Vitória (ES), edição de 11 de abril de 2006
 
Aracruz Celulose lucra R$ 347 milhões
em um trimestre; saiba como

Ubervalter Coimbra

O lucro líquido da transnacional Aracruz Celulose chegará a R$ 1,388 bilhão em 2006, caso a empresa mantenha o desempenho do início do ano: nos primeiros três meses, a empresa registrou lucro líquido de R$ 347 milhões. A empresa contabiliza R$ 3,517 bilhões de lucro líquido desde 2003. Do lucro de 2005, R$ 1,2 bilhão, 56% foram enviados ao exterior, onde se concentra boa parte de seus proprietários.

O lucro líquido de R$ 347 milhões que a transnacional Aracruz Celulose registrou no primeiro trimestre de 2006 é 73% maior do que o lucro líquido obtido no primeiro trimestre de 2005, de R$ 200 milhões. Os balanços da empresa registram os seguintes resultados: lucro líquido de R$ 1,2 bilhão, em 2005; de R$ 1,1 bilhão, em 2004, e de R$ 870 milhões, em 2003.

A Aracruz Celulose manda para o exterior a maior parte do seu lucro: em 2005 foram mandados 56% do lucro líquido para fora do Brasil. Boa parte dos proprietários da empresa moram no exterior: os noruegueses Lorentzen detém 28% (o maior acionista é cunhado do rei da Noruega); outros 28% são do Banco Safra, do capital internacional com sede em Mônaco; 28% da Votorantim, e 12,5% do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). A Souza Cruz (grupo British American Tobacco) também tem ações na empresa, mas em menor percentual.

Segundo denuncia o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra - Brasil (MST), nos últimos três anos a Aracruz Celulose recebeu R$ 2 bilhões dos cofres públicos. E há agravante: o dinheiro emprestado pelo BNDES à Aracruz Celulose tira empregos do campo.

No Espírito Santo e na Bahia, lugares em que a empresa está presente, pelo menos 88 mil postos de trabalho vão sumir esse ano por conta do empréstimo de R$ 297 mil do BNDES, com recursos do Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT) e do Fundo de Participação PIS/Pasep, para plantios de eucalipto pela empresa. É que 30 hectares plantados com eucalipto geram apenas um posto de trabalho e, na agricultura camponesa cada hectare gera, em média, um posto de trabalho e renda.

No total, a área de plantio de eucalipto com financiamento com recursos do FAT será de 90.806 hectares. O prazo de carência desses créditos do BNDES é de 21 meses. Só a partir daí começam os pagamentos do empréstimo e os prazos das amortizações chegam a 84 meses, com juros de 2% ao ano. Já as taxas de juros praticadas no Programa Nacional da Agricultura Familiar (Pronaf) variam até 8,75% ao ano.

O processo de produção da celulose é extremamente prejudicial ao meio ambiente, e 57% da produção da Aracruz Celulose são usadas na produção de papel higiênico na Europa e nos Estados Unidos da América.

O Conselho de Administração da Aracruz Celulose, em 1 de dezembro de 2005, era formado por Carlos Alberto Vieira, presidente; Haakon Lorentzen (este substituiu Erling Sven Lorentzen, o norueguês que implantou a empresa no Brasil durante a ditadura militar, com recursos majoritariamente brasileiros); Eliezer Batista da Silva, Luiz Aranha Corrêa do Lago; Ernane Galvêas; Raul Calvat; Álvaro Luiz Veloso; Nelson Koichi Shimada, e Sandra Meira Starling. José Luiz Braga, diretor (adjunto) jurídico, secretariou esta reunião.

A Aracruz Celulose é presidida pelo brasileiro Carlos Augusto Lira Aguiar, engenheiro químico, nascido em 1945, em Sobral, no Ceará.

   
Saiba como a empresa tem seus lucros

No seu processo de instalação, que começou no Espírito Santo, a Aracruz Celulose destruiu pelo menos 50 mil hectares de mata atlântica no Estado. E continua destruindo até hoje, como comprovou o Ibama da Bahia, no final do ano passado, que multou a Veracel (onde a Aracruz é sócia) por destruir ou impedir a regeneração de 1.200 hectares de vegetação nativa. Este ano, novas agressões e nova multa à empresa.

No seu balanço de 2005, a Aracruz Celulose confirma ter 255 mil hectares plantados com plantios de eucalipto em quatro estados, e que seu latifúndio compreende ainda outros 136 mil hectares de terras no Espírito Santo, Bahia, Minas Gerais e no Rio Grande do Sul. Os dados divulgados pela empresa são contestados pelas lideranças dos trabalhadores rurais e ambientalistas. Eles estimam que a Aracruz Celulose tem, só no Espírito Santo, 220 mil hectares plantados com eucalipto.

A Aracruz Celulose utiliza outro instrumento para aumentar a disponibilidade do eucalipto, que é o Programa Produtor Florestal. Com o programa, já agregou 81 mil hectares de plantios de eucalipto, em 145 municípios dos estados do Espírito Santo, Bahia, Minas Gerais e Rio Grande do Sul. No ano passado, chegou a 13 municípios do noroeste do Rio de Janeiro.

A empresa anunciou que investirá US$ 200 milhões na modernização das fábricas A, B e C, localizadas em Barra do Riacho, em Aracruz. O investimento permitirá aumentar a produção das fábricas de 2,08 milhões de toneladas/ano para 2,33 milhões de toneladas/ano.

A empresa anuncia que as obras de ampliação de suas fábricas vão começar no primeiro semestre de 2006. Dos 1.880 operários que serão empregados durante a construção, irão restar contratados depois da conclusão do projeto apenas cerca de 200 empregos diretos.

A Aracruz Celulose também já anunciou a construção de uma nova fábrica no País, que o governo quer que seja implantada no Espírito Santo. Uma nova fábrica demandaria de 90 a 100 mil hectares novos de plantios de eucalipto, que podem ser plantados no Espírito Santo e Bahia. O presidente da empresa, Carlos Augusto Lira Aguiar, está de olho nas terras capixabas, e dos estados do Rio de Janeiro, Minas Gerais e Bahia.

Mira particularmente 600 mil hectares de áreas "degradadas" no Espírito Santo que poderiam ser utilizadas para plantios de eucalipto. Olha, particularmente, as regiões de montanha margeadas pela ferrovia Litorânea Sul, que será construída ligando a malha ferroviária de Cariacica a Cachoeiro.

Na avaliação do Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA) há muita conversa fiada quando se fala em plantios de eucalipto e aumento da produção da celulose. Afirma que 30% do papel produzido no mundo bastam para as necessidades da população. E isso sem contar a possibilidade de reciclagem. Mas o que a Aracruz Celulose quer é produzir o insumo do papel toalha e higiênico para europeus e norte-americanos, que os gastam sem medida.

O MPA denuncia que a empresa e os governos desconsideram os impactos sociais, ambientais e econômicos que tais projetos promovem. "Vamos ver quanto de recursos públicos serão aplicados nesses projetos. Mas não há dinheiro para a reforma agrária, que conteria a migração da cidade para ao campo; quer permitiria a geração de emprego e renda no campo, e que produziria comida", diz Sérgio Conti, um dos coordenadores no Espírito Santo.

Afirma ainda que as empresas de produção da celulose têm como meta aumentar o plantio de eucalipto de 5 milhões para 11 milhões de hectares no Brasil. Entre 2009 e 2015, as empresas de celulose e papel querem construir seis novas fábricas.

Estão previstas uma nova fábrica da Cenibra, em Minas Gerais; uma unidade da Bahia Sul, do grupo Suzano, em Mucuri, na Bahia; duplicação da Veracel, Bahia; fábrica da Stora Enso (sócia da Aracruz Celulose na Veracel), no Rio Grande do Sul; Votorantim (São Paulo); e, a quarta fábrica da Aracruz Celulose (que deverá ser construída no Espírito Santo ou na Bahia). As empresas argumentam que a produção brasileira atual de papel é 9 milhões de toneladas anuais e que a China produz 45 milhões/ano.

A Aracruz Celulose tomou e ocupou terras dos quilombolas, dos índios e de pequenos agricultores no Espírito Santo. Continua comprando terras agrícolas e expandindo os plantios de eucalipto, sem contar a terceirização da produção, através do Programa Produtor Florestal.

   


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