Vitória (ES), edição de 02 de dezembro de 2006    
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Telecentro Legal



Gabriel Menotti
Atualizado toda sexta-feira, às 16 horas



Inclusão digital é uma babaquice. A mera idéia de que plantar uma dúzia de computadores no meio da periferia vá melhorar a vida de alguém é falaciosa, de fé pior do que qualquer outro subsídio pop reservado para a massa funkeira. Todo mundo sabe que computador só causa problema.

Ainda assim, não é surpresa que, de uns tempos para cá, telecentro tenha se transformado em política de governo. Cada Ministério tem sua própria Casa Brasil, Ponto de Cultura, rede GESAC. Mudam os nomes, mas não a premissa: construir redes que já nascem esgotadas, onde donas-de-casa jogam klondike, aprendem datilografia e preparam currículos para empregos que nunca virão. Meninos do tráfico agora sonham em ser monitores de acesso e passar o dia inteiro no Orkut. O Mercado Livre agradece.

Um FAQ (www.idbrasil.gov.br/docs_telecentro/docs_telecentro/nao_pagar) do Ministério das Comunicações diz que telecentro é que nem "um posto de saúde, uma creche, um centro de assistência e etc". O que já explica muito sobre a atenção que o Estado dá a esses lugares - e a situação em que devemos encontrá-los, quando passar o hype da Internet grátis.

O problema não está na forma, já que terminais conectados servem para muita coisa além de produzir lúmpen-proletariado cognitivo. Jogar Counter Strike, por exemplo. Então, se nossos gurus são realmente sinceros na intenção de preparar o eleitorado para o ciberespaço, sugiro que troquem cada telecentro por uma Lan House.

Enquanto o menor aprendiz faz curso de torneiro mecânico patrocinado pela Chocolates Garoto, pronto a integrar algum exército de reserva do século XIX, os moleques da lan aprendem a reagir na velocidade do mundo contemporâneo. Aprendem melhor do que nós, que freqüentamos a Wikipedia achando que saber-o-mundo vai continuar por muito tempo sujeito ao constrangimento desses parágrafos.

Quando bater a realidade virtual, os únicos realmente aptos serão pré-adolescentes que atendem por alcunhas tão pueris quanto Minduim^HellFire e Sp4wN [PPVClan]. Eles vão estar lá quando, depois de semanas de treinamento intensivo na Cave da USP, aportarmos em um litoral de palmeiras renderizadas a POV-Ray. E, tendo na lembrança todas as oportunidades, cursos e concursos do mundo real - humilhações em entrevistas de emprego -, nos receberão com um belo head shot.

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E-mails para o colunista: gabriel.menotti@gmail.com

 

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