursos favoráveis às cotas. E um aluno contrário ao sistema, o estudante de Biblioteconomia Juliano Marinho, provocava um grupo de alunos de uma escola pública do ensino médio. Juliano fechou o porta-malas de uma van com som.

Da primeira vez, as pessoas próximas apartaram. Mas o universitário retornou a incitá-los. Começaram a bater nele. Ele correu. Aproximadamente dez alunos secundaristas foram atrás. Próximo ao prédio da Reitoria, espancaram o rapaz, que teve o maxilar deslocado e perdeu quatro dentes. Os vigilantes da universidade chegaram e salvaram a vida do aluno. De acordo com um dos vigias, se eles não chegassem Juliano seria morto.

Mas a maioria dos manifestantes, pró e contra cotas, seguiram em ritmo tranqüilo nos seus discursos. Quando foi revelada a decisão, os ânimos se acirraram de novo.

Indignados, uns 30 manifestantes invadiram a Prograd, que era protegida por seis vigias da Ufes. A portaria da pró-reitoria foi quebrada e gritos de racistas e fascistas ecoaram durante a invasão. Os próprios seguranças da universidade e o bom-senso dos próprios manifestantes trouxeram de volta a normalidade dentro da Prograd.

Em sua saída, acompanhado pelo ouvidor da Ufes, Carlos Vinícius, o pró-reitor Santinho informou que a reunião continuaria a partir das 14h, mas foi suspensa sem data para um novo encontro. Santinho ainda disse que para o vestibular do final deste ano não há mais possibilidade de adotar o sistema de cotas. Ele disse também que é a favor das políticas afirmativas, mas não apontou os critérios.

A Câmara de Graduação, composta por representantes dos colegiados dos 45 cursos universitários, contou com 37 participantes. Destes, 21 votaram contra os 52%. Matematicamente 16 foram a favor da Comissão Pró-Cotas. Informação dada pelo pró-reitor de graduação, Santinho de Souza. Mas, segundo o professor Alexandre Curtis, do colegiado de Comunicação Social, esse número não é de 16. É menor, porque muitos saíram antes da votação.

Vale lembrar que a partir da decisão da câmara, que apontará os critérios das cotas, caberá ao Conselho de Ensino Pesquisa e Extensão aprovar ou não.

Enquanto não era apresentado o resultado da reunião, as manifestações de quem era pró-cotas, se mostrava mais politizada e mais afinada que os manifestantes das escolas particulares. E dois deputados estaduais marcaram presença e deram seus apoios às políticas afirmativas.

A deputada Brice Bragato (P-SOL) queria os 52% de cotas, baseado nos próprios estudos da comissão, que trabalha com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Pelo órgão, 52% da população capixaba é preta, parda ou indígena. Para a Comissão Pró-Cotas, preto e pardo é igual a negro. E índios teriam 1% das vagas.


Brice também é a favor de políticas em prol da educação fundamental e média, mas acredita que as cotas podem levar a isso. E lembrou que a maioria dos negros da universidade estão em cursos, que têm um menor status social.

O petista Cláudio Vereza concorda com a ex-aliada partidária e vê nas políticas de cotas um início para quebrar o tabu de que preconceito não existe. Ele disse que na verdade há, sim, o preconceito, que é negado por muitas pessoas.

Outra pessoa a favor das cotas, veio do Distrito Federal. O membro do Diretório Central dos Estudantes (DCE) da Universidade de Brasília (Unb), Rafael Ferreira, falou que Brasília é a cidade mais reacionária do país, mas não teve quem fosse contra as cotas, adotadas pela UNb.

Já Bruno Pacheco, membro do DCE da Ufes, entidade a favor das Cotas, deu apoio aos alunos das escolas particulares. Um caminhão de som, para esses estudantes, chegou ao campus por volta das 11h20. De cima do carro de som, Pacheco sugeriu aos alunos da rede privada que eles ficassem a favor do sistema, mas que houvesse outros critérios para o mesmo.

Isso foi debatido pelos alunos das escolas particulares. Entre outras coisas, eles alegaram que não há como construir uma casa começando pelo teto, mas pela base.

Outro argumento dos contras é que eles poderiam se auto-declarar negros. Por isso defendem que haja uma melhoria na educação básica e um sistema de inclusão dos alunos de baixa renda.