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Em seu único registro audiovisual, uma entrevista concedida às pressas à TV Cultura no início do ano de 1977, a escritora Clarice Lispector se apresenta de forma reservada. Com um sotaque estranho, característica de sua fala, parece não estar muito confortável com a situação.
A entrevista foi conduzida pelo jornalista Júlio Lerner [leia depoimento abaixo] e realizada poucos meses antes da morte da escritora. Clarice, autora de A Hora da Estrela, só aceitou fazer o registro com a condição de que só fosse transmitida após sua morte, que veio a ocorrer no final de 1977. Na conversa, a escritora fala sobre seu processo criativo, algumas de suas obras e sua relação com a literatura, novos autores e o Brasil.
Como a TV Cultura não reprisa com freqüência esse momento histórico da memória da literatura nacional, a solução que alguns fãs de Lispector encontraram foi a de disponibilizar o registro na internet. O conteúdo pode ser visto de forma gratuita em diversos sites, inclusive podendo ser feito o download para o computador.
Saiba mais!
Como fazer os downloads
A entrevista está dividida em três partes que estão hospedadas no site Rapidshare. Para os assinantes do site, não há demora para o inicio do download. Porém para os não assinantes o processo pode levar alguns segundos. Após clicar nos links abaixo, você será direcionado para a página do Rapidshare.
*Clique no link FREE que está no meio da página. Você será redirecionado para outra página.
*Espere a quantidade de segundos indicada no meio da página, de acordo com a informação "Download-Ticket reserved. Please wait 40 seconds", por exemplo.
*Após o fim da contagem regressiva, no mesmo local irá aparecer um código que irá reconhecer o download. Digite-o e em seguida clique em "Download From Net-Mirror ´Omega` Ou ´Alpha`
*A caixa de download irá aparecer. Escolha uma pasta e salve o arquivo no seu computador.
Se desejar fazer o download das outras partes da entrevista no mesmo dia, caso não seja assinante, o Rapidshare só iniciará o processo de download após o alguns minutos ou horas, de acordo com o apresentado na contagem regressiva. A dica é realizar um download por dia, para que a contagem seja mais rápida. Os downloads são gratuitos.
Os arquivos
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| Lispector durante a entrevista
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Leia o depoimento do jornalista Júlio Lerner a respeito da histórica entrevista. Texto extraído do site Outonais.
1977, janeiro.
Contrariando seus hábitos, Clarice Lispector comparece a uma emissora de televisão, em São Paulo, para participar de um programa de debates sobre cinema, da TV Cultura.
Sua presença é uma grande surpresa. Mas o espanto se torna ainda maior quando, após o programa, o diretor da emissora Walter George Durst arrisca um convite para que ela também grave um depoimento pessoal. Surpreendendo a todos, ela aceita...pelo telefone Walter Durst localiza Júlio Lerner na redação de "Panorama", da qual o jornalista é editor-chefe, e o convida para realizar a entrevista.
De minha sala na redação de "Panorama" até o saguão dos estúdios tenho de percorrer cerca de 150 metros. Estou tão aturdido com a possibilidade de entrevistá-la que mal consigo me organizar naquela curta caminhada... Talvez falar sobre A Paixão Segundo G.H... Ou quem sabe A Maça no Escuro e Perto do Coração Selvagem... Vou recordando o que Clarice escreveu. Será que li tudo? Em apenas cinco minutos consegui um estúdio e uma equipe fora dos horários normais para entrevistá-la. São quatro e quinze da tarde e disponho apenas de meia hora... Às cinco entra ao vivo o programa infantil e quinze minutos antes terei de desocupar o estúdio B... Estou correndo e antes mesmo de vê-la a pressão do tempo começa a me massacrar. Não terei condições de preparar nada antes, nem mesmo conversar um pouco. Não poderei sequer tentar criar um clima adequado para a entrevista... Eu odeio a TV brasileira!... Só meia hora para ouvir Clarice... O pessoal da técnica foi novamente generoso e se empenhou para conseguir essa brecha... Olho o relógio, não consigo me organizar, estou correndo, olho novamente o relógio, estou desconcentrado, atinjo o saguão dos estúdios e já a vejo ali, dez metros adiante, Clarice de pé ao lado de uma amiga, perdida no meio de um grande alvoroço...
Paro diante dela, estou um pouco ofegante, estendo-lhe a mão e sou atravessado pelo olhar mais desprotegido que um ser humano pode lançar a um seu semelhante... Ela é frágil, ela é tímida, e eu não tenho condições para lhe explicar que o problema do tempo elevou meus níveis de ansiedade. Clarice me apresenta Olga Borelli (ela não sabe que eu sei, sua melhor amiga), entramos e a conduzo ao centro do pequeno estúdio. Peço para que ela sente numa poltrona de couro de tonalidade café-com-leite. Clarice segura apenas um maço de Hollyood e uma caixa de fósforos, providencio um cinzeiro, os refletores malditos são ligados, Clarice me olha, o setor técnico envia pelos alto-falantes o agudo sinal de mil ciclos, o olhar de Clarice me interroga, só disponho de uma única câmera, o olhar de Clarice suplica, Olga se ajeita numa lateral escurecida, e fica encolhida e calada, o calor está ficando insuportável e o arcondicionado não funciona, está quebrado, chega o aviso que em um minuto o VT já estará ajustado, são quatro e vinte, Clarice tenta me dizer alguma coisa mas não falo com ela, preocupado em ajustar um questão de iluminação, o hálito da fornalha já nos atinge a todos, devemos ter agora no estúdio uns 50 ou 60 graus, maldita TV, bendita TV do Terceiro Mundo que me possibilita estar agora frente a frente a ela, Clarice me olha, medrosa, assustada e seu olhar me pede para que eu a tranqüilize...
-"Ok, Juliooooo... tudo pronto", a voz metálica vem da caixa dos alto-falantes. Peço a toda a equipe para sair, cabo-man, iluminador, assistente de estúdio, agradeço, Clarice percebe que caiu numa arapuca e já não há como voltar atrás, peço silêncio total e depois de uns dez segundos ecoa um "gravandooooo"...
Silêncio.
Olga e Miriam na parte escura de um dos lados, Moacir escondido atrás da câmera, eu que me posiciono ao lado da câmera para não aparecer, a fim de que o público não descubra minha impiedosa cara-de-pau e ... Clarice. Solitária, no centro do estúdio... Não conversamos antes e disponho apenas de 23 minutos... Estou completamente desconcentrado, fico um longo minuto em silêncio fitando Clarice, estou oco, vazio, não sei o que dizer... Clarice me olha, curiosa mas vigilante, defendida... Sou o senhor do castelo e - prepotente - guardo comigo a chave desta prisão... Ninguém pode entrar ou sair sem meu expresso consentimento. Todos devem se submeter à minha autoritária vontade.
Não sabes, Clarice... Te conheci agora porém te conheço há muito tempo... Te amo, te respeito e no entanto agora começo a te invadir. A fornalha arde, meu coração dispara, minha boca está seca e debaixo destes tirânicos mil sóis sou o maior dos tiranos. Começa a entrevista.
Clarice Lispector nasceu a 10 de dezembro de 1920, em Tchetchelnik, na Ucrânia. Em 1923 chega com a família ao Brasil, que se fixa em Alagoas e três anos depois muda-se para o Recife. Em 1937 nova mudança da família, desta vez para o Rio de Janeiro.
Adolescente ainda, Clarice começa a escrever para diversos jornais e revistas. Em 1944, forma-se advogada, muda-se com o marido, o diplomata Maury Gurgel Aranha, para Nápoles e publica Perto do Coração Selvagem, que recebe o Prêmio Graça Aranha.
A entrevista avança. Seus olhos azuis-oceânicos revelam solidão e tristeza. Quero mergulhar, por vezes consigo... Clarice agora está encapotada, ela se deixa agarrar mas logo escapa. e volta, e me pega, e me sugere o longe e o não-dizível, depois se cala... E quando nada mais espero, ela volta a falar... Faço uma antientrevista, pausas, silêncios, Clarice agora esta fugindo para uma galáxia inabitada e inatingível, mas volta em seguida e, tolerante, suporta toda a minha limitação.
Em 1946 Clarice muda-se para Berna. Três anos depois nasce seu primeiro filho, Pedro. Em 1952 ela vai para a Inglaterra, onde fica seis meses. Em 1954: Perto do Coração Selvagem é publicado em francês. Dois anos depois seu A Maçã no Escuro recebe o Prêmio Carmem Dolores Barbosa.
Em 1956 nasce um Washington seu segundo filho, Paulo. A produção literária de Clarice vai se avolumando.
Em 1959, Clarice separa-se do marido.
Em 1964, publica A Paixão Segundo G.H.
Em 1967, fere-se gravemente num incêndio em seu apartamento.
Avanço, invado, penetro, novamente invado e estrategicamente recuo, mais uma vez penetro. E minha tola vaidade de macho sopra ao pé do ouvido para que eu vá em frente, prossiga.
Em 1969 ela ganha o "Golfinho de Ouro" com Felicidade Clandestina, no ano seguinte seus livros A Maça no Escuro (romance) e Laços de Família (conto) traduzidos para o alemão.
Estou dividido mas prossigo, mandam um sinal que tenho só cinco minutos... Agora quatro... Três ... Sou oportunista descarado, finjo perceber o desconforto de Clarice. Faltam dezessete para as cinco... Clarice será descoberta no mundo inteiro, lida e amada em todos os idiomas. Sinto que não a verei nunca mais, estou emocionado, mais duas ou três perguntas e a entrevista se encerra com Clarice dizendo:"... bem, agora eu morri... Mas vamos ver se eu renasço de novo. Por enquanto estou morta. Estou falando do meu túmulo..."
Silêncio pesado no estúdio B. Um longo, e triste, e terrível silêncio. A premonição. Está encerrada a entrevista. Clarice se levanta, nada digo, ajudo-a a tirar o microfone de lapela. Silêncio milenar no estúdio. Miriam, a estagiária, chora baixinho, Olga está calada, Clarice e eu nos olhamos no fundo dos olhos...
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