Fatos & versões




Antônio Carlos Medeiros
é administrador e cientista político

Os jornalistas costumam dizer que, em matéria de notícia, a versão é mais importante que o fato. Assim, na produção diária das notícias e análises, são as versões que acabam ficando e se tornando informações. De certa forma, esta afirmativa dos jornalistas é uma "tradução livre" de um provérbio popular, segundo o qual uma mentira muitas vezes dita e repetida acaba tornando-se "verdade".

Relembro desta idéia da importância da versão na produção da informação, em função da "análise" que o empresário João Gualberto Moreira Vasconcellos faz sobre a entrevista concedida pelo ex-governador Vitor Buaiz aos jornalistas Nilo de Mingo e Xerxes Gusmão Neto, da prestigiosa Revista Essa (Revista Essa, março de 2006).

A Revista Essa, como se sabe, está publicando uma série de entrevistas com vários ex-governadores do Espírito Santo, com o salutar intuito de contribuir para a formação da memória capixaba. Tem, portanto, um objetivo histórico, de mostrar o que cada período governamental significou na História do Espírito Santo.

Tendo em vista este objetivo de produção de memória histórica, gostaria de argüir que o empresário João Gualberto cometeu equívocos factuais em seus comentários. Ao cometer equívocos factuais, o empresário contribui, portanto, para a produção de versões equivocadas. Como é a versão que fica, e não o fato, isto significa que João Gualberto pode estar construindo informações históricas equivocadas. Isto é muito grave.

O equívoco factual do empresário pode ter passado despercebido, mas é muito simples. Depois de elogiar a gestão de Vitor Buaiz à frente da Prefeitura de Vitória, afirmando que ele teria feito um "gol de placa" naquela gestão, João Gualberto constrói o seguinte comentário sobre a gestão de Vitor Buaiz à frente do governo do estado do Espírito Santo :

(a) "Vitor chegou ao Palácio Anchieta em 1994. Sucedeu a um administrador que havia maltratado as finanças públicas e não teve forças para apoiar de forma decisiva um candidato";

(b) "...O sucesso eleitoral (de Vitor Buaiz) teve muito de uma mobilização de amplos setores sociais, muito além do PT. Aliás, os petistas parece que nunca entenderam a mágica daquela vitória. Tanto que construiu (sic) um governo que abandonou suas alianças e ficou em um secretariado eminentemente militante. Primeiro grande erro";

(c) "Como muito bem demonstraram as falas (eles) caíram na mesma armadilha de seu antecessor, Albuíno Azeredo. Imaginaram trabalhar aliançados com os setores fisiológicos da política estadual...". "...Exatamente como os velhos coronéis. Depois, reclamam que o PT não lhe deu apoio. Mas como apoiar uma política tão tradicional ?".

O equívoco factual do empresário João Gualberto se encontra na afirmativa de que Vitor Buaiz teria cometido o seu primeiro grande erro ao ter "ficado"com um secretariado eminentemente militante e ter "abandonado" as suas alianças, na formação inicial do governo.

Ora, basta compulsar os jornais da época, ou a coleção do Diário Oficial, para verificar que o secretariado inicial de Vitor Buaiz no governo estadual foi composto não apenas por militantes do PT, mas também por integrantes de outros partidos.

Com efeito, estiveram presentes: o PSB, com Renato Casagrande (vice-governador e secretário da Agricultura), com Antônio Caetano Gomes (secretário da Administração) e com Fernando Schetino (secretário de Meio Ambiente); o PMDB, com Orlando Caliman e, em seguida, com Sérgio Borges (Presidência do Bandes); o PSDB, com Ricardo Santos (secretário da Fazenda), com Luzia Toledo, e depois com Walter de Prá (Secretaria de Representação Institucional em Brasília ), e o PTB, a partir de 1996 (segundo ano de governo), com Ricardo Ferraço (Casa Civil) e com Aloísio Santos (Presidência da COHAB).

Já o PT esteve sempre representado no governo Vitor Buaiz. No início do governo, esteve representado por várias correntes partidárias através de: João Luis Paste (presidente da Cesan); Otaviano Carvalho (secretário de Comunicação); Tarcísio Vargas (presidente da Ceturb); Magno Pires (secretário de Planejamento); Pedro Benevenuto (secretário da Saúde); Perly Cipriano (secretário da Justiça); Guilherme Lacerda (diretor do Bandes); Rogério Medeiros (Casa Civil e depois secretário da Fazenda); Fernando Bettarello (secretário de Transportes e depois presidente do Bandes), e Robson Neves (Casa Civil e depois secretário da Educação).

Depois, o PT deixou de ter representantes, no primeiro escalão, de suas correntes mais à esquerda, com as saídas de Otaviano de Carvalho, Magno Pires e João Luis Paste, por exemplo. Mas continuou presente com representantes da corrente Articulação, incluindo-se depois o então petista Jorge Alexandre, que ocupou a Secretaria do Meio Ambiente. Mesmo depois que Vitor Buaiz desligou-se do PT, ainda assim permaneceram no governo, até o final, dois petistas importantes: Perly Cipriano (Secretaria da Justiça), que saiu no final por causa do prazo de desincompatibilização, e Guilherme Lacerda, que ficou até o final como secretário do Planejamento.

Percebe-se, portanto, um equívoco factual do empresário João Gualberto. Ao contrário do que ele afirma, o governo Vitor Buaiz não teve apenas um secretariado eminentemente militante. Com efeito, passaram pelo secretariado integrantes de nada menos que seis partidos políticos: PSB, PT, PTB, PMDB, PSDB e, também, o PDT, com a participação do professor Rômulo Penina. Além disto, profissionais e técnicos não filiados a partidos políticos também integraram o governo Vitor Buaiz, como a arquiteta Sandra Berredo e o general Luis Edmundo.

Além do equívoco factual, com a sua afirmativa sobre a "hegemonia da militância", João Gualberto incorre também numa contradição em sua "análise". Ora ele afirma que o governo teria abandonado suas alianças de campanha para formar um governo militante, de coloração petista, ora, em seguida, ele afirma que o governo fez alianças com os setores fisiológicos e coronelistas e abandonou as suas origens petistas - "exatamente como os velhos coronéis", como ele afirma textualmente.

Esta é uma contradição em termos. Segundo ele, o governo era de militantes, mas era, também, fisiológico e com práticas coronelistas. Como se a realidade fosse assim: preto-ou-branco, de soma zero, ganha-perde. Ou seja, e aí está a contradição: se é militante, renega apoios; mas se busca apoios, é sinônimo de práticas coronelistas.

O dado de realidade é que o governo Vitor Buaiz nem foi eminentemente militante, nem foi de extração fisiológica, como demonstra a própria análise de sua composição multi-partidária e eclética.

O dado de realidade, e aqui está o equívoco fundamental do empresário João Gualberto, é que Vitor Buaiz articulou todo o tempo para formar um governo de coalizão. Mas não teve, nunca, sucesso nesta (necessária) empreitada.

Primeiro, porque, desde o início, partidos que integraram o governo jamais o assumiram institucionalmente. Por exemplo, o fato do PSDB ter tido sempre representantes no governo, não significou que o PSDB, como partido, tenha apoiado o governo Vitor. O mesmo vale para o PMDB. Isto teve como efeito, como é óbvio, o estreitamento radical da base aliada do governo. Na Assembléia Legislativa, o governo Vitor Buaiz contava com, no máximo, um terço do conjunto dos deputados estaduais. O que tornava extremamente difícil a formação de maiorias.

Segundo, a coalizão não foi possível porque a disputa pela hegemonia no interior do PT, transferiu-se para uma disputa por espaços e prioridades no interior do governo, tornando difícil a formulação do consenso nas diversas políticas públicas.

Assim, o estreitamento da base aliada acabou levando o governo a buscar apoios nos municípios - alianças com prefeitos municipais. E, também, com segmentos da sociedade organizada - Câmaras Setoriais diversas (Energia, Turismo, Áudio-Visual, Fiscal e outras). Mas isto era insuficiente.

A resultante, então, foi a solidão política agravada pelos problemas fiscais trazidos pelo aumento salarial do início do governo, pela Lei Kandir, e pela falta de apoio do governo Fernando Henrique Cardoso. O que não significou que o governo tenha ficado paralisado do ponto de vista administrativo, em que pese a recorrência do déficit primário nas contas do Tesouro Estadual.

Muitas ações foram implementadas e muitos projetos foram iniciados, nas mais diversas áreas. São dados de realidade, que a entrevista à Revista Essa enumera. (Aliás, talvez tenha sido por isto que, mesmo na solidão política, o governador foi estimulado, em 1998, por um conjunto relevante de prefeitos municipais, à disputar a reeleição. Este, também, é um dado de realidade).

Estes parecem ser os fatos. Para além das ofensas gratuitas que o empresário João Gualberto dirige ao "Governo Vitor Buaiz", o qual acusa de: (a) "não ter entendido o seu tempo"; e (b) de "não estar à altura dos desafios históricos que lhes foram colocados e misturou-se (sic) com o passado". Para além, também, por quê não registrar, da ofensa gratuita que ele dirige ao hoje médico Vitor Buaiz - do qual diz que deve ser por isto, por não ter tido futuro, que "foi tão bom para ele voltar à prática da medicina" (Revista Essa, março de 2006).

Adubando a intolerância; explicitando o escárnio; perdendo o respeito pelas pessoas, e a serenidade para ser "analista", o empresário João Gualberto Moreira Vasconcellos não dá provas de ser um democrata. E, o que é pior, não demonstra consciência de compreender o que significa governança e governabilidade. Lamentável.