É muito provável que todo (bom) filme feito depois de "Cidadão Kane" em algum momento se referencie nele, seja através de uma homenagem, uma citação, apenas como influência tácita ou mesmo por sua total negação. É esse o tamanho da força do filme de Orson Welles, se não o maior de todos os tempos, certamente um dos que mais provocou diretores a repensarem suas convicções e então regurgitar um cinema em que a desconsideração deste filme-marco seria simplesmente impossível. "Boa Boite e Boa Sorte", em cartaz no Cine Metrópolis, usa quase todas essas possibilidade de referência, e não faz nenhuma questão de esconder isso. Está lá no preto-e-branco contrastado do fotógrafo Robert Elswit, nas cenas da sala de projeção da redação dos telejornais da rede americana CBS, no jeito de enquadrar o protagonista escrevendo um discurso em sua máquina de escrever. Isso tudo entra na conta das citações literais. Mas é por outro aspecto, muito mais impreciso e justamente por isso ainda mais profundo, que o segundo trabalho de direção de George Clooney se aproxima diretamente do primeiro trabalho de Welles. O filme de 1941 trazia desde no título a marca de uma figura que já nasce histórica e memorável, e o Charles Foster Kane interpretado pelo próprio diretor talvez seja o mais célebre personagem da história do cinema. Paradoxalmente, aquilo que é tão conhecido é ao mesmo tempo incrivelmente incerto (e portanto, desconhecido em igual medida). Em "Cidadão Kane" o que temos são colagens de depoimentos de amigos e conhecidos, cenas de arquivo, lembranças cuja fonte nunca é o próprio protagonista desta memória. Kane não fala por si só, seu retrato é construído a partir da imagem que outros tinham dele, sua personalidade é um mosaico de impressões irregulares e muitas vezes contraditórias - vilão, herói, amável, irascível, nunca poderemos ter certeza de quem realmente foi este magnata. Eis a grande contradição: o personagem mais famoso é ao mesmo tempo o maior anti-personagem de todos. Esse vazio programado, este abismo entre a verdade de uma pessoa e a verdade construída sobre ela, é justamente o espaço onde Welles encaixa suas idéias sobre as vicissitudes do poder e o modo como ele afeta aqueles que dele estão investidos.
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Foto: Divulgação
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| Edward Murrow (David Strathairn), resistência contra a opressão no passado e no presente
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"Boa Noite e Boa Sorte" parte de princípio semelhante, ainda que através de outra abordagem. O jornalista Edward B. Murrow é irreal em sua realidade tanto quanto Kane - e o fato de ser personagem da reencenação de uma história verídica só reforça essa dubiedade de caráter. George Clooney não chega a fazer um filme em primeira pessoa, mas o jornalista está presente na maior parte dele, e mostra-se por si próprio, sem intermediações. Mas algo em sua construção faz funcionar aquele mesmo dispositivo que tornava o cidadão de Welles o palco para idéias muito maiores que sua capacidade consciente de expô-las. Algo na firmeza do olhar, na atitude sempre ereta e nunca vacilante, no modo de se sentar, de se dirigir à câmera durante um de seus programas, no jeito de lidar com as situações; enfim, isto que em última instância é a potencialização imaginada daquilo que se chamaria uma "postura essencialmente jornalística", é o correspondente de "Boa Noite e Boa Sorte" à inexistência kaneiana. O rosto de Murrow (mas na verdade o rosto de David Strathairn, em atuação brilhante) é uma espécie de terreno limpo e fértil para qualquer tipo de ataque à sujeira dominante, seja ela a caça às bruxas promovida pelo anticomunismo do senador Joseph McCarthy na década de 50, seja a caça às bruxas promovida pelo presidente anti-humanidade George W. Bush. Clooney faz esta ponte quase obrigatória entre a posição isolada de um jornalista contra um regime opressor do passado e a incapacidade reativa (e mesmo um adesismo automático) do jornalismo americano atual em relação a um regime opressor em medida muito maior: para isso o Murrow tábula rasa, um personagem capaz de uma revolta consciente dentro de seu tempo histórico e, simultaneamente, modelo de um ideal a ser resgatado por um diretor com quem divide este mesmo sentimento.
Um discurso sobre o futuro da televisão abre e fecha "Boa Noite e Boa Sorte", proferido por Murrow numa festa em sua homenagem cinco anos depois da batalha travada com o senador McCarthy contra seus métodos totalitários de investigação e perseguição de supostos comunistas americanos. Este discurso é a ligação mais direta entre a atitude de Murrow e a atitude de Clooney, um clamor apaixonado pela televisão como instrumento de educação e discussão de idéias, mas certo de sua fraqueza diante da irreversibilidade do processo de degradação deste meio de comunicação. Falam da televisão, mas tudo isto se estende ao jornalismo e à arte. O trabalho de pesquisa de George Clooney (que além de diretor, é também roteirista do filme e interpreta o editor do programa de Murrow) encontrou nas palavras deste discurso, e também nas réplicas que o jornalista dava às acusações de McCarthy, expressões que se refletem literalmente na atual situação política americana. É evidente que "Boa Noite e Boa Sorte" não seja um filme de esquerda - isto talvez não exista na América há décadas. O que Murrow e Clooney defendem são as bases liberais do país, fundado na democracia das oportunidades e na garantia da liberdade de expressão. Tanto o senador de 1953 quanto o presidente de 2006 atentam diretamente contra este princípio gerador. São os motivos centrais da luta contra o conservadorismo que defende a liberdade no exterior, mas a ignora internamente, que usa qualquer meio necessário para provar um ponto de vista claramente equivocado, que força a uniformização ética e ideológica num país cuja grande força foi sempre a possibilidade da diferença, que se vale do medo, e nada mais.
"Boa Noite e Boa Sorte" ficcionaliza este foco de resistência jornalística, reencena os bastidores do programa de Murrow com uma precisão artística deslumbrante. O alvo, no entanto, a política retrógrada do macartismo, esta é impossível se identificar com a fabulação, e, portanto, só aparece em forma de documentário, sempre através de imagens reais de arquivo recuperadas e trazidas para o interior do filme. Tudo aparece inteiro na tela, sem direito a meias palavras, sem a opção de um embarque apenas parcial: até mesmo os anúncios de cigarro e alumínio são mostrados em sua totalidade, não há nenhuma cena em exterior, tudo está reduzido à tensão da redação do telejornal, sem luz do sol ou céu aberto. O clima é menos de uma claustrofobia calculadamente impressionista, e sim a idéia de que a atualidade da empreitada de Murrow e seus colegas é tão plena e verdadeira que as correspondências, as dúvidas e as certezas serão compartilhadas por qualquer um que saiba olhar atentamente o mundo em que vivemos hoje. Se a televisão que o jornalista tanto defendeu parece cada vez mais condenada a permanecer na nulidade, o cinema ainda não perdeu sua capacidade de provocar e catalisar discussões políticas/artísticas. Como diz o inimigo (apesar de nunca consegui-lo realmente), tudo é uma questão de saber despertar os corações e as mentes.
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